Peças de cerâmica dos Tapajó registram rituais e cenas cotidianas em Santarém, e entre 1661 e 1665 sua produção foi proibida

Peças de cerâmica dos Tapajó registram rituais e cenas cotidianas em Santarém, e entre 1661 e 1665 sua produção foi proibida
Ilustração: Revista Amazônia

Vasos, estatuetas e figuras de animais preservam informações sobre crenças, organização social e práticas simbólicas dos povos que viveram na região antes da colonização europeia.

Um vaso com abertura semelhante à de uma garrafa, braços alongados e figuras de animais reúne parte da história dos Tapajó em Santarém, no Pará. Jacarés, serpentes, rãs, macacos e urubus-reis aparecem entre as formas representadas nas peças, ao lado de figuras humanas e cenas do cotidiano. A cerâmica tapajônica é um dos importantes vestígios arqueológicos da Amazônia e registra aspectos das crenças, dos hábitos e da organização social dos grupos originários que habitaram a região antes da colonização europeia.

Os objetos também revelam o domínio de conhecimentos técnicos, artísticos e culturais por uma sociedade que reunia grande concentração populacional, embora o conceito de cidade ainda não existisse naquele contexto. As peças ajudam a compreender como aqueles povos representavam a vida, a fauna e as práticas coletivas. Essa tradição foi interrompida durante a presença jesuítica na região, entre 1661 e 1665, quando a produção foi proibida e muitas cerâmicas acabaram destruídas.

Vasos de gargalo combinavam formas humanas e animais

Entre os objetos mais emblemáticos estão os vasos de gargalo, identificados pela abertura estreita, parecida com a de uma garrafa. Seus braços alongados recebem decorações que misturam criaturas da fauna e elementos antropomorfos, ou seja, representações com características humanas. A escolha de jacarés, serpentes, rãs, macacos e urubus-reis não aparece apenas como ornamentação isolada. As figuras integram uma linguagem visual que permite observar como os Tapajó construíam imagens relacionadas à vida social, às crenças e ao ambiente em que estavam inseridos.

Também se destacam os vasos de cariátides, que têm formato de taça e são divididos em duas partes. A porção inferior é sustentada por figuras femininas, enquanto a parte superior recebe uma combinação de seres da fauna estilizada. A presença de corpos humanos servindo de suporte dá à peça uma composição que une função, estrutura e representação. Para o arqueólogo Jefferson Paiva, esse conjunto transforma a cerâmica em um registro histórico, porque os objetos permitem compreender hábitos, crenças e a organização das sociedades que viveram na região antes da chegada dos europeus.

Vasos e estatuetas preservam rituais e cenas da vida

As representações cerâmicas também estão ligadas a rituais dos povos antigos. Entre as práticas simbólicas de memória coletiva descritas para os Tapajó estavam cerimônias que envolviam restos mortais cremados e bebidas cerimoniais. Segundo Jefferson Paiva, os vasos de cariátides estavam relacionados a rituais funerários que incluíam práticas de endocanibalismo. Após um primeiro sepultamento, os restos mortais podiam ser cremados, e parte das cinzas era misturada a bebidas colocadas nas peças e consumidas coletivamente.

Nessa interpretação, o consumo tinha um sentido simbólico de preservar a presença do ente falecido dentro da comunidade. As estatuetas, por outro lado, retratam situações da vida cotidiana. Há imagens de mães com crianças no colo, bebês levando o pé à boca, mulheres segurando vasos e um pajé ou xamã em momentos de reflexão. Esses detalhes aproximam os objetos de experiências concretas, como cuidado, infância, espiritualidade e participação das mulheres nas atividades sociais, sem separar a produção artística das relações que estruturavam a comunidade.

Relatos coloniais registraram práticas que seriam perseguidas

Documentos históricos também mencionam o uso dos artefatos em cerimônias. Em uma carta, o padre João Felipe Bettendorf relatou que as peças estavam associadas a rituais ligados à vida e à morte, incluindo nascimentos, colheitas e cerimônias espirituais. O registro foi produzido a partir do olhar jesuítico sobre os Tapajó, em um período de forte contato e conflito cultural. Por isso, sua leitura precisa ser relacionada às próprias peças e aos estudos arqueológicos que investigam a ocupação humana na região de Santarém.

Naquele contexto, os Tapajó foram classificados pelos religiosos como “idólatras”, e seus objetos foram associados a práticas demoníacas. Durante a presença jesuítica, entre 1661 e 1665, muitas cerâmicas foram destruídas e sua produção foi proibida. A perseguição atingiu diretamente a transmissão da tradição, interrompendo parte de uma prática que combinava técnica, imagens, rituais e memória. A avaliação histórica desse processo ajuda a entender por que a cerâmica tapajônica não deve ser observada apenas como uma coleção de peças antigas, mas como um registro de uma cultura submetida à repressão colonial.

A cerâmica aproxima Santarém de uma história anterior à colonização

Os vestígios indicam que a região de Santarém abrigou uma grande concentração populacional antes da colonização europeia. Embora não seja adequado aplicar automaticamente a ideia moderna de cidade a esse contexto, a presença dos objetos aponta para formas organizadas de vida coletiva e para conhecimentos especializados na produção cerâmica. Pinturas, relevos, figuras humanas e animais mostram que os artesãos trabalhavam com soluções técnicas e visuais capazes de comunicar crenças e relações sociais em diferentes tipos de objeto.

Para Jefferson Paiva, valorizar essa memória e essa ancestralidade é fundamental para reconectar a população às raízes culturais da região. A consequência mais importante de preservar essas peças está justamente na possibilidade de reconhecer uma história amazônica produzida pelos próprios povos que viveram no território, mesmo quando documentos coloniais tentaram desqualificar seus rituais. Cada vaso ou estatueta conserva uma parte dessa experiência, mas também lembra que o patrimônio cultural depende de interpretação cuidadosa, respeito às comunidades originárias e enfrentamento das leituras que transformaram práticas indígenas em motivo de destruição.

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