Em Poconé, cerca elétrica reduz perdas por onças em 83%, enquanto GPS revela onde os ataques se concentram

Em Poconé, cerca elétrica reduz perdas por onças em 83%, enquanto GPS revela onde os ataques se concentram
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Proteção de bezerros, monitoramento e manejo das áreas de criação formam uma estratégia para diminuir prejuízos sem ampliar o conflito com a fauna.

Para quem cria gado perto de áreas de vegetação nativa, a perda de um bezerro pode ser o primeiro sinal de que a propriedade está dividindo espaço com uma onça-pintada. Em Poconé, no Mato Grosso, uma experiência com proteção elétrica para bezerros registrou redução de 83% nas perdas atribuídas a ataques do felino. O resultado, observado em uma propriedade específica, reforça uma estratégia baseada em prevenção, monitoramento e mudanças na rotina do rebanho.

A proposta não é retirar a onça do território, mas diminuir as oportunidades de encontro entre o predador e os animais mais vulneráveis. O manejo também busca evitar que prejuízos econômicos levem a respostas que agravem o conflito com uma espécie importante para o equilíbrio dos ecossistemas.

O risco começa nas primeiras semanas de vida

Bezerros recém-nascidos têm menor capacidade de fugir ou se defender. Por isso, os períodos de parto e os primeiros dias de vida exigem atenção maior do produtor, sobretudo em fazendas próximas a matas, corredores de vegetação e áreas usadas pelas onças para abrigo e deslocamento.

Uma das medidas recomendadas é reunir vacas e crias em áreas de maternidade mais protegidas. Quando esse espaço fica perto da sede da propriedade, o acompanhamento pode ser feito com maior frequência. A mudança não elimina o risco, mas reduz o tempo em que os animais ficam isolados e facilita a identificação de sinais de predação.

O registro das ocorrências é outra parte do manejo. Anotar o local, o horário e as condições de cada ataque ajuda a perceber se os eventos se repetem em uma determinada área ou em períodos específicos. Com essa informação, o produtor pode restringir temporariamente o acesso ao ponto mais vulnerável ou transferir o rebanho para uma área de menor risco.

Como a cerca elétrica atua na prática

A cerca elétrica funciona como uma barreira adicional em locais estratégicos, especialmente nos espaços destinados aos bezerros e nas áreas onde já houve ataques. O equipamento depende de instalação correta, manutenção e adaptação ao terreno. Uma estrutura mal conservada pode perder eficiência e criar uma falsa sensação de segurança.

Segundo o Sesc Pantanal, uma experiência realizada em uma propriedade de Poconé, no Mato Grosso, registrou redução de 83% nas perdas atribuídas a ataques de onças-pintadas após a adoção de proteção elétrica para bezerros durante a noite.

Esse percentual não deve ser tratado como uma taxa aplicável a qualquer fazenda. O resultado pertence a uma experiência específica e pode variar conforme o tamanho da propriedade, a presença de vegetação nativa, o comportamento dos animais e a forma como o sistema é instalado. A cerca tende a funcionar melhor quando está associada à vigilância e à organização do rebanho.

Cães ampliam a vigilância, mas não substituem o manejo

Cães de guarda de rebanho podem alertar para a aproximação de predadores e aumentar a movimentação nas áreas de criação. Para isso, precisam ser escolhidos, treinados e adaptados ao gado. O manejo diário também influencia o resultado, assim como a disponibilidade de espaço, alimento e cuidados veterinários.

Usar cães como única defesa, porém, deixa brechas. Eles não substituem cercas, iluminação, acompanhamento das crias nem a análise dos registros de ataques. A função é complementar, como parte de um conjunto de medidas que deve ser ajustado à realidade de cada propriedade.

GPS ajuda a enxergar a sobreposição de territórios

O monitoramento não se limita ao que acontece dentro da fazenda. Pesquisadores utilizam coleiras com GPS para acompanhar os deslocamentos das onças-pintadas e verificar como os felinos ocupam a paisagem. A comparação entre essas rotas e as áreas usadas pelo gado pode apontar os locais onde a sobreposição é maior.

Esse tipo de informação ajuda a direcionar investimentos. Em vez de instalar barreiras em toda a propriedade, o produtor pode concentrar esforços nos pontos de passagem, nos corredores próximos à mata e nas áreas onde os bezerros permanecem durante a noite. O objetivo é transformar um problema difuso em um mapa de risco mais preciso.

Para a pesquisa, os dados também permitem compreender como as onças respondem às alterações no ambiente. A perda e a fragmentação de habitats aumentam a possibilidade de encontros com criações domésticas, principalmente quando a oferta de abrigo e alimento muda. A prevenção, portanto, interessa tanto à produção quanto à conservação.

O que muda para a pecuária na Amazônia

O mesmo desafio aparece em áreas rurais da Amazônia onde pastagens, fragmentos florestais e rotas de fauna ficam próximos. Nos estados do Acre, Amapá, Amazonas, Maranhão, Mato Grosso, Pará, Rondônia, Roraima e Tocantins, a presença de vegetação nativa ao redor das propriedades torna o planejamento do rebanho uma ferramenta importante para reduzir encontros com predadores.

Isso não significa que todas as fazendas estejam sujeitas ao mesmo nível de risco. O histórico local, a paisagem e a presença de onças variam bastante. A conexão com a realidade amazônica está justamente na necessidade de adaptar a criação às áreas de circulação da fauna, em vez de presumir que uma única solução servirá para todos os territórios.

Quando a prevenção não evita toda perda

Mesmo com proteção reforçada, alguns animais podem ser predados. Programas de compensação podem reduzir parte do impacto financeiro, desde que existam na região e tenham regras para comprovar a ocorrência, definir os critérios e autorizar o pagamento. O recurso não é automático para qualquer perda registrada.

O limite é importante porque a compensação não substitui a prevenção. Também não resolve, sozinha, a perda de habitat nem a disputa por espaço. A estratégia mais consistente combina proteção das crias, cercas em pontos críticos, acompanhamento das ocorrências, uso responsável de cães e informações sobre o deslocamento das onças.

Os próximos passos dependem de ampliar o monitoramento e ajustar as medidas às características de cada propriedade, mantendo a produção pecuária e a conservação da onça-pintada dentro da mesma agenda de prevenção.

Com informações de Sesc Pantanal.

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