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Do Cerrado à África: ciência busca produzir alimentos em clima extremo

Pesquisadores em painel do Simpósio Cerrado e Savanas Tropicais, da Embrapa
Painel sobre Meio Ambiente e Mudanças Climáticas no X Simpósio Nacional Cerrado e III Simpósio Internacional Savanas Tropicais. Crédito: Embrapa

As tecnologias que transformaram o Cerrado em uma das maiores fronteiras agrícolas do mundo podem ajudar a África a produzir mais alimentos e a enfrentar a crise climática. A aposta foi defendida por pesquisadores reunidos no X Simpósio Nacional Cerrado e III Simpósio Internacional Savanas Tropicais, promovido pela Embrapa Cerrados.

Cerrado como modelo para as savanas africanas

Com cerca de 60% das terras agricultáveis ainda não exploradas do mundo, o continente africano busca adaptar tecnologias desenvolvidas no Cerrado para enfrentar a fome, gerar empregos e fortalecer a segurança alimentar. Para Abdukrazak Ibrahim, coordenador do Fórum para Pesquisa Agrícola na África (Fara), a transformação do bioma brasileiro pode servir de modelo para o desenvolvimento sustentável das savanas africanas.

“Temos dois biomas semelhantes. A ciência transformou um, o Cerrado brasileiro, e pode transformar o outro, a savana africana”, afirmou Ibrahim.

O pesquisador ponderou que o objetivo não é repetir a experiência brasileira de forma idêntica. “O objetivo não é copiar o Brasil. Precisamos adaptar as tecnologias e conhecimentos às diferentes realidades africanas”, explicou. Ele lembrou que a transformação da agricultura brasileira levou cinco décadas de investimento em ciência e inovação.

Por que a África aposta na cooperação com o Brasil

O desafio africano é urgente. Segundo projeções da ONU, o continente deve abrigar cerca de 2,5 bilhões de habitantes em 2050 e hoje importa cerca de US$ 100 bilhões em alimentos por ano. Ao mesmo tempo, dispõe de cerca de 600 milhões de hectares de terras agricultáveis e de uma população majoritariamente jovem.

Ibrahim citou avanços recentes como a autossuficiência em trigo na Etiópia, o aumento da produção de mandioca na Nigéria, os ganhos de produtividade do milho em Gana, as plataformas digitais de agricultura no Quênia e a gestão integrada da terra em Ruanda. Ainda assim, a margem de crescimento é grande: a produtividade média do milho na África é de 2,2 toneladas por hectare, enquanto produtores mais tecnificados chegam a 10 a 12 toneladas.

Mais de 3 mil estudantes e profissionais de 20 países africanos já passaram por programas de capacitação no Brasil. O próprio Ibrahim foi bolsista na Embrapa durante o doutorado.

“É possível tirar nossos países da fome. O Brasil mostrou que a transformação é viável”, disse.

Clima e biodiversidade, as “crises gêmeas”

O sucesso de produzir mais alimentos, porém, depende de enfrentar as mudanças climáticas e conservar a biodiversidade. Para a professora da Universidade de Brasília (UnB) Mercedes Bustamante, clima e perda de biodiversidade formam “crises gêmeas” que não podem ser tratadas separadamente.

Ela destacou o papel estratégico do Cerrado, que ocupa cerca de 23% do território nacional e funciona como elo entre Amazônia, Caatinga, Pantanal e Mata Atlântica. “O destino do Cerrado tem impacto muito grande pela sua conectividade com todos os outros biomas brasileiros”, afirmou. Estudos apresentados por ela mostram que, entre 2006 e 2019, a conversão da vegetação nativa reduziu em cerca de 10% a evapotranspiração e elevou a temperatura em áreas de expansão agrícola, sobretudo no Matopiba (Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia).

Prejuízo de R$ 300 bilhões e secas mais longas

O pesquisador da Fundação Getulio Vargas (FGV) Eduardo Assad apresentou dados de que os efeitos climáticos sobre a agropecuária já são realidade. Segundo a Embrapa, eventos climáticos extremos provocaram perdas de cerca de R$ 300 bilhões na agricultura brasileira entre 2000 e 2024.

“O mundo está ficando mais quente e mais seco e não estamos prestando atenção nisso. Isso compromete muito a agricultura”, alertou Assad.

Mapas apresentados por ele mostram redução das chuvas e secas mais frequentes em regiões produtoras do Cerrado. Em alguns locais, a estação chuvosa já encurtou cerca de 22 dias, com impacto direto sobre culturas como a soja e o milho.

Quando preservar também gera lucro

Apesar do cenário, os pesquisadores apontaram saídas. A recuperação de pastagens degradadas, os sistemas de Integração Lavoura-Pecuária-Floresta (ILPF), o manejo sustentável do solo e a conservação da vegetação nativa estão entre as estratégias para produzir mais sem ampliar o desmatamento.

O gerente sênior de sustentabilidade da Syngenta, Jonas Oliveira, apresentou o programa Reverte, criado em 2019, que já recuperou mais de 280 mil hectares em cerca de 400 propriedades, com mais de R$ 2 bilhões em financiamento. Em uma fazenda em Itaúba (MT), uma área degradada de 4 mil hectares voltou a produzir soja, milho e algodão. Em Açailândia (MA), o faturamento de uma propriedade saltou de cerca de R$ 1 mil para R$ 10 mil por hectare ao ano, mantendo mais da metade da área com vegetação nativa.

“Sem desmatamento e queimadas, o Brasil pode ser o maior sumidouro de carbono do planeta”, afirmou Assad.

A conexão com a Amazônia

Embora o debate tenha foco no Cerrado, suas conclusões alcançam diretamente a Amazônia. Como elo entre os principais biomas brasileiros, o Cerrado influencia o regime de chuvas e a regulação hídrica que sustentam a floresta e a produção de alimentos em todo o país. Proteger uma savana, nesse sentido, é também proteger a floresta.

Perguntas frequentes

O que o Cerrado tem a ver com a África?

Cerrado e savanas africanas são biomas semelhantes. As tecnologias agrícolas tropicais desenvolvidas no Brasil podem ser adaptadas para aumentar a produção de alimentos na África, segundo pesquisadores.

Qual o impacto das mudanças climáticas na agricultura brasileira?

Eventos climáticos extremos causaram perdas de cerca de R$ 300 bilhões entre 2000 e 2024, com secas mais longas e queda de produtividade de culturas como soja e milho.

É possível produzir mais sem desmatar?

Sim. Programas como o Reverte mostram que recuperar áreas degradadas e adotar sistemas integrados pode unir produtividade, rentabilidade e conservação.

Com informações da Embrapa Cerrados.

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