
Durante anos, pescadores e moradores do Pantanal contavam ter visto um cervo diferente, de pelo quase preto, no meio dos campos alagados. Sem foto e sem registro científico, a história ficou com fama de lenda. Agora, pesquisadores confirmaram pela primeira vez a existência de cervos-do-pantanal com melanismo, a condição genética que escurece a pelagem, tanto no Pantanal quanto no Cerrado.
A descoberta foi publicada na revista científica Notas sobre Mamíferos Sudamericanos, em trabalho de pesquisadores do Onçafari e da Embrapa Pantanal.
Drones e câmeras
Os primeiros três animais foram flagrados por drones e armadilhas fotográficas durante um monitoramento de longo prazo da fauna. Uma fêmea apareceu no Caiman Pantanal, em Mato Grosso do Sul. Dois machos foram registrados no Parque Nacional Grande Sertão Veredas, na divisa entre Minas Gerais e a Bahia, já no Cerrado. Depois da publicação, um terceiro macho jovem também foi visto no Cerrado.
O cervo-do-pantanal (Blastocerus dichotomus) normalmente tem pelagem castanho-avermelhada, com as pernas escuras. Nos animais melânicos, o pelo fica tão fechado que pode parecer preto à distância.
O maior veado do Brasil
O cervo-do-pantanal é o maior cervídeo da América do Sul. Pode chegar a 1,30 metro de altura na altura do ombro, sem contar a galhada dos machos, que pode ter vários ramos. Vive em áreas úmidas, brejos e campos alagáveis, onde as patas com cascos largos e uma membrana entre os dedos ajudam a andar na lama e na água.
O Pantanal é o principal reduto da espécie. Concentra cerca de 88% da população brasileira, estimada em aproximadamente 40 mil animais. Fora dele, o cervo perdeu boa parte do habitat com a drenagem de várzeas, a construção de hidrelétricas e a expansão agrícola.
Dois terços escuros no Grande Sertão
O dado mais curioso veio do Parque Nacional Grande Sertão Veredas, onde a espécie está criticamente ameaçada de extinção. Entre fevereiro de 2025 e janeiro de 2026, os animais de pelagem escura corresponderam a 66,7% das observações. Ou seja, num lugar onde o cervo é raro, o pelo escuro deixou de ser exceção.
O que explica o pelo escuro
Os pesquisadores ainda não sabem a causa. No Cerrado, uma hipótese é um gargalo genético: com poucos animais, os cruzamentos entre parentes ficam mais comuns e características raras, como o melanismo, aparecem com mais frequência.
A explicação, porém, não serve para o Pantanal, onde a população é grande e saudável. Lá, a origem do pelo escuro continua em aberto. Casos de melanismo são conhecidos em outros animais brasileiros, como a onça-pintada, cuja forma escura é chamada popularmente de onça-preta, mas em cervídeos o fenômeno é muito menos documentado.
Ameaças ao cervo
O cervo-do-pantanal é considerado vulnerável à extinção no Brasil. A espécie perdeu grande parte das antigas áreas de várzea nos rios Paraná, Paraguai e São Francisco, transformadas em lagos de hidrelétricas, lavouras e pastagens. Também sofre com doenças transmitidas pelo gado, caça e atropelamentos. No Pantanal, a população ainda é robusta, mas grandes incêndios e secas mais longas, como as dos últimos anos, reduzem os campos alagados de que o animal depende para se alimentar e se esconder.
Como diferenciar o cervo de outros veados
No Brasil vivem várias espécies de veados, mas nenhuma chega perto do tamanho do cervo-do-pantanal. O veado-campeiro, comum nos campos do Pantanal e do Cerrado, é bem menor e mais claro. Os veados-mateiros e catingueiros vivem dentro da mata e têm chifres simples, em forma de espeto. A galhada ramificada, as orelhas grandes e as pernas escuras, que parecem meias, são as marcas do cervo, agora também conhecido na versão de pelo escuro.
Por que o registro importa
Além da curiosidade, o achado tem valor para a conservação. Saber que existe uma variação genética visível ajuda a acompanhar populações e a entender se pequenos grupos isolados, como os do Cerrado, estão perdendo diversidade genética. Para quem vive no Pantanal, a confirmação também tem outro significado: a lenda contada nas beiras de rio era, afinal, um animal real.
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