Guarda-sóis submarinos reduzem o branqueamento de corais na Flórida

Coral-cérebro branqueado nas Florida Keys

Telas de sombra instaladas sobre corais-cérebro no verão de 2024, o segundo de maior estresse térmico já registrado no local, fizeram as colônias recuperar cor enquanto as vizinhas sem proteção continuavam a empalidecer. O método é barato, mas serve para corais prioritários, não para recifes inteiros.

Vinte telas de sombra, montadas em molduras de PVC e ancoradas no fundo do mar, bastaram para mudar o destino de um grupo de corais-cérebro nas Florida Keys, nos Estados Unidos, durante a onda de calor marinho de 2024. Instaladas quando os corais já tinham começado a perder a cor, as estruturas fizeram as colônias protegidas recuperar o tom, enquanto as vizinhas expostas ao sol seguiram empalidecendo até a água esfriar.

O experimento foi publicado em outubro na revista científica Frontiers in Marine Science por pesquisadores do Instituto Nacional de Recifes de Coral (NCRI) da Nova Southeastern University (NSU), na Flórida, e da Escola Rosenstiel de Ciências Marinhas e Atmosféricas da Universidade de Miami. A autora principal é a pesquisadora Karen Neely, do NCRI. “Os corais sombreados chegaram a recuperar parte da cor depois que as telas foram instaladas”, afirma.

A escolha do local não foi por acaso. Em 2023, a água nas Florida Keys bateu recordes, e o estresse térmico acumulado foi o dobro do de qualquer outro ano desde o início das medições por satélite, em 1985. Na maioria dos recifes, 100% dos corais branquearam. Em um ponto costeiro especialmente quente, 55% das colônias monitoradas sofreram morte parcial ou total, e os corais-cérebro foram os mais atingidos: entre 41% e 80% das colônias de quatro espécies perderam parte ou todo o tecido. Foi nesse recife, Newfound Harbor, ao sul da ilha de Big Pine Key, que a equipe montou o teste do verão seguinte.

O branqueamento é a quebra de uma parceria. Os corais abrigam em seus tecidos microalgas que fazem fotossíntese e lhes fornecem boa parte do alimento. Quando a água esquenta demais, essa relação se desfaz, as algas saem e o esqueleto branco aparece por baixo do tecido transparente. Sem as parceiras, o coral pode morrer de fome. A sombra não esfria a água, mas reduz a radiação ultravioleta e o excesso de luz, que agravam o dano provocado pelo calor.

Cada guarda-sol foi feito sob medida: uma moldura de PVC preenchida com espuma, para flutuar, coberta por uma tela agrícola de polietileno que, segundo o fabricante, corta 60% da luz sem alterar sua composição. A moldura passava 5 centímetros das bordas de cada colônia e ficava cerca de 30 centímetros acima dela, presa por cordas a quatro parafusos de 11 centímetros fixados no fundo, a uns 50 centímetros do coral. O custo do material ficou em torno de US$ 30 por estrutura.

Como funcionam os guarda-sóis. No alto, o esquema da estrutura: moldura de PVC com tela que corta 60% da luz, presa a quatro parafusos no fundo e flutuando cerca de 30 centímetros acima do coral. Embaixo, o parafuso de ancoragem (B), a tela instalada sobre uma colônia (C) e a cartela de cores usada pelos mergulhadores para medir o branqueamento (D).
Como funcionam os guarda-sóis. No alto, o esquema da estrutura: moldura de PVC com tela que corta 60% da luz, presa a quatro parafusos no fundo e flutuando cerca de 30 centímetros acima do coral. Embaixo, o parafuso de ancoragem (B), a tela instalada sobre uma colônia (C) e a cartela de cores usada pelos mergulhadores para medir o branqueamento (D). Imagem: Neely et al. (2026), Frontiers in Marine Science

Os pesquisadores escolheram 20 colônias de cada uma de duas espécies do Caribe, Pseudodiploria clivosa e Colpophyllia natans, e dividiram cada grupo ao meio: dez receberam sombra e dez ficaram como controle. A cada duas semanas, de julho a novembro, um mergulhador comparava a cor dos corais com uma cartela padronizada e coletava pequenas amostras de tecido para análise genética das algas.

Colônia saudável de Colpophyllia natans, um dos dois corais-cérebro do Caribe testados no experimento. A cor vem das microalgas que vivem dentro dos tecidos do animal.
Colônia saudável de Colpophyllia natans, um dos dois corais-cérebro do Caribe testados no experimento. A cor vem das microalgas que vivem dentro dos tecidos do animal. Foto: Nick Hobgood

O plano era instalar as telas quando o calor acumulado chegasse a quatro semanas de aquecimento, medida usada pela Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA) que soma quanto e por quanto tempo a temperatura ficou acima do limite de branqueamento. É o ponto em que os corais costumam começar a perder a cor. Atrasos nas licenças ambientais empurraram a instalação para 16 e 17 de agosto, quando o índice já passava de sete e as colônias estavam visivelmente pálidas. Em seguida, as telas tiveram de ser retiradas duas vezes, à espera da passagem das tempestades tropicais Helene e Milton.

O verão de 2024 foi o segundo de maior estresse térmico já registrado em Newfound Harbor, atrás apenas de 2023. O índice chegou a 10,7 no fim de setembro. Pelos dados de satélite, a água ficou acima de 30,5 °C, o limite de branqueamento da região, em 61 dias; os sensores instalados no fundo registraram 76 dias e máximas de até 32,8 °C.

Nas duas espécies, as colônias sombreadas ficaram significativamente mais escuras que as de controle no pico do calor. Entre a instalação das telas e 23 de setembro, os exemplares protegidos de P. clivosa ganharam cor, enquanto os expostos continuaram a empalidecer. Em C. natans, as colônias sombreadas também recuperaram cor logo após a instalação, enquanto as de controle empalideceram ainda mais. Quando a temperatura baixou, em outubro e novembro, os dois grupos voltaram a escurecer. Nenhum coral morreu de calor durante o experimento.

Calor acumulado em Newfound Harbor no verão de 2024, com os períodos em que as telas ficaram instaladas, e a mudança de cor dos corais na fase mais quente. Os protegidos ganharam cor; os expostos empalideceram.
Calor acumulado em Newfound Harbor no verão de 2024, com os períodos em que as telas ficaram instaladas, e a mudança de cor dos corais na fase mais quente. Os protegidos ganharam cor; os expostos empalideceram. Imagem: Neely et al. (2026), Frontiers in Marine Science

O branqueamento foi mais brando do que o esperado para um verão tão quente, e a análise genética ajuda a explicar por quê. Todas as colônias de P. clivosa e quase metade das de C. natans abrigavam apenas algas do gênero Durusdinium, conhecidas por tolerar melhor o calor. Segundo os autores, é provável que os corais sobreviventes tenham trocado de parceiras durante ou depois da crise de 2023. A troca tem um preço: corais com Durusdinium tendem a crescer menos e podem ficar mais sujeitos a doenças. Para a equipe, se a sombra evitar o branqueamento de corais com outras algas, pode também evitar essa troca e seus custos a longo prazo.

A proporção entre algas e células do coral, medida nas amostras, não diferiu entre os dois grupos. Os autores levantam duas hipóteses. As licenças só permitiam coletar tecido nas bordas das colônias, que se sombreiam naturalmente e empalidecem menos. Além disso, parte da perda de cor pode vir da redução de clorofila dentro das algas, e não da saída delas.

As tempestades renderam uma observação inesperada. Durante a Helene, uma grande colônia de C. natans foi arrancada do fundo, rolou cerca de 30 metros e parou de cabeça para baixo, com as cristas raspadas. Os pesquisadores a desviraram e a devolveram ao lugar em 1º de outubro. Em duas semanas, o tecido que restava entre as cristas tinha se reconectado.

Colônia de Colpophyllia natans arrancada do fundo pela tempestade tropical Helene, em setembro de 2024. Ela rolou cerca de 30 metros e parou de cabeça para baixo, com as cristas raspadas. Recolocada no lugar, refez o tecido em duas semanas.
Colônia de Colpophyllia natans arrancada do fundo pela tempestade tropical Helene, em setembro de 2024. Ela rolou cerca de 30 metros e parou de cabeça para baixo, com as cristas raspadas. Recolocada no lugar, refez o tecido em duas semanas. Imagem: Neely et al. (2026), Frontiers in Marine Science

As estruturas resistiram a toda a temporada sem estragos e exigiram pouca manutenção, apenas uma escovação leve para tirar sedimento. Os 80 parafusos continuaram firmes e saíram com facilidade no fim do teste. O artigo também lista desvantagens: as telas podem atrapalhar a navegação e a pesca, oferecem algum risco de enredar animais e podem ser vistas como poluição visual. O maior obstáculo é o trabalho de barco e de mergulho, que impede o uso em escala de recife.

“As estruturas que instalamos são boas para áreas menores”, diz Neely, citando corais de alta prioridade, viveiros e áreas pequenas de replantio. “Mas novas ideias de engenharia podem torná-las adequadas para áreas maiores do recife.” A pesquisadora também aponta o que falta comprovar. “Em teoria, elas devem reduzir doenças e aumentar a reprodução nos anos seguintes, mas isso precisa ser testado.”

O problema também é brasileiro. A mesma onda global de branqueamento, a quarta já registrada, atingiu com força o litoral do Nordeste em 2024. Estudo publicado em setembro de 2025 na revista Coral Reefs, liderado pelo pesquisador Miguel Mies, coordenador de planejamento do projeto Coral Vivo, acompanhou 18 recifes entre o Ceará e Santa Catarina. Em muitos deles, o calor acumulado passou de 20 semanas de aquecimento e durou de três a cinco meses, quase o dobro do pico registrado na Flórida. Em Maragogi, Alagoas, 96% dos corais branquearam e 88% morreram. Em São José da Coroa Grande, Pernambuco, a mortalidade chegou a 53%. Nos recifes do Sul e do Sudeste, o branqueamento ficou abaixo de 5%.

Recifes de Maragogi, em Alagoas, na Costa dos Corais. Na onda de calor de 2024, 96% dos corais monitorados ali branquearam e 88% morreram, o pior resultado entre 18 recifes acompanhados na costa brasileira.
Recifes de Maragogi, em Alagoas, na Costa dos Corais. Na onda de calor de 2024, 96% dos corais monitorados ali branquearam e 88% morreram, o pior resultado entre 18 recifes acompanhados na costa brasileira. Foto: Mayane K. Baumgärtner

Para os autores do estudo na Flórida, a sombra é uma ferramenta de emergência, não uma solução para o aquecimento dos oceanos. Eles esperam efeito ainda maior se as telas forem instaladas antes do início do branqueamento e defendem que o declínio acelerado dos recifes justifica intervenções mais ativas para proteger os corais que ainda resistem.

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