
Na seca extrema de 2023, os lagos de Tefé e Coari atravessaram uma combinação rara de água baixa, calor intenso, radiação solar e sedimento revolvido. Em alguns pontos, a temperatura da água chegou a 38 °C. Então, uma população microscópica cresceu até mudar a aparência do ambiente.
Era Euglena sanguinea, organismo unicelular capaz de realizar fotossíntese e também adotar alimentação heterotrófica sob determinadas condições. A floração alcançou alta densidade nos dois lagos e se tornou o primeiro evento desse tipo documentado para a espécie na Amazônia.
A identificação combinou características morfológicas e análise molecular. Os pesquisadores também encontraram evidência de euglenoficina, toxina associada a E. sanguinea. O resultado conecta a seca a um risco que não aparecia no histórico regional de florações registradas.
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Uma floração surge quando uma espécie encontra condições para se multiplicar mais rapidamente que competidores e perdas. Temperatura elevada acelera processos biológicos, mas nutrientes, luz, mistura e estabilidade da água também importam.
Durante a seca, o nível reduzido concentra substâncias e facilita o aquecimento. Vento, movimentação e ressuspensão do sedimento podem devolver nutrientes à coluna d’água. A radiação intensa fornece energia, embora o excesso também gere estresse.
Os autores sugerem que a combinação de até 38 °C, luz forte e sedimentos favoreceu a estratégia heterotrófica de Euglena sanguinea. Isso significa que o organismo não dependeu apenas da fotossíntese; pôde explorar matéria orgânica ou outras fontes num ambiente alterado.
Não é possível atribuir o evento a um único fator. A seca reorganizou o sistema inteiro. A floração foi uma resposta emergente dessa combinação.
A toxina foi detectada, mas o risco precisa de medida
Euglenoficina pode afetar organismos aquáticos. Detectar sua presença é diferente de demonstrar dose responsável por determinada mortalidade. Em 2023, a região de Tefé registrou morte sem precedentes de botos e outros impactos ecológicos, mas o estudo sobre a floração não transforma a toxina em causa única desses eventos.
Calor extremo, baixa água, menor oxigenação e mudanças na comunidade planctônica podem atuar juntos. Para estabelecer causalidade, seriam necessárias concentrações, exposição, tecidos, experimentos e exclusão de alternativas.
A comunicação deve evitar dois erros: minimizar uma toxina confirmada e atribuir a ela todas as mortes observadas. O resultado mais sólido é que uma espécie potencialmente tóxica floresceu em alta densidade pela primeira vez documentada na Amazônia durante condições extremas.
Outras espécies ficaram como sinais de alerta
No lago Tefé, a comunidade fitoplanctônica incluiu algas verdes, diatomáceas e cianobactérias. Duas cianobactérias potencialmente tóxicas, Dolichospermum e Planktothrix, apareceram sem formar florações naquele período.
Essa presença importa porque monitoramento não deve começar apenas quando a água muda de cor. Detectar organismos de risco em baixa abundância cria uma linha de base. Se temperatura e nutrientes mudarem novamente, a composição pode responder de outra maneira.
Uma mesma seca não produz sempre a mesma espécie dominante. Pequenas diferenças no vento, na profundidade e no momento da amostragem alteram o resultado. A vigilância precisa ser repetida, e não baseada numa fotografia de 2023.
O microscópio revelou uma mudança visível da paisagem
Florações são paradoxais: podem cobrir quilômetros, mas são construídas por células invisíveis individualmente. A cor vista da margem resulta de milhões ou bilhões de organismos. Identificar a espécie exige observar forma, movimento, estruturas internas e DNA.
Euglena sanguinea recebe o nome por pigmentos que podem conferir tonalidade avermelhada às células e às massas. A aparência, porém, não é diagnóstico suficiente. Outras algas e partículas mudam a cor da água. O estudo avançou além da fotografia ao combinar morfologia, genética e toxina.
Essa combinação é especialmente importante em regiões onde laboratórios e séries regulares de monitoramento são limitados. Uma floração pode desaparecer antes que amostras sejam processadas, deixando apenas relatos visuais.
O primeiro registro pode ser o começo de uma nova rotina
Não se sabe se Euglena sanguinea nunca havia florescido na Amazônia ou se eventos anteriores passaram sem identificação. O primeiro registro documentado marca o ponto em que existem amostras e evidências suficientes.
Com secas extremas mais frequentes, condições antes raras podem se repetir. Monitorar temperatura, oxigênio, nutrientes e fitoplâncton perto de comunidades ajuda a emitir alertas sobre água, pesca e contato.
Também permite separar floração natural de contaminação industrial ou esgoto. A causa de uma mudança de cor não deve ser presumida. Coleta rápida e análise correta evitam boatos e orientam decisões.
Os lagos de Tefé e Coari não ficaram biologicamente vazios durante a seca. Ao contrário, certas células encontraram uma oportunidade extrema e se multiplicaram em alta densidade. A água a 38 °C tornou visível uma resposta microscópica inédita no registro regional.
O caso tem a mesma força narrativa do lagostim: um evento localizado muda o mapa de ocorrência. A diferença é que aqui não foram duas fêmeas, mas uma multidão de células. O resultado não cabe numa rede ou numa caixa de coleção. Ele aparece como uma mancha sobre o lago e deixa uma toxina como assinatura química.
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