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Cocaína supera ouro na Amazônia: R$ 30 bi anuais impulsionam crime

Cocaína supera ouro na Amazônia: R$ 30 bi anuais impulsionam crime
Foto: eldiario.es

Ativista Rebeca Lerer revela cifras bilionárias do narcotráfico, superando a mineração e financiando economias ilícitas.

A cocaína destronou o ouro como o motor econômico ilícito mais robusto na Amazônia brasileira, movimentando impressionantes 6 bilhões de dólares anuais, o equivalente a quase 30 bilhões de reais. Essa é a tese central da ativista Rebeca Lerer, de 49 anos, que apresenta suas descobertas no Festival Futuro Coca, em Bogotá, capital da Colômbia. Lerer argumenta que a atual guerra às drogas, em vez de frear o narcotráfico, o fortalece e o drena para o financiamento de outras atividades ilegais na região, tornando inviável a meta de desmatamento zero.

Ex-membro do Greenpeace, onde passou onze anos combatendo madeireiros e pecuaristas, Lerer voltou seu olhar para o narcotráfico ao perceber uma migração das máfias para produtos que não deixam rastros aéreos. “Comecei a fazer as contas e disse: isso é mais do que o ouro. Ninguém compra ouro toda semana, mas as pessoas que usam cocaína, sim”, explica Lerer em entrevista, destacando a magnitude financeira que sustenta o crime local e o consumo crescente.

A espiral do consumo e a falta de rastros

A análise de Lerer corrobora dados do Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC). Segundo o Informe Mundial de Drogas da ONU, a produção global de cocaína mais que quadruplicou em uma década, ultrapassando 4.000 toneladas, mesmo com a repressão. “Esse é o resultado apesar da repressão. É uma loucura”, enfatiza a ativista.

O Festival Futuro Coca, em sua quarta edição, busca separar o conceito da folha de coca da cocaína, para desmistificar a planta e visibilizar seu potencial. No entanto, Lerer chega com uma perspectiva mais sombria: mostrar a cadeia de refino e distribuição que ocorre no lado brasileiro da Amazônia. O Brasil, apesar de não cultivar a folha, é um centro crucial de refino, consumo e exportação do alcaloide mais lucrativo da planta.

A ativista lamenta o desconhecimento generalizado no Brasil sobre a origem da cocaína. “As pessoas no meu país nem sequer sabem que a cocaína vem de uma folha, de uma planta sul-americana nativa”, afirma. Para ela, a discussão sobre as drogas deve ir além da esfera policial e de saúde pública, abrangendo o uso da terra, a violência e o impacto ambiental. A ONU, inclusive, reconhece que a abordagem repressiva tem expandido mercados criminais e distorcido economias regionais.

O mapa oculto dos laboratórios e sua dimensão

Diante da escassez de dados oficiais, Lerer assumiu a tarefa de contabilizar essa economia oculta. O resultado é o relatório ‘Selva em Pó’ (Floresta em Pó), coordenado por ela no final de 2025, em colaboração com a Coalizão Internacional pela Reforma das Políticas de Drogas e a Justiça Ambiental e organizações brasileiras como a Iniciativa Negra. O estudo revelou a inexistência de um mapeamento dos laboratórios de refino no Brasil.

Para preencher essa lacuna, a equipe auditou cinco anos de operações policiais, rastreando produtos químicos e remessas. A pesquisa identificou 550 centros de processamento de cocaína. No entanto, a realidade é muito mais complexa e opaca: a Polícia Federal brasileira, segundo estimativas de Lerer, apreende apenas 20% do negócio. “A projeção real nos situa perto dos 5.000 laboratórios”, pontua a ativista.

Entenda o caso

O relatório ‘Selva em Pó’, coordenado por Rebeca Lerer, revelou que o Brasil, embora não cultive a folha de coca, possui uma vasta rede de laboratórios clandestinos que refinam a droga. Esta produção movimenta bilhões anualmente, superando a mineração de ouro e o Fundo Amazônia, e financia outras atividades criminosas e o desmatamento na região.

Os carregamentos que partem dos portos brasileiros com destino à Europa são de uma pureza superior à cocaína que entra pelas fronteiras com países andinos e Paraguai. Essa diferença de qualidade, confirmada por dados da Polícia Federal, desmantela a ideia de que o Brasil seria apenas uma rota de trânsito, evidenciando uma robusta indústria de refino que tanto purifica o pó para exportação quanto o dilui para o mercado varejista doméstico.

Cocaína supera ouro na Amazônia: R$ 30 bi anuais impulsionam crime
Foto: eldiario.es

A máquina de bilhões e a derrota ambiental

O relatório ‘Selva em Pó’ quantificou o valor dessa indústria em 6 bilhões de dólares anuais apenas na fase de refino. Para Lerer, essa cifra é devastadora quando comparada ao Fundo Amazônia, o principal instrumento financeiro global contra o desmatamento. “Só os laboratórios geram em doze meses cinco vezes mais dinheiro do que todo o Governo brasileiro conseguiu arrecadar [com o Fundo Amazônia]. Não há como competir. Vamos perder”, conclui.

Essa assimetria financeira impulsiona outras economias ilegais na Amazônia. O dinheiro da cocaína atua como um fundo de capital de risco para a mineração ilegal de ouro, a grilagem de terras e o armamento pesado que sustenta conflitos territoriais no Brasil e na Colômbia. Por isso, Lerer insiste que a política antidrogas e a política ambiental são intrinsecamente ligadas. “Sob o paradigma da guerra, alcançar o desmatamento zero na Amazônia é, simplesmente, impossível”, ela afirma.

As estatísticas corroboram esse diagnóstico sombrio. Segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, em estudo publicado em junho de 2024, o valor da cocaína apreendida na região em 2024 foi de US$ 704 milhões, um montante superior ao de todo o ouro exportado da Amazônia. As autoridades alertam que a droga interceptada é apenas a ponta do iceberg. Se a polícia bloquear apenas 10% do fluxo real, o narcotráfico se torna automaticamente o segundo maior motor econômico da Amazônia, atrás apenas da soja. O que antes era uma hipótese, agora é uma constatação: os movimentos não detectados pelos radares estão redesenhando a geografia política e financeira do pulmão do planeta.

A necessidade de absolver a folha

Diante do fracasso de décadas de proibicionismo, Lerer aponta para um movimento de resistência que busca dignificar a folha de coca em sua origem. Os cultivadores, que recebem apenas uma fração dos lucros, arcam com as piores consequências do conflito: perseguição militar, pulverizações tóxicas e estigmatização social. Segundo Rebeca Lerer, a discussão pública frequentemente ignora as dinâmicas de produção “onde ocorrem a maioria dos abusos e ecocídios”.

Qualquer tentativa séria de reconciliar as comunidades cocaleiras com seus territórios, segundo a ativista, deve começar por remover o estigma da planta e garantir a proteção e os direitos dos cultivadores. O Festival Futuro Coca, em Bogotá, adota justamente essa abordagem, ainda que o verdadeiro desafio político se desenrole em instâncias mais altas, como a Comissão de Estupefacientes da ONU, em Viena.

Perguntas Frequentes

O que é o relatório ‘Selva em Pó’?
É um estudo coordenado por Rebeca Lerer que mapeia a rede de laboratórios de refino de cocaína no Brasil e quantifica a movimentação financeira dessa economia ilícita na Amazônia.

Qual o valor da cocaína movimentada na Amazônia?
A cocaína movimenta cerca de US$ 6 bilhões anuais, o equivalente a quase R$ 30 bilhões, apenas na fase de refino no Brasil, superando o valor do ouro exportado da região.

Como o narcotráfico afeta o meio ambiente na Amazônia?
O dinheiro da cocaína financia outras atividades ilegais como a mineração ilegal, a grilagem de terras e armamentos, impedindo as ações de combate ao desmatamento e fomentando conflitos territoriais.

Os próximos passos exigem uma reavaliação global das políticas de drogas, com foco na reforma e na justiça ambiental, a fim de proteger tanto as comunidades quanto o ecossistema amazônico.

Com informações de elDiario.es.

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