
O pirarucu, maior peixe de escamas da Amazônia e símbolo da pesca sustentável no Amazonas e no Pará, é tratado como espécie invasora no vale do Guaporé, em Rondônia. Entre agosto e outubro de 2026, a Secretaria de Estado do Desenvolvimento Ambiental (Sedam) coordenou duas etapas de pesca manejada na Reserva Extrativista Estadual Rio Cautário, em Costa Marques, que retiraram 361 pirarucus, com cerca de 18,9 toneladas de peso bruto e 17,1 toneladas de pescado limpo. O trabalho gerou cerca de R$ 180 mil em renda para aproximadamente 40 extrativistas.
A pergunta que a operação levanta é simples: como o mesmo peixe pode ser protegido em uma parte da Amazônia e combatido em outra?
Onde o pirarucu é nativo
O Arapaima gigas ocorria originalmente nas várzeas dos rios Solimões-Amazonas, Tocantins-Araguaia e Essequibo, segundo estudo de pesquisadores bolivianos e europeus publicado em 2025 na revista científica PLOS ONE. Nessas regiões, ele faz parte da teia alimentar há milhares de anos, e o manejo comunitário, com contagem dos peixes e cotas de pesca, ajudou a recuperar populações que estavam em declínio.
O alto rio Madeira, onde ficam os rios Beni, Mamoré e Guaporé, não estava nessa área. Ali, o pirarucu é um recém-chegado.
Como o pirarucu chegou ao Guaporé
Segundo o estudo publicado na PLOS ONE, a colonização começou no alto rio Madre de Dios, no Peru, onde o pirarucu foi introduzido em vários lagos entre meados dos anos 1960 e o início dos anos 1980. Nas cheias, os peixes se espalharam rio abaixo e entraram na Bolívia. Novas solturas a partir de criações para piscicultura reforçaram a expansão.
Hoje, segundo os autores, a espécie aparece em praticamente todos os afluentes bolivianos dos rios Madre de Dios e Orthon e nos trechos baixos dos rios Beni, Mamoré e Iténez, nome do Guaporé do lado boliviano. As corredeiras perto de Guayaramerín parecem ter freado o avanço rio acima, mas os pesquisadores avaliam que a chegada ao alto Mamoré é iminente, impulsionada pelo comércio sem regras e pelas criações na região.
Por que ele preocupa fora de casa
O pirarucu pode passar de 2 metros e é considerado um grande predador. Em lagos da Bolívia onde ele se estabeleceu, já representa quase metade da pesca comercial, segundo o estudo.
A pesquisa de 2025 comparou peixes nativos de lagos com e sem pirarucu e encontrou um efeito mais sutil do que se imaginava. Para a maior parte das espécies, não houve redução da variedade de alimento. A exceção foram os peixes carnívoros nativos, que passaram a se alimentar mais baixo na cadeia alimentar, comendo mais peixes que se alimentam de detritos. Os autores atribuem o impacto limitado à grande oferta de alimento nos lagos de várzea, mas o pirarucu segue classificado como espécie introduzida na região.
Como funciona o manejo em Rondônia
Na Resex Rio Cautário, a pesca é feita pelos próprios moradores, com acompanhamento técnico da Sedam e parceria do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). Os extrativistas são representados pela Associação dos Seringueiros do Vale do Guaporé (Aguapé), que organiza a participação dos moradores e a venda do pescado. Segundo a Sedam, quem participou das duas etapas teve renda de cerca de R$ 6 mil.
“Nosso objetivo é contribuir para a recuperação do equilíbrio ecológico, reduzir os impactos associados à presença de uma espécie invasora e fortalecer a conservação da biodiversidade”, afirmou o biólogo Rodrigo Rios, da Sedam, gestor do projeto.
A lógica é dupla: tirar da água um peixe que não pertence àquele ambiente e transformar o controle em renda para quem vive na reserva. É o oposto do manejo feito no Amazonas, onde a pesca do pirarucu é limitada para permitir que a população cresça.
Um peixe, duas políticas
O caso mostra que “nativo” e “invasor” dependem do lugar, e não da espécie. O mesmo animal que é conservado com cota nas reservas de várzea do Amazonas vira alvo de retirada no Guaporé, onde chegou por ação humana.
Entenda
Espécie invasora é aquela levada para fora de sua área natural que se estabelece e pode causar impactos ao ambiente. Reserva extrativista é a unidade de conservação onde populações tradicionais vivem e usam os recursos naturais de forma sustentável. Pesca manejada é a pesca feita com regras, planejamento e acompanhamento técnico. Várzea é a área de floresta e lagos que alaga na cheia dos rios.
Perguntas frequentes
Por que o pirarucu é invasor em Rondônia?
Porque não é nativo do alto rio Madeira. Ele foi introduzido no Peru entre os anos 1960 e 1980 e chegou à Bolívia e ao Guaporé pelas cheias, segundo estudo publicado na PLOS ONE.
Quantos pirarucus foram retirados da Resex Rio Cautário?
361, com cerca de 18,9 toneladas de peso bruto, entre agosto e outubro de 2026, segundo a Sedam.
Quem faz a pesca?
Cerca de 40 moradores da reserva, representados pela Associação dos Seringueiros do Vale do Guaporé, com acompanhamento da Sedam e do ICMBio.
O pirarucu é ameaçado na Amazônia?
Em sua área natural, ele sofreu com a pesca excessiva, e o manejo comunitário com cotas ajudou a recuperar populações. Fora dela, como no Guaporé, é tratado como espécie introduzida.
Com informações da Secretaria de Estado do Desenvolvimento Ambiental de Rondônia (Sedam) e do estudo “Effects of the non-native Arapaima gigas on native fish species in Amazonian oxbow lakes (Bolivia)”, publicado na revista PLOS ONE em 2025.
Peixe de 2,7 cm é encontrado em poças do Amapá, mas garimpo já pressiona o habitat da nova espécie
Este peixe barato coloca o salmão no bolso: saúde com ômega-3 e vitamina D por pouco dinheiro
Peixes do Tumucumaque têm fibras, filme plástico e glitter, e chuva do parque contém 194 partículas em amostra de 225 mlGostou desta reportagem?
Marque Revista Amazônia como fonte preferencial e veja mais conteúdo nosso no Google.














