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Chagras na Amazônia: sistema agrícola indígena resiste há 4.500 anos

Chagras na Amazônia: sistema agrícola indígena resiste há 4.500 anos
Foto: share.google

Modelo de cultivo integra produção de alimentos, preservação da floresta e cultura indígena, mas enfrenta ameaças da mineração e mudanças climáticas.

As chagras são pequenas áreas de cultivo, cada uma com menos de dois hectares, organizadas em sintonia com os ciclos ecológicos da floresta. Praticadas por povos indígenas da Amazônia há pelo menos 4.500 anos, elas garantem a produção de alimentos sem desmatamento indiscriminado e preservam a biodiversidade. Na reserva de Miriti-Paraná, no coração da Amazônia colombiana, Kelly Johanna Yucuna e outras 240 famílias tiram dali a maior parte do que consomem.

O sistema integra dimensões ambientais, econômicas, sociais e espirituais. Após cinco ou seis anos de uso, as áreas de cultivo são devolvidas à floresta. Estudos apontam que as chagras armazenam carbono de forma comparável a florestas secundárias e abrigam muito mais biodiversidade do que monocultivos de cacau, por exemplo.

Como funciona o cultivo em chagras

Tudo começa com a escolha cuidadosa do terreno. Antes do plantio, os anciãos aprovam a área e pedem permissão aos espíritos da floresta, considerados donos superiores da terra. Em seguida, a comunidade se reúne para o preparo do solo, um processo coletivo que mobiliza homens, mulheres e crianças com machados e facões.

Segundo César Echezuría Fernández, geógrafo independente que estuda as chagras no Equador (onde são chamadas de chakras), as comunidades priorizam a remoção de árvores de menor porte e cipós. Pesquisas mostram que cerca de metade das espécies nativas de árvores presentes nas áreas são preservadas.

Após um curto período de descanso e uma queima controlada, as mulheres plantam as primeiras sementes. Em Miriti-Paraná, as chagras costumam ser abertas antes de junho. As primeiras colheitas de mandioca, banana-da-terra e abacaxi ficam prontas cerca de um ano depois.

“A mandioca representa as mulheres e a coca representa os homens”, diz Yucuna. “Por isso elas precisam estar juntas, no centro da área de cultivo.”

Biodiversidade e laços culturais

Cada um dos 30 povos indígenas que vivem no território de Jaguares de Yuruparí cultiva sua seleção de variedades de mandioca brava e mandioca doce, somando 67 tipos diferentes. A Gaia Amazonas identificou 104 espécies diferentes cultivadas nas chagras da região, incluindo variedades de banana-da-terra, inhame, batata-doce, pimentas, árvores frutíferas, tabaco e ervas medicinais.

“A mandioca é, afinal, o principal alimento da Amazônia”, afirma a antropóloga colombiana Marcia Chapetón, da Gaia Amazonas. Muitos povos indígenas, especialmente as mulheres, mantêm uma relação quase filial com a planta. “Eles veem as plantas de mandioca como minhas filhas e, quando eu as como, tenho com elas uma relação de sangue”, diz Chapetón.

Segundo Juan Felipe Guhl, antropólogo e especialista em questões socioambientais do Instituto Sinchi, na Colômbia, cada semente tem uma origem mitológica e tecnológica própria, que determina seu lugar na chagra. Nas bordas da área de cultivo, por exemplo, abacaxis e árvores altas, como o açaí, funcionam como uma espécie de fortaleza.

Entenda o sistema

As chagras estão profundamente ligadas à cosmologia dos povos indígenas, que se orienta pelo calendário ecológico da floresta, marcado pelos ciclos de frutificação, cheias dos rios, pesca e caça. Cada família mantém pelo menos duas ou três chagras: uma nova, uma em plena produção e outra em fase de regeneração. Depois de cinco ou seis anos, a área é devolvida ao seu dono espiritual e gradualmente volta a se transformar em floresta.

Papel econômico e reconhecimento internacional

Embora as chagras do território de Jaguares de Yuruparí sejam usadas principalmente para a produção de alimentos destinados ao consumo das próprias famílias, em outras partes da Amazônia elas também desempenham um papel econômico importante. Na província de Napo, no Equador, cacau, baunilha e guayusa são cultivados em cerca de 24 mil hectares de chakras, garantindo o sustento de centenas de famílias.

Segundo a Organização das Nações Unidas (ONU), as chakras amazônicas de Napo foram reconhecidas como Sistema Importante do Patrimônio Agrícola Global (Sipam), uma distinção voltada a sistemas agrícolas tradicionais de longa duração e manejados de forma sustentável. Elas respondem por entre 40% e 60% da renda das comunidades.

Uma das cooperativas locais, a Kallari, gera até US$ 2 milhões por ano (cerca de R$ 11 milhões) para seus 740 membros, afirma Paulina Espín, diretora nacional da Trias, organização sem fins lucrativos sediada na Bélgica que apoia a cooperativa. Segundo Espín, os compradores pagam preços mais altos pelo cacau sustentável e de aroma fino produzido na região.

Ameaças ao sistema de chagras

A mineração de ouro se tornou uma das principais ameaças às chagras, afirma Chapetón. No território de Jaguares del Yuruparí, a atividade provoca níveis tão elevados de contaminação por mercúrio que a Corte Constitucional colombiana decidiu, em 2025, que ela coloca em risco a identidade dos povos indígenas da região e sua segurança alimentar.

Na província de Napo, no Equador, a mineração tem atraído os jovens para longe da agricultura, afirma Ruth Cayapac, líder do povo indígena kichwa e presidente da cooperativa Kallari. Em toda a região, aqueles que não ingressam na mineração frequentemente acabam deixando as suas comunidades, empurrados pela falta de perspectivas econômicas e pelo acesso precário a direitos básicos.

As mudanças climáticas, que vêm tornando a Amazônia mais seca, agravam ainda mais esse cenário. Evidências anedóticas reunidas pela Gaia Amazonas a partir de relatos das comunidades indicam que elas já podem estar alterando os calendários ecológicos, reduzindo a produção agrícola e aumentando os gastos com a compra de alimentos.

Segundo a Gaia Amazonas, a irregularidade no regime dos rios tem afetado a reprodução dos peixes e reduzido a sua disponibilidade. Os animais caçados também estão mais escassos e menores, o que obriga os caçadores a capturar um número maior de presas. Nas chagras, por sua vez, novas pragas vêm se espalhando.

Yucuna afirma que, em sua comunidade, as chuvas irregulares têm afetado o calendário de plantio e o momento de abrir áreas e realizar as queimadas.

Confusão sobre desmatamento

Não há dados concretos sobre o papel das chagras e de sistemas semelhantes no enfrentamento do desmatamento e das mudanças climáticas. Embora estudos estejam começando a preencher essa lacuna de conhecimento, ainda não se sabe quanto da Amazônia é ocupado por esses sistemas.

Na Colômbia, um projeto de créditos de carbono considerou as chagras como “áreas desmatadas” e prometeu reduzir sua extensão no território Jaguares de Yuruparí. A iniciativa foi barrada por uma decisão judicial de 2024, que concluiu que as empresas envolvidas não haviam respeitado os direitos das populações indígenas.

“É claro que uma chagra envolve a abertura de uma área na floresta, mas não se trata de um desmatamento indiscriminado ou descontrolado. A área é aberta para produzir alimentos e, depois, volta a se regenerar e a ser incorporada à floresta”, afirma Chapetón.

Futuro das chagras

A forma mais direta de garantir a continuidade das chagras é proteger os direitos territoriais dos povos indígenas, argumenta Chapetón. Vale lembrar que os territórios administrados por povos indígenas têm se mostrado uma das formas mais eficazes de conter o desmatamento das florestas tropicais.

No Equador, a crescente demanda por produtos das chakras tem trazido novos desafios, afirma Echezuría Fernández. Em um dos casos observados por ele, uma empresa especializada em cacau fino pressionava uma comunidade a aumentar sua produção de cacau. Mas, para os produtores das chakras, é normal que parte dos grãos seja perdida para pragas. “Isso faz parte da vida”, observa o pesquisador.

A corrida agora é para garantir a sobrevivência desses sistemas agrícolas sustentáveis únicos e da cultura que os sustenta. Comunidades indígenas lutam há anos pela implementação de políticas que reconheçam e protejam suas práticas ancestrais.

Perguntas frequentes

O que são as chagras?
São pequenas áreas de cultivo com menos de dois hectares, organizadas em sintonia com os ciclos ecológicos da floresta, praticadas por povos indígenas da Amazônia há pelo menos 4.500 anos.

Quantas espécies são cultivadas nas chagras?
A Gaia Amazonas identificou 104 espécies diferentes cultivadas nas chagras do território Jaguares de Yuruparí, incluindo dezenas de variedades de mandioca, além de banana-da-terra, inhame, árvores frutíferas e ervas medicinais.

As chagras contribuem para o desmatamento?
Não. Embora envolvam a abertura de áreas na floresta, as chagras são manejadas de forma controlada e devolvidas à regeneração após cinco ou seis anos de uso. Pesquisas mostram que elas preservam cerca de metade das espécies nativas de árvores e armazenam carbono de forma comparável a florestas secundárias.

Com informações de BBC News Brasil.

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