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Petrobras expande exploração no Golfo do México

Petrobras expande exploração no Golfo do México
Foto: acervo

Parceria entre estatais levanta preocupações sobre riscos ambientais em águas profundas do Golfo do México.

CIDADE DO MÉXICO, BRASÍLIA E PERNAMBUCO – Uma nova aliança entre as petrolíferas estatais Petróleos Mexicanos (Pemex) e a Petróleo Brasileiro (Petrobras) acende um sinal de alerta ambiental na América Latina. O memorando de entendimento assinado por ambas as empresas, que visa à exploração de jazidas em águas profundas e ultraprofundas no Golfo do México, pode expandir significativamente a presença petrolífera na região, levantando sérias preocupações de especialistas sobre os riscos socioambientais.

Embora a parceria seja um primeiro passo, sem investimentos ou projetos imediatos, a movimentação tem sido criticada por prolongar a dependência mexicana de combustíveis fósseis e por expor uma região de alta conectividade biológica a novos perigos. Comunidades costeiras, que dependem da pesca e do turismo, são as mais vulneráveis aos potenciais impactos.

Aliança estratégica sob escrutínio

O acordo entre Pemex e Petrobras foi assinado pela presidente da Petrobras, Magda Chambriard, e pelo diretor da Pemex, Juan Carlos Carpio, no Rio de Janeiro. A iniciativa, que inclui troca de tecnologias e cooperação em refino, petroquímica e fertilizantes, tem como prioridade a exploração e exploração de petróleo em águas profundas (300 a 760 metros) e ultraprofundas (mais de 760 metros).

A própria presidente do México, Claudia Sheinbaum, defendeu o acordo, destacando a experiência da Petrobras, líder mundial no desenvolvimento de tecnologia para exploração em águas profundas. Magda Chambriard, por sua vez, demonstrou interesse em posicionar a Petrobras como parceira estratégica da Pemex. “Nos interessa a exploração no Golfo do México, o incremento da produção em campos maduros e os processos industriais de refinação, petroquímica e fertilizantes. Sem dúvida, a aliança entre as duas empresas estatais será benéfica para ambos os países”, afirmou Chambriard após a oficialização.

Riscos de derramamentos em águas profundas

Apesar da expertise da Petrobras, a exploração em águas profundas é inerentemente mais arriscada que em águas rasas. Renata Terrazas Tapia, diretora da organização Oceana México, ressalta a complexidade de conter acidentes nessas profundidades, onde se estima que vivam cerca de 15.419 espécies, em habitats que vão de zonas úmidas a recifes de coral.

“É uma aposta que aumenta a possibilidade de termos derramamentos. Ambas as empresas, Pemex, constantemente no Golfo do México, e a Petrobras também, tiveram históricos de derramamentos. Quando ocorrem, há perda de biodiversidade e também afetações às comunidades costeiras”, declarou Terrazas ao Mongabay Latam.

Segundo a Oceana México, a exploração em águas profundas, diferentemente das águas rasas, apresenta desafios maiores para a contenção de acidentes e derramamentos no Golfo do México.

Alejandro Espinoza Tenorio, pesquisador de manejo sustentável de bacias e zonas costeiras de El Colegio de la Frontera Sur (Ecosur), aponta que as áreas de exploração em águas profundas e ultraprofundas estão expostas a condições operacionais mais difíceis, como fortes correntes oceânicas e eventos climáticos extremos como furacões.

Além disso, Espinoza destaca a falta de conhecimento sobre a biodiversidade nesses ecossistemas remotos. “Conhecemos muito pouco da biodiversidade e do comportamento das correntes e organismos nessas profundidades. Costumam ser mais sensíveis por estarem expostos a menos mudanças ambientais, temos muito pouca informação”, afirmou.

Entenda o caso: O histórico do Golfo do México

O maior precedente desses riscos ocorreu em 2010, com a explosão da plataforma Deepwater Horizon, que resultou no maior derramamento de petróleo da história do Golfo do México. O incidente liberou aproximadamente cinco milhões de barris de petróleo bruto e levou cerca de três meses para ser controlado. Este evento impulsionou a criação do Consórcio de Pesquisa do Golfo do México (CIGoM), para compreender melhor os processos biogeoquímicos da região e avaliar a vulnerabilidade de espécies e ecossistemas a derramamentos em larga escala.

Pesquisas do CIGoM indicam que derramamentos em águas profundas poderiam afetar corredores migratórios e zonas de reprodução de espécies a centenas de quilômetros de distância, causando alterações celulares, mortalidade de organismos, perda de habitats e rupturas nas cadeias alimentares. Áreas de nidificação de tartarugas marinhas e espécies como o golfinho-clímene e o tubarão-baleia figuram entre os mais vulneráveis, assim como manguezais e pradarias de grama marinha.

Leopoldina Aguirre Macedo, do Laboratório Nacional do Centro de Investigação e de Estudos Avançados do Instituto Politécnico Nacional (Cinvestav) de Oceanografia (LANCO), e coautora de uma dessas investigações, afirma que, embora os ecossistemas possam se recuperar rapidamente dos derramamentos, o impacto social é duradouro. “Temos visto que há uma recuperação rápida de ecossistemas, mas os que não se recuperam são os impactos sociais, nas comunidades, por não poderem pescar quando há um derramamento”, explica a pesquisadora.

Altos custos e reservas em declínio

A aliança Pemex-Petrobras surge em um contexto em que o México busca reduzir sua dependência do gás importado dos Estados Unidos. Esta decisão política, sob o argumento de fortalecimento da soberania energética, tem levado o governo mexicano a considerar a exploração de jazidas não convencionais, incluindo o controverso método do fracking.

Luca Ferrari, pesquisador do Instituto de Geociências da Universidade Nacional Autônoma do México (UNAM), aponta que a busca por novas fontes se deve ao declínio das reservas de petróleo convencional. “Já são quase duas décadas que a produção está caindo e o que resta é o fracking, que está sendo discutido. O outro são as águas profundas. Ambos são muito caros, mas no caso das águas profundas, com que ocorra um só acidente de derramamento, você sabe que pode gerar um desastre ecológico”, alertou Ferrari ao Mongabay Latam.

A Petrobras, embora com forte atuação na Bacia de Campos, no Rio de Janeiro, no Brasil, tem sido historicamente associada a acidentes ambientais, como o derramamento na Baía de Guanabara em 2000, que contaminou a fauna e flora local e impactou a pesca artesanal, demonstrando a complexidade e os riscos inerentes à operação petrolífera, mesmo em águas mais rasas. No Golfo do México, especificamente, uma análise científica da atividade petrolífera entre 1996 e 2010 revelou que incidentes, incluindo derramamentos, estão correlacionados com a profundidade da água: cada 30 metros de profundidade aumentam a probabilidade de um incidente em 8,5%.

As consequências de desastres anteriores, como o da Deepwater Horizon, ainda persistem. Terrazas, da Oceana México, enfatiza que a exploração em águas profundas é uma aposta arriscada. “Muito do que acontece não é visível ao olho humano e parece que não existe. Não há dinheiro no planeta que seja suficiente para reparar o dano causado pelos derramamentos de petróleo. Cada vez que exploramos e exploramos um poço, estamos apostando que muito provavelmente haverá um dano ambiental que não cobriremos”, concluiu.

Com informações de Mongabay Latam.

Perguntas Frequentes

O que é o Golfo do México?

É um corpo de água oceânica parcialmente fechado, um mar marginal do Oceano Atlântico, cercado principalmente pela costa dos Estados Unidos, México e Cuba. É uma região de grande biodiversidade e importância econômica e ambiental.

Quais são os principais riscos ambientais da exploração em águas profundas?

Entre os principais riscos estão derramamentos de petróleo de difícil contenção, contaminação de ecossistemas frágeis como recifes de coral e manguezais, impacto em corredores migratórios de espécies marinhas e prejuízos às comunidades costeiras que dependem da pesca e do turismo.

A Petrobras já teve incidentes de derramamento de petróleo?

Sim, a Petrobras registrou incidentes de derramamento de petróleo em sua história, sendo um dos mais notórios o da Baía de Guanabara, no Rio de Janeiro, em 2000, que causou graves danos ambientais e socioeconômicos.

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