
Estudo que rastreou 46 conceitos ecológicos em quase três décadas de conferências da ONU mede o tempo que o conhecimento científico leva para chegar às decisões globais. E mostra que, perto do território e de quem cuida dele, a conservação dá mais resultado.
Fotos: UN Biodiversity, Carmen Cañizares, Morcillo et al. (2026) e André Dib
Sete anos. É esse, em média, o tempo que um conceito ecológico leva para sair das páginas das revistas científicas e entrar nos documentos oficiais das grandes conferências ambientais das Nações Unidas. A conta foi feita por uma equipe de 17 pesquisadores liderada por Luna Morcillo, do Centro de Estudos Ambientais do Mediterrâneo (CEAM) e da Universidade de Alicante, na Espanha, e publicada na revista científica Cell Reports Sustainability.

Pode parecer muito tempo. Mas o trabalho, que tem entre os autores Leandro Reverberi-Tambosi, pesquisador vinculado também à Universidade Federal do ABC (UFABC), em Santo André (SP), traz uma leitura mais animadora do que o número sugere. Vários conceitos foram adotados assim que as conferências começaram, outros entraram em um ou dois anos, e os casos de sucesso mostram que o caminho entre a descoberta e a decisão pode, sim, ser curto.
A pergunta parece simples, mas faltava a conta. Segundo os autores, esta é a primeira avaliação quantitativa, medida em anos, da distância entre a produção científica e a política ambiental global.
Uma régua entre o laboratório e a plenária
As COPs são as reuniões periódicas em que os países signatários de cada convenção negociam e aprovam compromissos. Os pesquisadores leram as decisões, resoluções, recomendações e metas aprovadas nas Conferências das Partes (COPs) das três grandes convenções ambientais da ONU. Foram 28 COPs da Convenção-Quadro sobre Mudança do Clima (UNFCCC), de 1995 a 2023; 15 da Convenção sobre Diversidade Biológica (CBD), de 1994 a 2023; e 15 da Convenção de Combate à Desertificação (UNCCD), de 1997 a 2022.
Um grupo de 16 revisores vasculhou esses documentos, cruzou as leituras entre si e votou até chegar a uma lista final de 46 conceitos ecológicos, de estoques de carbono a polinizadores, de pontos de não retorno a espécies invasoras. Depois, a equipe procurou em uma base internacional de artigos científicos quando cada termo apareceu pela primeira vez na literatura e mediu quantos anos ele levou para ser citado numa COP.
O resultado ficou em 8,5 anos na convenção da desertificação, 6,7 anos na da biodiversidade e seis anos na do clima. A diferença entre elas não foi estatisticamente significativa. Na média geral, sete anos.

Quando a ciência chega na hora
Uma parte dos conceitos foi incorporada já na primeira conferência de cada convenção. Desmatamento e recursos genéticos entraram de imediato na agenda da biodiversidade. Neutralidade da degradação da terra e restauração chegaram sem atraso à da desertificação. Metano e óxido nitroso fizeram o mesmo na do clima. Sobrepastoreio, sobrepesca e superexploração apareceram nas três convenções entre um e dois anos depois da primeira COP.
O caso das espécies invasoras mostra que cada convenção tem seu próprio ritmo. O tema entrou na agenda da biodiversidade um ano depois da primeira COP, na do clima oito anos depois e na da desertificação só após 22 anos. Para os pesquisadores, a velocidade depende menos do tipo de conceito e mais do alinhamento entre a agenda científica e a agenda política de cada convenção.
Há também boas surpresas entre ideias mais complexas. Resiliência ecológica e conectividade da paisagem, conceitos que não se explicam numa frase, foram absorvidos com rapidez. Para os autores, isso aconteceu porque essas noções já circulavam amplamente na sociedade, por meio de redes sociais, movimentos sociais, ativismo ambiental e debate público, e não só em artigos acadêmicos.
Outro achado ajuda a entender o ritmo. Conceitos mais antigos, com mais tempo de estrada na ciência, foram adotados mais depressa. Quanto mais consolidado o conhecimento, menor a incerteza percebida por quem decide. Já o tom do conceito não fez diferença: ideias positivas, como resiliência e polinizadores, não foram mais rápidas do que as que descrevem ameaças. As duas podem acelerar a agenda, cada uma à sua maneira.
Cientistas e gestores costumam falar línguas diferentes, lembram os autores. Pesquisadores prezam precisão, nuances, prazos longos e conclusões expressas em probabilidades; quem faz política busca clareza, simplicidade, decisões rápidas e regras que possam ser aplicadas. Nesse descompasso, mensagens importantes se perdem ou se distorcem no caminho. Os conceitos antigos, já explicados muitas vezes, atravessam essa fronteira com menos ruído.
Os atrasos que servem de mapa
Os casos mais lentos também ensinam. A diversidade filogenética, que mede a variedade de linhagens evolutivas num ecossistema, levou 28 anos para aparecer nos documentos da convenção da biodiversidade. Eventos extremos e biodiversidade do solo levaram 22 anos para chegar à da desertificação, apesar do papel que têm no avanço do processo. E a convenção do clima deixou de lado os serviços ecossistêmicos por 27 anos.
Para os pesquisadores, esse último atraso se explica pela atenção que a agenda climática deu por décadas à mitigação, isto é, à redução de gases de efeito estufa. À medida que cresce o debate sobre adaptação, serviços como a regulação da água, o sequestro de carbono e a proteção contra desastres ganham lugar. O mapa dos atrasos mostra onde a ponte entre ciência e política ainda pode ser reforçada.

Exemplos de que o caminho pode ser curto
O próprio estudo lembra casos em que a ciência virou ação com rapidez. A proibição do DDT, inseticida de efeitos tóxicos comprovados, chegou a muitos países menos de 15 anos depois das primeiras evidências. A moratória mundial da caça de baleias foi aprovada em 1982, 12 anos depois de a ciência mostrar que as alternativas de manejo não funcionavam. Os CFCs, gases que destruíam a camada de ozônio, tiveram uso banido ou restrito. E a primeira diretiva europeia sobre qualidade do ar, de 1980, respondeu às pesquisas sobre chuva ácida do fim da década de 1970.
Segundo os autores, esses sucessos têm traços em comum: consenso científico forte, opinião pública informada, alternativas viáveis à mão, linguagem clara nas regras e cooperação internacional robusta.
Perto do território, a conservação rende mais
A segunda parte do trabalho olhou para outro trecho do caminho, o que separa a política aprovada do resultado no mundo real. Usando a conservação da biodiversidade como exemplo, os pesquisadores compararam três escalas. No plano global, a Meta 12 de Aichi, que previa frear a extinção de espécies ameaçadas até 2020, ficou longe do objetivo: entre 2010 e 2021, 84% das espécies que mudaram de categoria na Lista Vermelha da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN) passaram para uma situação pior. No continental, a rede europeia de áreas protegidas Natura 2000, criada em 1992 e considerada o maior sistema coordenado de áreas protegidas do mundo, teve efeito moderado: 41% das espécies de aves protegidas pela diretiva europeia aumentaram ou mantiveram seus territórios de reprodução entre 1980 e 2013.
O resultado mais promissor veio da escala regional. Na Comunidade Valenciana, no sudeste da Espanha, 27 espécies de aves são classificadas como vulneráveis, e seis delas ganharam planos de conservação aprovados pelo governo regional em 2005. A equipe analisou 128 séries históricas de populações de 14 dessas espécies. As aves com plano apresentaram tendência positiva; as que ficaram sem plano, tendência negativa.

Os autores apontam alguns motivos para a vantagem do local. Administrações próximas prestam contas com mais facilidade, os moradores participam mais, o cenário social e ambiental é mais homogêneo e a pressão dos cidadãos chega mais rápido a quem decide. Os acordos internacionais continuam necessários, porque dão o rumo, mas precisam virar ação concreta em cada território.
O que a Amazônia já sabe
A conclusão conversa com uma experiência que a Amazônia conhece bem. Em 1999, na comunidade São Raimundo do Jarauá, dentro da Reserva de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá, no Amazonas, ribeirinhos e pesquisadores do Instituto Mamirauá, unidade de pesquisa ligada ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), começaram a manejar o pirarucu, espécie que a pesca invasora havia empurrado para perto do risco de extinção.
O método junta ciência e conhecimento tradicional: contagem dos estoques, proteção das áreas de reprodução, tamanho mínimo de captura e cota de pesca que nunca passa de 30% dos adultos de cada área, aprovada todo ano pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama). Em 25 anos, a população de pirarucus nas áreas manejadas cresceu 620%, segundo o Instituto Mamirauá.
Hoje o manejo envolve mais de 1.300 famílias em 25 municípios do Amazonas, as mulheres são maioria entre os participantes e o pirarucu de Mamirauá conquistou, em 2021, o selo de Indicação Geográfica.
É, na prática, o que o estudo espanhol descreve nos números: decisão perto de quem vive no território, com ciência presente desde o começo.
Encurtar a distância
Para reduzir o tempo entre descoberta e decisão, os pesquisadores defendem a coprodução do conhecimento. Nesse modelo, cientistas, gestores públicos e comunidades definem juntos as perguntas, trocam dados e constroem as soluções desde o início, em vez de a ciência apenas entregar relatórios prontos. O estudo também sugere mais espaço para mediadores, como organizações da sociedade civil e especialistas em comunicação científica, que traduzem os achados para quem decide.
Segundo o estudo, essa aproximação cria aprendizado mútuo e confiança entre os dois lados, ajuda a fixar metas mais realistas e torna a execução mais efetiva. De quebra, pode render retorno importante também para a carreira de quem faz pesquisa.
“Para garantir que a ciência beneficie a sociedade por meio da política ambiental, precisamos encurtar o caminho da evidência à ação”, escrevem os autores. Para a região que recebeu a COP30, em Belém, em novembro de 2025, a mensagem soa familiar: o conhecimento existe, e ele funciona melhor quando chega rápido ao chão da floresta.
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