Cientistas brasileiros usam biomassa para reduzir custos no cimento em até 50%

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O despertar do concreto verde nas universidades

A construção civil, historicamente uma das indústrias que mais consomem recursos naturais e emitem gases de efeito estufa, está passando por uma metamorfose silenciosa nos laboratórios das universidades brasileiras. Pesquisadores estão transformando o que antes era considerado lixo da agroindústria — cinzas de bagaço de cana, casca de arroz e fibras de coco — em componentes vitais para um concreto mais forte e ecológico. Essa transição para a economia circular não apenas reduz o descarte de resíduos no meio ambiente, mas também combate a extração predatória de areia e calcário.

Na Universidade Estadual de Maringá (UEM), a inovação foca no concreto autoadensável. Ao substituir até 30% da areia natural por cinzas do bagaço da cana, os cientistas criaram um material que preenche as fôrmas sob o próprio peso, eliminando a necessidade de vibração mecânica no canteiro de obras. Já na USP de Pirassununga, a tecnologia foi além da substituição: eles desenvolveram um cimento que “sequestra” poluição. Usando óxido de magnésio e fibras vegetais, o material é capaz de capturar 100 kg de dióxido de carbono ($CO_2$) por metro cúbico, transformando o gás gerado na produção de etanol em parte da estrutura sólida do edifício.

Fibras vegetais: o reforço que vem da natureza

A utilização de fibras não é uma novidade na engenharia, mas a aplicação de resíduos como o coco e a cana traz ganhos inéditos de isolamento e resistência. Na UFLA, a combinação de fibras de coco com restos de mineração resultou em blocos de concreto com propriedades térmicas superiores. Essas fibras, ricas em lignina e celulose, agem como pequenas armaduras internas que impedem a propagação de rachaduras e tornam os ambientes internos mais frescos, gerando economia de energia com ar-condicionado.

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No Instituto Federal de Goiás (IFG), o desafio foi encontrar a “receita perfeita”. Os testes mostraram que a mistura de 1% de fibra de cana com 3,5% de sua cinza supera o concreto comum em resistência. Contudo, a ciência também impõe limites: quando os pesquisadores tentaram elevar esses percentuais para 3% de fibra e 7% de cinza, os blocos se desintegraram durante a cura submersa. A falta de trabalhabilidade (o material ficou seco demais) e a alta demanda de água das cinzas finas impediram a união química necessária, provando que a sustentabilidade na engenharia exige um equilíbrio químico rigoroso.

O papel das pozolanas e a economia de escala

Outro grande aliado do concreto sustentável é a Cinza de Casca de Arroz (CCA). Estudada intensamente no CEFET-MG, a CCA é uma “superpozolana” rica em sílica amorfa. Quando adicionada ao cimento, ela reage quimicamente para criar uma estrutura de poros muito mais refinada e densa, aumentando a durabilidade das construções contra ataques químicos e umidade a longo prazo.

Enquanto isso, no Rio Grande do Norte, a UFRN aplica esses conceitos em escala industrial através do Projeto Pozobio. Em parceria com o setor de petróleo, a universidade usa biomassa para criar cimentos especiais que podem custar metade do preço dos convencionais. Essas iniciativas mostram que a substituição de 10% a 20% do cimento por resíduos agrícolas não é apenas uma escolha ética, mas uma decisão econômica inteligente que fortalece a infraestrutura nacional.

Gerado por IA
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Um futuro construído com responsabilidade

A integração dos subprodutos do agronegócio na construção civil fecha um ciclo vital para o desenvolvimento sustentável do Brasil. Ao transformar cinzas e fibras em paredes e vigas, as universidades estão fornecendo as ferramentas para que o país cresça sem exaurir seus recursos naturais. O concreto do futuro não será apenas cinza; ele terá o DNA do solo brasileiro, capturando carbono e oferecendo moradias mais dignas e térmicas para a população.

O caminho agora é levar essas descobertas dos laboratórios acadêmicos para a produção em larga escala, garantindo que cada nova obra seja um passo em direção a um planeta mais equilibrado e tecnologicamente avançado.

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