Cobra-cega batizada de Maria revela espécie do Rio e homenageia mulheres que reflorestaram a Tijuca

Cobra-cega batizada de Maria revela espécie do Rio e homenageia mulheres que reflorestaram a Tijuca
Foto: Miguel Relvas Ugalde

Anfíbio identificado com DNA, análise do esqueleto e exemplares de museus recebeu nome ligado à história ambiental do Brasil.

Debaixo da terra, onde quase nunca é vista por pessoas e até pesquisadores encontram dificuldade para observá-la, uma cobra-cega acaba de ganhar um nome carregado de memória brasileira. A nova espécie de anfíbio, identificada a partir de exemplares do Rio de Janeiro, foi batizada de Siphonops maria em homenagem ao nome feminino mais popular do país e a uma mulher escravizada que ajudou a reflorestar a Floresta da Tijuca.

A escolha não foi apenas uma forma de registrar a descoberta. Os cientistas também quiseram chamar atenção para um grupo de animais pouco conhecido, apesar de viver em diferentes ambientes tropicais. “Eu mesmo só vi no campo uma vez”, contou Luís Felipe Toledo, professor do Instituto de Biologia da Universidade Estadual de Campinas e coautor do estudo.

Um anfíbio que passa a vida longe dos olhos

As cecílias, também chamadas popularmente de cobras-cegas, não são serpentes nem minhocas. Elas pertencem ao grupo dos anfíbios e têm esqueleto, embora o corpo alongado e sem patas possa causar confusão. A maior parte da vida desses animais ocorre no solo, em túneis e câmaras que escavam usando a cabeça.

Os olhos são reduzidos e a visão é limitada. Para compensar, as cecílias contam com órgãos sensoriais localizados na cabeça, capazes de perceber o ambiente ao redor. As fêmeas podem depositar os ovos em estruturas subterrâneas, mantendo boa parte do ciclo de vida escondida sob folhas, raízes e terra úmida.

Segundo a Agência FAPESP, Siphonops maria foi reconhecida como espécie nova em 2026, a partir da combinação de dados genéticos, características externas e imagens de alta resolução do esqueleto de exemplares associados ao Rio de Janeiro.

A pista que apareceu em um exemplar de 2015

O indivíduo escolhido como holótipo, ou seja, o exemplar de referência para a descrição da espécie, foi coletado em 2015 no Parque Nacional da Serra dos Órgãos. O animal foi depositado no Museu Paraense Emílio Goeldi, em Belém, onde passou a integrar o conjunto de materiais científicos usados para estudar a diversidade brasileira.

No início, os pesquisadores acreditavam que o exemplar pertencia a Siphonops hardyi. A comparação revelou, porém, diferenças no número de anéis do corpo e na dentição. O sequenciamento de genes empregados na identificação de espécies confirmou que se tratava de uma linhagem distinta.

A investigação ganhou novas pistas quando outros exemplares foram examinados. Em 2018 e 2022, Adriano Oliveira Maciel, pesquisador do Museu Paraense Emílio Goeldi e primeiro autor do trabalho, analisou cecílias preservadas no Museu de História Natural de Paris e no Museu Nacional, no Rio de Janeiro.

Entre os animais encontrados estava um exemplar coletado em 1902, também na Serra dos Órgãos. Embora tivesse sido identificado anteriormente como Siphonops hardyi, ele apresentava as características atribuídas à nova espécie. Isso mostra como parte da biodiversidade pode permanecer registrada em coleções por décadas antes de ser reconhecida corretamente.

DNA, tomografia e uma diferença escondida no crânio

Separar espécies de cecílias apenas pela aparência é difícil. Muitas têm formato corporal muito semelhante, e detalhes importantes podem passar despercebidos em uma observação comum. Por isso, o estudo reuniu três frentes de análise: morfologia externa, informação genética e microtomografia computadorizada.

A tomografia permitiu observar o esqueleto sem destruir os exemplares. No crânio, os pesquisadores identificaram características sutis que ajudaram a distinguir Siphonops maria de espécies próximas. A combinação das evidências fortaleceu a conclusão de que a população do Rio de Janeiro representa uma linhagem própria.

O trabalho também revisou a classificação de um grupo relacionado. Os pesquisadores concluíram que Luetkenotyphlus não apresentava diferenças suficientes para continuar separado de Siphonops. Com isso, três espécies passaram a ser chamadas de Siphonops brasiliensis, Siphonops fredi e Siphonops insulanus.

O nome Maria conecta ciência e memória

O nome da nova espécie foi pensado a partir de uma Maria específica, integrante do grupo de 11 pessoas escravizadas que plantaram mais de 100 mil árvores na Floresta da Tijuca entre 1861 e 1874. O trabalho de reflorestamento transformou uma área degradada e contribuiu para a formação da paisagem que hoje integra o Parque Nacional da Tijuca.

A homenagem também alcança milhões de brasileiras. “Acabou sendo também uma homenagem às mulheres do Brasil, uma vez que é o nome mais popular do país e um dos mais utilizados no mundo. Aqui há mais de 12 milhões de Marias. Todo mundo conhece uma; por exemplo, a minha mãe e quase todas as minhas tias se chamam Maria”, afirmou Maciel.

A associação entre o anfíbio subterrâneo e a floresta replantada reforça uma dimensão importante da descoberta: conhecer uma espécie não significa apenas acrescentar um nome a uma lista. A identificação ajuda a reconhecer histórias humanas, áreas protegidas e ecossistemas cuja recuperação dependeu de trabalho realizado em condições de violência e apagamento histórico.

Por que a descoberta interessa à Amazônia

Embora Siphonops maria seja, ao que tudo indica, exclusiva do Estado do Rio de Janeiro, a pesquisa tem ligação direta com a Amazônia. O primeiro autor trabalha em Belém, no Museu Paraense Emílio Goeldi, instituição que mantém coleções e pesquisas sobre a biodiversidade brasileira.

Para os estados amazônicos, o caso oferece uma lição prática. Animais que vivem no solo, sob a serapilheira ou em áreas alagadas podem ser subestimados justamente porque raramente aparecem. Na Amazônia, onde a diversidade de ambientes é enorme e muitas espécies têm distribuição restrita, a ausência de registros não significa necessariamente ausência de vida.

A história também ajuda a entender por que museus, universidades e coleções científicas são fundamentais. Um exemplar guardado por mais de um século pode voltar a ser analisado quando surgem técnicas capazes de revelar diferenças genéticas e anatômicas que não eram detectáveis no passado.

Outras espécies podem estar esperando uma identificação

Durante a comparação, os cientistas encontraram duas linhagens de cecílias parecidas com Siphonops hardyi. Uma foi identificada a partir de exemplares de Ubatuba, no litoral de São Paulo. A outra está associada aos municípios de Castelo e Domingos Martins, no Espírito Santo.

Esses animais ainda não foram oficialmente reconhecidos como espécies novas. Para avançar, será necessário comparar os exemplares com materiais de Porto Real, no Rio de Janeiro, localidade ligada ao holótipo de Siphonops hardyi. Parte desse material está preservada no Museu de História Natural de Londres, e o acesso a tecidos para análises genéticas ainda é uma dificuldade.

O episódio expõe um problema histórico da pesquisa sobre biodiversidade: muitos exemplares coletados em países do Sul Global foram levados para instituições do Norte durante o período colonial e depois. Sem acesso a esses materiais, cientistas podem ter dificuldade para comparar espécies e reconstruir a diversidade de seus próprios territórios.

Os pesquisadores pretendem procurar novos exemplares na Mata Atlântica para esclarecer a situação das duas linhagens. A busca pode levar anos, mas deverá indicar se elas representam espécies distintas e ampliar o conhecimento sobre os anfíbios que vivem sob as florestas brasileiras.

O estudo completo sobre a nova espécie está disponível no artigo publicado no Zoological Journal of the Linnean Society.

Com informações de Agência FAPESP.

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