Cocô de pinguim deixa algas verdes na Antártida e pode acelerar o derretimento da neve costeira

Cocô de pinguim deixa algas verdes na Antártida e pode acelerar o derretimento da neve costeira
Foto: Alia Khan

Estudo na Península Antártica relaciona o guano das aves à formação de manchas verdes que absorvem mais energia solar.

Uma mancha verde na neve pode parecer apenas uma mudança de cor, mas na Península Antártica ela também funciona como um acelerador do derretimento. O motivo está nos nutrientes levados por pinguins e outras aves marinhas, cujo guano alimenta algas capazes de escurecer a superfície e fazer com que ela absorva mais energia do Sol.

A relação foi identificada por uma equipe liderada por Elise Ryan, da Western Washington University, com participação de Alia Khan, da University of Colorado Boulder. Os pesquisadores analisaram amostras de neve com algas vermelhas e verdes ao longo da costa oeste da Península Antártica, em áreas próximas e distantes de colônias de pinguins.

Uma mudança de cor que altera o ritmo do gelo

As algas vivem em condições extremas e aproveitam o curto verão antártico para crescer. Quando encontram nutrientes em quantidade suficiente, mantêm alta concentração de pigmentos verdes, como a clorofila, e formam populações densas que podem mudar a aparência da neve.

Em ambientes mais pobres ou sob condições difíceis, o crescimento diminui. As algas passam a produzir pigmentos vermelhos, semelhantes a um protetor solar natural, que ajudam a protegê-las da radiação. A cor, porém, tem consequência física: a neve vermelha absorve cerca de 20% mais energia do que a neve limpa e branca.

O efeito se intensifica quando há nutrientes trazidos pelo guano. Segundo a American Geophysical Union, algas verdes na costa oeste da Península Antártica absorvem cerca de 40% mais energia solar do que a neve limpa, o que aumenta o aquecimento e o derretimento da superfície durante o verão.

O caminho do nutriente entre o mar e a neve

O elo começa no oceano. Pinguins se alimentam de animais marinhos e levam parte dos nutrientes dessa cadeia alimentar para a terra. Ao defecar nas proximidades das colônias, espalham compostos como o fosfato sobre a neve costeira.

Esse nutriente é especialmente importante para as algas. Nas amostras com predominância de pigmentos verdes, os cientistas encontraram concentração muito maior de fosfato do que nas áreas onde predominavam os pigmentos vermelhos.

“O guano dos pinguins atua como fertilizante, alimentando essas densas florações de algas verdes”, afirmou Khan, citada pela AGU. A descoberta conecta diretamente a vida marinha, as colônias de aves e os processos que controlam a reflexão da luz na neve.

Coleta perto das colônias exigiu trabalho pouco confortável

Para reunir o material, a equipe atravessou de barco a Passagem de Drake e percorreu cinco graus de latitude na costa da Península Antártica. Os pesquisadores coletaram neve tingida por algas em diferentes ambientes, incluindo locais influenciados pela presença de pinguins.

O trabalho de campo exigiu aproximação de áreas com grande quantidade de fezes. Além de dificultar a identificação visual, o guano pode ter aparência parecida com a das algas vermelhas. No laboratório, os cientistas separaram os componentes das amostras, contaram as células ao microscópio e mediram pigmentos e nutrientes.

“O cocô dos pinguins pode parecer visualmente semelhante às algas vermelhas da neve”, explicou Khan. “É muito fedorento trabalhar perto dos pinguins. Eles simplesmente caminham sobre as próprias fezes e as espalham por toda a neve.”

O que muda nas projeções sobre a Antártida

O estudo chama atenção para um mecanismo biológico que ainda não aparece de forma completa nas projeções sobre a expansão das áreas sem neve e gelo na Antártida. Os modelos precisam considerar não apenas temperatura, radiação e propriedades físicas da neve, mas também a ação de organismos que alteram sua cor.

Alia Khan afirmou que a ligação entre animais, nutrientes e algas da neve é uma peça importante para estimar o avanço das áreas livres de gelo. Sem esse componente, a velocidade do derretimento dos mantos de neve costeiros pode ser subestimada, assim como a expansão do terreno descoberto na região.

O resultado não significa que os pinguins sejam a causa do aquecimento antártico. O que a pesquisa mostra é um efeito local de retroalimentação: o aquecimento amplia os ambientes onde as algas podem viver; o guano favorece o crescimento das algas; e as algas verdes fazem a neve absorver mais energia, reforçando o derretimento.

Por que a descoberta interessa à Amazônia

A pesquisa foi realizada longe dos nove estados da Amazônia Legal e não mediu efeitos diretos sobre a floresta, os rios ou as comunidades amazônicas. A conexão está na escala do problema: mudanças na Antártida fazem parte do sistema climático global, enquanto a região amazônica também é acompanhada por cientistas em estudos sobre aquecimento, ciclos de água e impactos costeiros.

Para o leitor da Amazônia, a principal lição é que o clima não responde apenas a grandes processos visíveis. Uma alteração microscópica, como a mudança de pigmentação de uma alga, pode modificar a quantidade de luz absorvida por uma superfície inteira. Esse tipo de interação ajuda a explicar por que os pesquisadores buscam incluir organismos vivos nos cálculos sobre o futuro das áreas congeladas.

O próximo passo é medir a escala do fenômeno

Os autores ainda não propõem incorporar imediatamente o efeito do guano aos modelos de derretimento. Antes disso, serão necessárias mais observações para descobrir quanto essas florações contribuem para a perda de neve em diferentes partes da Península Antártica e como a distribuição das colônias pode mudar com as condições ambientais.

O artigo “Phosphate Enrichment From Wildlife Inputs Shapes the Distribution and Pigmentation of Green and Red Snow Algae Along the West Antarctic Peninsula” foi publicado no Journal of Geophysical Research: Biogeosciences e está disponível no site da publicação científica. Novos dados de campo deverão indicar se o efeito observado perto das colônias se repete em uma área maior da Antártida.

Com informações de American Geophysical Union.

Dúvidas sobre o estudo

Onde a pesquisa foi feita?

As amostras foram coletadas ao longo da costa oeste da Península Antártica, em áreas com e sem influência direta de colônias de pinguins.

Por que a neve verde derrete mais rápido?

Porque as algas verdes tornam a superfície mais escura e fazem com que ela absorva cerca de 40% mais energia solar do que a neve limpa.

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