Poeira do Saara leva dez dias para cruzar o Atlântico, muda as bactérias do ar na Amazônia e triplica endotoxinas

Poeira do Saara leva dez dias para cruzar o Atlântico, muda as bactérias do ar na Amazônia e triplica endotoxinas
Foto: acervo

Estudo com amostras coletadas na torre ATTO mostra que microrganismos de crostas biológicas do deserto chegam à floresta, mas efeitos sobre a saúde ainda são desconhecidos.

Em fevereiro de 2020, o horizonte visto do alto da torre ATTO, no coração da Amazônia, simplesmente sumiu atrás de uma névoa densa. Era poeira do deserto do Saara, que atravessou o Atlântico e trouxe consigo algo que o olho não vê: bactérias de solos africanos. Um estudo publicado na revista Communications Earth & Environment mostra que a composição bacteriana do ar sobre a floresta muda de forma significativa quando essas nuvens chegam.

A pesquisa foi conduzida por uma equipe da Universidade de Graz, na Áustria, do Instituto Max Planck de Química, em Mainz, na Alemanha, e de instituições parceiras brasileiras. O trabalho é assinado por Jens Weber e colegas, e a líder do estudo é a professora Bettina Weber.

Como as amostras foram coletadas

Durante três semanas de fevereiro de 2020, a equipe coletou amostras de aerossóis todos os dias sobre a floresta amazônica, no Brasil. Os filtros ficaram instalados na torre de pesquisa ATTO, em duas alturas: 42 e 323 metros.

Em cinco desses dias, os pesquisadores registraram a chegada de poeira do norte da África. Para saber como era o ar “normal”, compararam esses filtros com amostras coletadas antes e depois do evento, o que gerou um perfil microbiológico de referência.

Depois, fizeram análises genéticas para identificar as bactérias e os fungos presentes. Para estimar a quantidade de endotoxinas, usaram um método enzimático de alta sensibilidade, conhecido como LAL cromogênico cinético.

Como se confirmou a origem africana

A origem foi determinada por um método computacional da ciência atmosférica que reconstrói o caminho das massas de ar. A análise indicou que o transporte da África até a América do Sul levou cerca de 10 dias.

Os cientistas também examinaram a “impressão digital” mineral das amostras. O teor de íons de cálcio, por exemplo, aponta alta presença de calcita, típica da poeira mineral do Saara.

O que mudou no ar da floresta

Depois da chegada da poeira, os filtros revelaram, além das bactérias nativas, muitas outras comuns em solos secos. Segundo o estudo publicado na Communications Earth & Environment, a composição bacteriana do ar amazônico mudou de forma significativa quando a poeira africana chegou, em fevereiro de 2020.

Poeira do Saara leva dez dias para cruzar o Atlântico, muda as bactérias do ar na Amazônia e triplica endotoxinas
Foto: Jens Weber, MPIC

“Solos de regiões áridas e desertos são amplamente colonizados por comunidades microbianas, as chamadas crostas biológicas do solo. Geneticamente, as bactérias correspondem a organismos do Saara, o que prova que elas são transportadas das crostas biológicas africanas pelo vento, atravessando o Atlântico até a floresta tropical do Brasil”, explica Bettina Weber, professora da Universidade de Graz.

Já a comunidade de fungos praticamente não se alterou. Os autores atribuem isso à enorme quantidade de esporos liberada pela própria floresta, o que impediu que os esporos vindos do Saara tivessem peso relevante nas análises.

Endotoxinas triplicam no ar

Outro achado chamou atenção: a concentração de endotoxinas no ar triplicou com a chegada da poeira. Essas substâncias ficam na membrana de certas bactérias e são liberadas quando elas morrem. Quimicamente estáveis, podem causar inflamação em humanos.

“Fiquei surpreso com a grande quantidade de endotoxinas no ar”, diz Jens Weber, que realizou a pesquisa durante o doutorado. “Estudos anteriores no Caribe mostraram que crises de asma muitas vezes aumentam quando a poeira do Saara chega. Se existe uma correlação parecida na Amazônia, ainda precisa ser investigado.”

O que o estudo ainda não responde

O trabalho não esclarece se o material genético coletado ainda estava viável, ou seja, se as bactérias sobreviveram aos dias de viagem. Também não define quais microrganismos específicos estão na poeira nem se eles afetam a saúde humana. Os pesquisadores planejam avaliar esses pontos nos próximos anos.

Para quem vive na região, a pergunta é concreta. A poeira africana é um fenômeno conhecido na Amazônia, e o estudo acrescenta uma camada biológica a ele: além de minerais, o vento também transporta vida microscópica e fragmentos de células. Se essas partículas têm efeito sobre a respiração de moradores da floresta e das cidades amazônicas, é uma questão em aberto.

O que são bioaerossóis

Aerossóis são partículas sólidas ou líquidas suspensas na atmosfera, importantes para o clima e o tempo porque podem servir de núcleos de condensação de nuvens ou de gelo. Os bioaerossóis têm origem biológica: células de bactérias, esporos de fungos, musgos e samambaias, além de restos de plantas e animais. Segundo os pesquisadores, o transporte desse material também pode contribuir para a dispersão global de organismos.

As próximas etapas incluem identificar os microrganismos presentes na poeira, verificar se eles seguem vivos depois da travessia e investigar se existe relação com problemas de saúde na região. O estudo completo pode ser consultado na revista Communications Earth & Environment.

Com informações de Max Planck Society.

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