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Como a tradicional cerâmica de Icoaraci mantém viva a arte marajoara e transforma a economia cultural no Pará moderno

A argila maleável encontrada nas várzeas dos rios amazônicos possui uma composição mineral única que estabiliza compostos orgânicos por milhares de anos, permitindo que vestígios de civilizações antigas permaneçam intactos no solo úmido da floresta. Esse mesmo material geológico, moldado pela umidade e pela temperatura da região setentrional, serve de matéria-prima para uma das maiores manifestações de resistência cultural do Brasil. No distrito de Icoaraci, localizado na Região Metropolitana de Belém, o manejo dessa terra especial não mudou muito em relação aos métodos utilizados pelos povos pré-colombianos. A reprodução dos grafismos complexos e das técnicas de queima mantém uma ponte estendida entre o passado arqueológico e o sustento de centenas de famílias no Pará contemporâneo.

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A tradição oleira da região encontrou em Icoaraci, especialmente no bairro do Paracuri, o seu maior polo de difusão e comercialização. O local funciona como um ecossistema vivo onde o conhecimento é transmitido de forma oral e prática, passando de pais para filhos. Ao transformar o barro bruto em réplicas fiéis de vasos, igaçabas, estatuetas e urnas funerárias, os artesãos locais impedem que os mistérios das antigas culturas que habitaram a Ilha de Marajó caiam no esquecimento. Mais do que isso, essa atividade estabeleceu-se como um pilar fundamental para o turismo cultural e para a bioeconomia do estado.

A herança estética dos povos da floresta

A beleza singular da cerâmica de estilo marajoara reside na sua complexidade simétrica e no uso de linhas labirínticas que contam histórias sobre o mundo visível e invisível. Estudos indicam que os padrões decorativos originais não eram meros ornamentos, mas sim uma linguagem visual sofisticada que indicava hierarquias sociais, identidades de clãs e complexos rituais xamânicos. Os oleiros contemporâneos estudam essas peças históricas com devoção, buscando reproduzir fielmente os traços antropomorfos, que misturam formas humanas, e zoomorfos, inspirados em animais locais como jacarés, cobras e aves.

Para alcançar o resultado característico, o processo de produção exige paciência e profundo respeito pelo tempo da natureza. A argila precisa ser coletada nas áreas corretas de mata de várzea, limpa de impurezas como pedras e raízes, e depois batida até atingir a plasticidade ideal. A modelagem é feita predominantemente de forma manual ou com o auxílio de tornos simples. O grande diferencial está na pintura e no acabamento. Os artesãos utilizam engobes, que são suspensões de argila fina misturadas com pigmentos minerais naturais, para criar o fundo branco ou avermelhado onde os desenhos serão gravados ou pintados.

Técnicas ancestrais e o processo de produção

O processo de engobamento e a técnica do grafismo exigem mãos firmes e ferramentas muitas vezes improvisadas pelos próprios mestres artesãos, como lascas de bambu, pincéis de pelos de animais ou sementes locais. Após a pintura e a gravação dos sulcos geométricos, a peça passa pelo brunimento, uma fricção vigorosa feita com pedras semipreciosas ou seixos rolados de rio. Esse polimento manual fecha os poros da argila e confere um brilho acetinado característico às peças, dispensando o uso de vernizes sintéticos modernos.

A queima é outro momento crucial e segue a lógica tradicional dos fornos a lenha construídos nos quintais das oficinas. Segundo pesquisas sobre cadeias produtivas tradicionais, a temperatura interna do forno precisa ser controlada de forma visual e intuitiva pelo mestre oleiro, observando apenas a cor das chamas e a fumaça. Uma queima mal sucedida pode trincar o trabalho de semanas. Esse domínio técnico garante que as peças ganhem a resistência necessária sem perder a coloração vibrante dos pigmentos minerais, mantendo o padrão que atrai colecionadores do mundo inteiro.

O impacto econômico e o turismo em Belém

A atividade cerâmica de Icoaraci deixou de ser uma ocupação puramente de subsistência para se transformar no motor financeiro do distrito. Centenas de oficinas familiares movimentam a economia local através da venda direta para turistas, remessas para lojas de decoração em grandes capitais brasileiras e exportações internacionais. O fluxo de visitantes em busca do artesanato paraense fomenta uma cadeia de serviços secundários que inclui restaurantes de culinária típica, pousadas e o transporte fluvial e terrestre na região.

A sustentabilidade desse modelo econômico baseia-se no valor agregado da identidade cultural. Um vaso produzido industrialmente não carrega a mesma mística ou o valor de mercado de uma obra nascida no Paracuri. O mercado contemporâneo valoriza produtos que ostentam uma narrativa de preservação ambiental e respeito às origens. Ao adquirir uma peça, o consumidor apoia a manutenção de uma floresta em pé, já que a extração da argila e o uso da lenha de reaproveitamento são geridos de maneira comunitária para evitar a degradação dos mananciais locais.

Desafios e o futuro da salvaguarda cultural

Apesar do sucesso comercial, o polo oleiro enfrenta desafios para garantir a sua continuidade nas próximas décadas. A urbanização acelerada do entorno de Belém pressiona as áreas tradicionais de extração de argila, exigindo novas políticas de zoneamento e proteção ambiental. Há também uma preocupação constante com a salvaguarda do conhecimento prático. Com as novas oportunidades de emprego no setor de serviços urbano, atrair a juventude local para o aprendizado do ofício nas oficinas exige um esforço conjunto de valorização da profissão de artesão.

Iniciativas comunitárias e cooperativas locais têm buscado parcerias com instituições de ensino e centros de design para modernizar a gestão dos negócios sem descaracterizar o produto tradicional. Cursos de empreendedorismo, presença em plataformas digitais de vendas e a busca por indicações de procedência geográfica são ferramentas que ajudam a proteger o mercado local contra falsificações industriais e garantem remuneração justa para os verdadeiros detentores desse saber.

A preservação da cerâmica de Icoaraci mostra que a ancestralidade e o desenvolvimento econômico podem caminhar juntos na Amazônia. Cada vaso moldado no Paracuri funciona como um manifesto silencioso de que a história dos povos originários permanece viva, pulsante e gerando dignidade para as comunidades do presente. Apoiar essa arte significa valorizar o patrimônio material do Brasil e assegurar que as futuras gerações continuem a ouvir o chamado do barro e da floresta.

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