
Achado na Austrália preserva evidências de que um réptil marinho comeu um pterossauro antes de ser atacado por um predador gigante.
Que tal descobrir uma cadeia alimentar inteira preservada em uma única rocha? Pesquisadores identificaram, em um fóssil encontrado perto de Richmond, no interior de Queensland, Austrália, evidências de que um ictiossauro de cerca de 100 milhões de anos havia comido um pterossauro antes de ser atacado por um predador ainda maior. O achado, descrito em estudo publicado na revista Gondwana Research, combina restos da última refeição, marcas de mordida e ossos quebrados para reconstruir uma cena rara dos mares do Cretáceo Inferior.
Uma refeição inesperada no estômago
O animal principal do fóssil era um Platypterygius australis, espécie de ictiossauro que podia medir entre 5,8 e 6,7 metros. Esses répteis marinhos tinham corpo semelhante ao de um golfinho, mas não eram mamíferos. Eram répteis adaptados à vida nos oceanos, com nadadeiras e um focinho alongado.
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⭐ Adicionar Revista AmazôniaAo examinar o material, a equipe encontrou dentro da região abdominal fragmentos de um pterossauro, grupo de répteis voadores que viveu durante a era dos dinossauros. Entre os vestígios estava parte da mandíbula do animal. Também apareceram restos de peixes, cefalópodes semelhantes a lulas e outros componentes que ajudam a indicar o que havia passado pelo sistema digestivo do ictiossauro.
Segundo o estudo publicado na revista Gondwana Research, o fóssil encontrado em Richmond, Queensland, em 2026 reúne a primeira evidência conhecida de um ictiossauro consumindo um pterossauro. A conclusão é importante porque os pterossauros viviam principalmente no ar e em ambientes costeiros, o que torna menos comum encontrar seus restos associados à alimentação de um grande réptil marinho.
O predador também virou presa
A história não termina na digestão. O esqueleto do ictiossauro apresenta grandes marcas de mordida, partes ausentes e ossos quebrados. Esses sinais são compatíveis com o ataque ou com a ação de um predador que teria se alimentado da carcaça depois da morte do animal.
O principal suspeito é o Kronosaurus queenslandicus, um réptil marinho gigante que ocupava o topo da cadeia alimentar nos mares que cobriam a região. Como os pesquisadores não conseguem observar diretamente o momento do ataque, o estudo trata a interpretação com cautela: as marcas podem indicar uma investida contra o ictiossauro ou o consumo de seus restos por um animal necrófago.
Mesmo com essa incerteza, o fóssil registra uma interação ecológica extraordinária. Primeiro, o ictiossauro capturou ou aproveitou um pterossauro. Depois, ele próprio se tornou alvo de outro animal. A sequência mostra que a posição de caçador não garantia segurança em um oceano ocupado por predadores de diferentes tamanhos.
Entenda o caso
O material foi encontrado em 2019 por Mike e Cathy Freeman, junto com Gary e Barb Flewelling, durante uma visita a uma área pública de coleta de fósseis perto de Richmond. Como os ossos estavam misturados e a identificação não era clara, o conjunto foi colocado em uma bolsa e recebeu o apelido de “Bag of Bones”, ou “B.O.B.”.
Três anos depois, Kevin Petersen, curador do Kronosaurus Korner, retornou ao local e encontrou partes adicionais do animal. Durante a preparação, equipes de pesquisa e voluntários observaram nódulos de rocha atrás do crânio. Como a abertura manual poderia destruir vestígios delicados, os pesquisadores optaram por uma tomografia computadorizada de alta resolução, realizada com apoio da Australian Nuclear Science and Technology Organisation, conhecida pela sigla ANSTO.
Tecnologia revelou o que estava escondido
A tomografia permitiu observar o interior das estruturas sem separar ou danificar os fósseis. Esse tipo de exame funciona como uma série de imagens em camadas, que depois pode ser reconstruída digitalmente em três dimensões. Assim, a equipe conseguiu distinguir fragmentos de ossos e identificar materiais que não eram visíveis na superfície da rocha.

O uso de imagens tridimensionais foi decisivo para localizar a mandíbula do pterossauro e outros restos no interior do fóssil. Sem a tecnologia, a preparação tradicional poderia remover ou quebrar justamente as evidências que conectam o ictiossauro à sua última refeição.
Para Matt White, pesquisador associado da University of New England e autor principal do estudo, o tamanho do réptil e as marcas em seu corpo chamaram atenção desde o início. “Fiquei impressionado com o tamanho do ictiossauro e chocado ao ver que ele estava coberto de marcas de mordida, com restos de pterossauro parcialmente expostos atrás do crânio”, afirmou.
O que o fóssil ensina sobre os mares antigos
O achado amplia o conhecimento sobre as relações entre os animais que viviam nos mares do antigo Queensland. A região, hoje marcada por áreas secas e paisagens do interior australiano, esteve coberta pelo oceano em parte do Cretáceo. Naquele ambiente, peixes, cefalópodes, répteis voadores próximos da costa e grandes predadores marinhos formavam uma rede alimentar complexa.
O caso também mostra por que um fóssil isolado pode contar uma história mais rica do que a simples identificação de uma espécie. Os ossos do pterossauro informam sobre a alimentação. As mordidas apontam para uma interação posterior. A posição dos fragmentos e o estado de preservação ajudam a reconstruir a ordem provável dos acontecimentos.
Para quem acompanha a paleontologia na Amazônia, o estudo oferece uma comparação interessante. Estados como Acre, Amazonas, Pará, Rondônia, Roraima, Amapá, Tocantins e Mato Grosso também guardam registros de antigos ambientes aquáticos e terrestres. Cada descoberta regional pode revelar não apenas quais animais existiam, mas também quem comia quem e como os ecossistemas mudaram ao longo do tempo.
O estudo completo, em inglês, pode ser consultado no artigo científico Beneath the waves: Extraordinary dietary insights from a dismembered ichthyosaur from the lower Cretaceous.
Com novas análises de imagem e a revisão de outros fósseis da região, os pesquisadores devem buscar mais evidências sobre a alimentação dos ictiossauros e o papel dos grandes predadores nos mares do Cretáceo.
Perguntas frequentes
O que é um ictiossauro?
É um réptil marinho extinto, com corpo adaptado à natação e aparência semelhante à de um golfinho. Viveu em diferentes períodos da era dos dinossauros.
O ictiossauro foi realmente atacado por um Kronosaurus?
As marcas de mordida e os ossos quebrados são compatíveis com um ataque ou com o consumo da carcaça. O estudo não permite afirmar com certeza se o animal foi morto pelo predador ou se já estava morto.
Por que o fóssil é importante?
Porque reúne, no mesmo exemplar, restos da alimentação de um ictiossauro e sinais de que ele depois foi consumido por outro predador. É um registro raro de uma cadeia alimentar pré-histórica.
Com informações da University of New England e da Australian Nuclear Science and Technology Organisation.
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