
Painel no Pavilhão Brasil mostrou que recuperar o solo depende de ciência, tecnologias sociais e autonomia para quem vive no território.
O que uma cisterna no Semiárido brasileiro tem a ver com uma comunidade camponesa do Chaco, na América do Sul? A resposta apareceu durante um painel da COP17 da Desertificação, em Ulaanbaatar, na Mongólia: recuperar terras secas exige mais do que técnicas ambientais. É preciso reconhecer os saberes de quem vive no território, fortalecer as comunidades e colocar as mulheres no centro das decisões.
Realizado no Pavilhão Brasil em 20 de agosto de 2026, o debate reuniu representantes da Articulação Semiárido Brasileiro, da Rede Cerrado, da Plataforma Semiáridos, da Rede de Mulheres Produtoras do Pajeú, do Instituto Nacional do Semiárido e do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima. O encontro discutiu como a restauração de áreas degradadas pode caminhar junto com justiça social, preservação cultural e segurança alimentar.
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Mediado por Ivi Aliana Dantas, da Articulação Semiárido Brasileiro, o painel começou com um chamado para que os biomas deixem de ser tratados como territórios isolados. Ingrid Silveira, secretária executiva do GT Cerrado da Frente Parlamentar Ambientalista e representante da Rede Cerrado, defendeu uma cooperação permanente entre Cerrado e Caatinga.
Segundo Ingrid, a parceria entre a Rede Cerrado e a ASA já se articula em pautas políticas comuns, como a defesa da Proposta de Emenda à Constituição 504, que busca reconhecer os dois biomas como patrimônios nacionais. A proposta, afirmou, precisa voltar ao centro das discussões do Congresso Nacional.
A ativista também criticou a antiga visão de que o Cerrado seria uma área disponível para ocupação, sem populações e sem história. “Nos últimos 50 anos, o Cerrado já perdeu 50% da sua vegetação por causa desse pensamento de uma terra sem gente, sem povo”, declarou.
O bioma abriga 83 etnias indígenas e 22 dos 28 segmentos de povos e comunidades tradicionais reconhecidos pela legislação brasileira, de acordo com os dados apresentados por Ingrid. Para ela, proteger as nascentes e a vegetação do Cerrado também significa preservar a identidade cultural de quem depende desses ambientes.
Cisternas atravessam fronteiras e chegam ao Chaco
A experiência brasileira com tecnologias sociais ganhou uma dimensão internacional na fala de Antonella Sleiman, jovem representante da Fundapaz e da Plataforma Semiáridos. Ela relatou intercâmbios realizados na região do Chaco Americano, que se estende por áreas da Argentina, Bolívia e Paraguai.
As cisternas brasileiras de captação de água foram replicadas em comunidades camponesas do Chaco para ajudar as famílias a enfrentar secas severas, aquecimento global e degradação das terras. A adaptação de uma solução de baixo custo a diferentes realidades mostrou, segundo Antonella, que o conhecimento pode circular entre comunidades com histórias e culturas distintas.
“Os intercâmbios acontecem quando nos encontramos com outros países com os mesmos problemas e dizemos: mas como pode ser, ele vive em El Salvador e tem o mesmo problema de água?”, relatou Antonella.
A Plataforma Semiáridos atua como uma rede de solidariedade e aprendizagem entre países latino-americanos, incluindo México e El Salvador. A proposta é aproximar experiências locais e estimular soluções construídas pelas próprias comunidades, em vez de aplicar modelos prontos para qualquer território.
Mulheres são guardiãs das sementes e das águas
O protagonismo feminino apareceu de forma ainda mais concreta na fala de Apolônia Gomes, da Rede de Mulheres Produtoras do Pajeú, em Pernambuco. Ela afirmou que as mulheres participam de cerca de 70% das ações de restauração ecológica realizadas no sertão pernambucano.
A rede trabalha para fortalecer a identidade de agricultoras, quilombolas e mulheres catingueiras, que passaram a se reconhecer como guardiãs das sementes, das águas e da Caatinga. Esse reconhecimento, porém, convive com obstáculos antigos, como a falta de autonomia sobre a terra e as decisões tomadas dentro das propriedades rurais.
Em muitos casos, os quintais produtivos agroecológicos são o principal espaço disponível para que as mulheres plantem, recuperem o solo, conservem sementes e produzam alimentos. “A pauta da restauração não está dissociada à pauta da produção de alimentos porque o que nós temos hoje para que as mulheres façam restauração é um lugar pequeno, é o seu quintal produtivo”, afirmou Apolônia.
Ela também chamou atenção para a sobrecarga de trabalho doméstico. Antes de participar de reuniões, mutirões ou atividades de coleta de sementes, muitas agricultoras precisam concluir as tarefas de cuidado da casa e da família. Por isso, defendeu políticas públicas com acesso efetivo à terra, crédito e proteção contra a violência no campo.
Os números mostram o peso da degradação
A dimensão científica do problema foi apresentada por Aldrin Martin Perez-Marin, pesquisador do Instituto Nacional do Semiárido e correspondente científico do Brasil na Convenção das Nações Unidas de Combate à Desertificação. Ele classificou a desertificação como uma “ferida continental” e global.
Segundo Aldrin, 21% do Semiárido brasileiro está em situação de degradação crítica. O pesquisador também apresentou estudos baseados na metodologia Lume, uma ferramenta de análise econômico-ecológica, que apontaram melhoria média de 60% nos atributos sistêmicos de agroecossistemas após a adoção de práticas agroecológicas.
Segundo o Instituto Nacional do Semiárido, dados apresentados na COP17 em 20 de agosto de 2026 indicam que a agroecologia pode melhorar o funcionamento dos agroecossistemas e ampliar benefícios ligados à renda, à biodiversidade produtiva e à segurança alimentar.
Aldrin destacou ainda a dimensão pouco visível do trabalho feminino. De acordo com os dados apresentados no painel, as mulheres realizam 90% do trabalho de cuidado e das atividades produtivas, respondem por 42% do tempo dedicado diretamente à produção e geram 38% do valor agregado da produção rural.
Para o pesquisador, os resultados reforçam uma ideia central do encontro: “restaurar a terra é, antes de tudo, fortalecer quem cuida dela”. Ele também alertou para o risco de financiamentos climáticos privados que, sem salvaguardas, podem afastar as comunidades locais dos projetos feitos em seus próprios territórios.
Da experiência local à política pública
Alexandre Pires, diretor do Departamento de Combate à Desertificação do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima, levou as reivindicações do painel para o campo das negociações governamentais. Ele afirmou que o Brasil defenderá, na COP17, a agenda de gênero e a valorização de populações tradicionais e indígenas.
“É impossível a gente pensar que a agenda de combate à desertificação vai conseguir avançar se não for reconhecendo, valorizando e construindo instrumentos de financiamento que aportem nas mãos das mulheres”, disse Alexandre.
O diretor avaliou que áreas sob gestão e posse de mulheres demonstram maior sustentabilidade ambiental. Também criticou mecanismos internacionais de financiamento climático, como o Fundo Global para o Meio Ambiente e o Fundo Clima, por considerar que os recursos são insuficientes e não chegam diretamente, na escala necessária, às populações afetadas.
A discussão tem conexão direta com a Amazônia. Embora o foco do painel tenha sido o Cerrado, a Caatinga e o Chaco, Alexandre citou a seca recente na Amazônia como exemplo de uma crise hídrica que começa a atingir regiões tradicionalmente associadas à abundância de água. A experiência acumulada por comunidades do Semiárido pode ajudar a pensar respostas para diferentes estados amazônicos, desde que cada realidade seja respeitada.
O Ministério pretende transformar experiências da sociedade civil em políticas públicas mais robustas, incluindo iniciativas como o programa Recaatingamento. As propostas discutidas no Pavilhão Brasil devem continuar em debate ao longo da COP17 e nas próximas etapas de formulação das políticas de combate à desertificação.
Com informações de Eco Nordeste.
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