
Simon Stiell afirma que ondas de calor e desastres já ampliam doenças, inflação e pressão sobre sistemas de saúde.
Hospitais e serviços de saúde terão de lidar com uma pressão cada vez maior à medida que ondas de calor, desastres climáticos e eventos extremos se tornam mais frequentes. O alerta foi feito em 21 de setembro de 2026, em Nova York, por Simon Stiell, secretário-executivo da Organização das Nações Unidas para a Mudança do Clima.
A fala mostra que a crise climática já não é tratada apenas como um problema ambiental. Para a ONU, ela também representa uma emergência econômica e de segurança, porque afeta vidas, empregos, produção de alimentos, preços e a capacidade dos governos de manter serviços essenciais.
Quando o clima vira problema de atendimento
Em seu discurso no Industrial Transition Accelerator Industry Acceleration Summit, Stiell afirmou que os impactos sobre a saúde e os custos associados estão crescendo enquanto os sistemas de saúde enfrentam uma sobrecarga cada vez maior.
O raciocínio é direto: temperaturas extremas aumentam os riscos à população, desastres interrompem serviços e a destruição de moradias e estruturas públicas amplia a demanda por atendimento. Ao mesmo tempo, governos precisam deslocar recursos para emergências que antes ocorriam com menor intensidade ou frequência.
Segundo a Organização das Nações Unidas para a Mudança do Clima, Simon Stiell alertou sobre o agravamento dos impactos à saúde causado pela crise climática em 21 de setembro de 2026, durante um evento em Nova York.
A conta chega aos alimentos e às famílias
O secretário-executivo também relacionou o aquecimento do planeta à queda na produtividade agrícola. Quando ondas de calor e desastres prejudicam lavouras, a oferta diminui e os preços dos alimentos tendem a subir, pressionando a inflação e o orçamento doméstico.
Essa conexão ajuda a explicar por que o tema interessa diretamente à Amazônia. Nos estados do Amazonas, Pará, Acre, Amapá, Rondônia, Roraima, Tocantins e Mato Grosso, qualquer interrupção prolongada em estradas, rios, aeroportos, unidades de saúde ou cadeias de abastecimento pode transformar um evento climático em uma crise social mais ampla.
Para comunidades afastadas dos grandes centros, a dificuldade não está apenas em tratar uma doença. O problema também envolve chegar ao atendimento, manter estoques de medicamentos, transportar equipes e garantir energia e comunicação durante uma emergência.
O limite temporário de 1,5 grau
Stiell citou um relatório recente do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente para afirmar que a ultrapassagem do limite de 1,5 grau Celsius em relação ao período pré-industrial é considerada garantida, ainda que possa ser temporária.
O objetivo climático não desaparece por causa disso. A defesa apresentada pelo dirigente é acelerar a redução das emissões para que o aumento da temperatura volte a ficar abaixo desse patamar o mais rapidamente possível, enquanto os países reforçam a adaptação aos impactos que já estão ocorrendo.
Na avaliação da ONU, avanços diplomáticos e políticas nacionais reduziram a projeção de aquecimento global de mais de quatro graus Celsius para 2,6 graus Celsius. O resultado é considerado importante, mas ainda insuficiente para evitar danos graves.

Energia limpa avançou, mas não no ritmo necessário
O discurso também apresentou um contraponto. Dados da Agência Internacional de Energia Renovável indicam que a expansão da capacidade renovável alcançou 693 gigawatts no ano anterior, um recorde segundo Stiell.
Ele afirmou ainda que as fontes renováveis permitiram evitar quase meio trilhão de dólares em custos com combustíveis fósseis. No mesmo período, os investimentos em energia limpa superaram 2 trilhões de dólares, impulsionando empregos e atividade econômica.
Esses números sustentam a avaliação de que a transição energética já produz ganhos concretos. O problema é a distância entre os compromissos anunciados pelos países e a execução das medidas necessárias para reduzir emissões, proteger populações vulneráveis e modernizar redes de energia.
Para a Amazônia, a transição tem uma dimensão adicional. Sistemas de energia mais eficientes e fontes renováveis podem ajudar a reduzir a dependência de combustíveis caros em localidades isoladas. Mas essa mudança exige planejamento, manutenção, financiamento e soluções adequadas às distâncias e às características dos territórios amazônicos.
Inteligência artificial entra no debate climático
Stiell também chamou atenção para o consumo de energia dos sistemas de inteligência artificial. Centros de dados precisam de eletricidade e água para funcionar, e a expansão acelerada dessa infraestrutura pode elevar custos e emissões quando a matriz energética depende de carvão, petróleo ou gás.
Ao mesmo tempo, a tecnologia pode ser usada em favor da adaptação. O secretário-executivo citou a possibilidade de aplicar inteligência artificial em sistemas de alerta antecipado para desastres e na melhoria da eficiência das redes elétricas.
A cobrança feita às empresas é que estabeleçam metas climáticas verificáveis, divulguem o consumo de energia e água e utilizem fontes renováveis para abastecer seus centros de processamento. A exigência é especialmente relevante para evitar que uma solução tecnológica crie novos custos ambientais.
O que ainda falta para a resposta avançar
Na avaliação apresentada em Nova York, os países precisam fortalecer instituições, acelerar a transferência de tecnologia e ampliar o acesso a financiamento climático de melhor qualidade. O apoio é considerado essencial para que nações vulneráveis consigam participar da transição energética sem ampliar desigualdades.
Stiell também defendeu o uso de tecnologias de remoção de dióxido de carbono, mas como complemento, nunca como substituição da redução do uso de combustíveis fósseis. A proteção e a recuperação de sumidouros naturais de carbono, como florestas, aparecem como parte da resposta.
O ponto central do alerta é que a velocidade dos impactos já não combina com a velocidade das decisões. A ONU cobra que governos tratem a redução das emissões como medida de controle da inflação, proteção da saúde, fortalecimento econômico e segurança nacional.
O próximo passo defendido por Stiell é transformar promessas climáticas em políticas executadas, com continuidade, financiamento e cooperação internacional, enquanto os países aceleram a implementação do Acordo de Paris.
Com informações da Organização das Nações Unidas para a Mudança do Clima.
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