
Debate crucial na SBPC evidencia necessidade de planejamento e regras para expansão tecnológica.
A expansão acelerada de data centers no Brasil exige um planejamento rigoroso, transparência e a implementação de regras claras que assegurem benefícios substanciais ao país, ao mesmo tempo em que minimizam impactos socioambientais. Essa avaliação crítica foi unânime entre pesquisadores durante um debate recente em Niterói, Rio de Janeiro, parte da 78ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC).
Professores como Mauro Oliveira, do Instituto Federal do Ceará (IFCE), e Dan Levy, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), enfatizaram a urgência de que a instalação de grandes centros de processamento de dados seja acompanhada por políticas públicas robustas e um envolvimento mais profundo da comunidade científica e da sociedade civil.
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Mauro Oliveira alertou que, sem uma estratégia definida, o Brasil pode cair na armadilha histórica de explorar seus recursos naturais sem garantir as devidas contrapartidas para o desenvolvimento nacional. “O problema não é receber data centers. O problema é receber esses investimentos sem negociação. O Brasil precisa definir o que quer exigir em troca”, afirmou Oliveira, defendendo que a discussão, que atualmente está restrita a poucos setores, deve envolver universidades, governo e toda a sociedade.
O pesquisador destacou que esses empreendimentos trazem desafios significativos em áreas como consumo de energia, soberania digital e o controle da infraestrutura tecnológica. Ele citou o projeto de um megadata center voltado para inteligência artificial no Ceará, com uma demanda energética estimada em 300 megawatts, o equivalente ao abastecimento de milhões de pessoas. Em 2023, um estudo da Agência Internacional de Energia (IEA) indicou que o consumo global de data centers deve quase dobrar até 2026, com a demanda por IA sendo um dos principais motores.
“O mundo, hoje, não consegue produzir energia suficiente para atender à demanda projetada pelos data centers de inteligência artificial”, pontuou Mauro Oliveira. Além da questão energética, ele defendeu a criação de mecanismos permanentes de monitoramento, auditoria e transparência para todos os projetos de data centers.
Do ponto de vista do direito ambiental, Dan Levy argumentou que os impactos vão muito além do consumo de água e energia, abrangendo poluição sonora, pressão sobre recursos naturais, potenciais conflitos territoriais, aumento das desigualdades sociais e riscos para comunidades vulneráveis. “A transição digital e a transição ecológica não podem ser tratadas como processos independentes. É preciso incorporar critérios de sustentabilidade, transparência e participação social”, defendeu Levy.
Ele ressaltou a importância de que as comunidades diretamente impactadas participem ativamente das decisões, e não sejam apenas receptoras passivas dos impactos. Levy associou a expansão dos data centers ao conceito de colonialismo digital, onde países do Sul Global, como o Brasil, fornecem recursos como energia, água e território para sustentar a infraestrutura tecnológica de grandes empresas do Norte Global. “A gente não é contra o desenvolvimento. A questão é como esse desenvolvimento é realizado e quem suporta seus custos”, concluiu.
Entenda o caso
A crescente demanda por infraestrutura tecnológica impulsionada pela inteligência artificial e o desenvolvimento digital tem levado à expansão de data centers globalmente. No Brasil, essa expansão ocorre sem um arcabouço regulatório que garanta contrapartidas sociais e ambientais, gerando preocupações sobre sustentabilidade e soberania, conforme debatido na SBPC.
A Amazônia, com sua vasta capacidade hidrelétrica e terras, pode se tornar um polo para esses empreendimentos, mas a ausência de um plano estratégico e de salvaguardas pode agravar os desafios socioambientais na região. É fundamental que os estados amazônicos, como Pará e Amazonas, iniciem discussões proativas sobre como regular e exigir contrapartidas para quaisquer investimentos em data centers que busquem suas fontes de energia e território.
Crescimento e Demanda Energética
O avanço tecnológico, especialmente em inteligência artificial, tem gerado uma demanda sem precedentes por capacidade de processamento e armazenamento de dados. O Brasil, como um mercado emergente e com grande oferta de energia renovável, é um alvo natural para esses investimentos. No entanto, o debate na SBPC trouxe à tona que a atração desses empreendimentos não pode ser a qualquer custo. A necessidade de monitorar, auditar e garantir a transparência dos projetos é vital para assegurar que os benefícios superem os custos e que a soberania digital do país não seja comprometida.
A próxima etapa crucial será a formulação de políticas públicas que incorporem essas preocupações, garantindo que o Brasil se posicione de forma estratégica na economia digital global.
Perguntas Frequentes
O que é colonialismo digital?
É um conceito que descreve a dinâmica onde países do Sul Global fornecem recursos (energia, água, território) para sustentar a infraestrutura tecnológica de grandes empresas do Norte Global, sem benefícios proporcionais.
Por que os data centers consomem tanta energia?
Data centers precisam de uma enorme quantidade de energia para alimentar os servidores e, principalmente, para o resfriamento constante dos equipamentos, evitando superaquecimento.
Qual o papel das universidades nesse debate?
As universidades são essenciais para fornecer embasamento científico, participar da avaliação de impactos e propor soluções, além de engajar a sociedade nesta discussão complexa.
Com informações de Agência Brasil.
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