Desindustrialização molda novas cidades e moradias no Brasil

Desindustrialização molda novas cidades e moradias no Brasil
Foto: agencia.fapesp.br

Estudo aprofundado revela a reconfiguração urbana e habitacional em cinco décadas de transformações econômicas e sociais.

A forma como os brasileiros constroem suas casas e suas cidades foi drasticamente redefinida nas últimas cinco décadas. A industrialização robusta do século 20 deu lugar a uma economia que hoje se escorra mais em serviços, finanças, plataformas digitais e agronegócio. Neste novo contexto, a precariedade habitacional, a informalidade e as desigualdades urbanas persistem, mas assumem configurações distintas, conforme revela o livro A produção da casa e da cidade no Brasil contemporâneo: novos estudos sobre autoconstrução, Estado e imobiliário, lançado pelo Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia (INCT) Produção da Casa e da Cidade, em parceria com a Faculdade de Arquitetura e Urbanismo e de Design da Universidade de São Paulo (FAU-USP).

A pesquisa atualiza e aprofunda questões levantadas por A produção capitalista da casa (e da cidade) no Brasil industrial, obra seminal organizada por Ermínia Maricato em 1979. O objetivo dos pesquisadores foi compreender o que permaneceu e o que mudou na relação entre economia, trabalho, moradia e urbanização desde então.

Mudança estrutural da economia

A professora Maria Lucia Refinetti Rodrigues Martins, da FAU-USP e uma das coordenadoras do projeto, explica a relevância do ponto de partida: “Partimos daquele livro porque ele ofereceu uma interpretação muito importante da relação entre industrialização, urbanização e produção da moradia popular. Queríamos saber o que aconteceu com essa realidade meio século depois”. Em 1979, o conceito de ‘urbanização a baixos salários’, consolidado por Maricato e inspirado em Francisco de Oliveira, descrevia como salários insuficientes no mercado formal impulsionavam a autoconstrução em loteamentos periféricos.

Quase 50 anos depois, os mecanismos que estruturam a urbanização brasileira se alteraram profundamente. Dados apresentados no livro mostram que a indústria, que representava cerca de 46% do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro no início da década de 1980, caiu para aproximadamente 25% em 2023. A indústria de transformação, setor de maior complexidade tecnológica, retornou a patamares dos anos 1950, representando apenas cerca de 15% do PIB. Segundo a FAPESP, esse processo é frequentemente descrito como desindustrialização precoce e reprimarização da economia, com crescente peso dos serviços, atividades financeiras e exportações de commodities.

“Hoje temos um país bastante diferente. A participação percentual da indústria é muito menor e as cidades passaram a ser fortemente influenciadas pela articulação entre o setor imobiliário e o setor financeiro”, afirma Martins, evidenciando a virada do modelo econômico.

Transformações demográficas e urbanas

As mudanças econômicas vieram acompanhadas de profundas transformações demográficas. Em 1950, 70% dos brasileiros viviam no campo. Em contraste, o Censo Demográfico de 2022 indica que 85% da população reside hoje em áreas urbanas. O estudo aponta que essa urbanização não se limitou às grandes metrópoles, observando um forte crescimento de cidades médias e novos polos urbanos conectados ao agronegócio, mineração, logística e serviços especializados por todo o país.

Isso resultou em uma estrutura urbana mais complexa, caracterizada tanto pela concentração metropolitana quanto pela interiorização do crescimento econômico. Apesar dos avanços em infraestrutura e políticas habitacionais, os autores argumentam que a desigualdade continua sendo uma característica estrutural da urbanização brasileira.

“A cidade produzida hoje é diferente daquela dos anos 1970, mas as desigualdades permanecem. O que mudou foram os mecanismos pelos quais elas são reproduzidas”, sublinha Martins.

Uma das principais alterações está no mercado de trabalho. Se a urbanização analisada por Maricato era intrinsecamente ligada ao trabalhador industrial assalariado, a nova pesquisa destaca a ascensão de formas precárias e instáveis de ocupação, como trabalho por aplicativos, terceirização e autoemprego. “O trabalhador que antes tinha um emprego relativamente estável e construía a casa aos poucos agora frequentemente vive de atividades precárias e instáveis. Isso também modifica a forma como a moradia é produzida”, pondera a pesquisadora.

Entenda o caso: A financeirização e a informalidade urbana

A financeirização da economia emerge como um fator central para compreender a cidade contemporânea, alterando as dinâmicas de trabalho, a produção imobiliária e as próprias políticas urbanas. O estudo evidencia a sobreposição entre formalidade e informalidade na produção do espaço, onde ampliações e adaptações autônomas coexistem com intervenções estatais, criando novas formas urbanas. A influência do mercado imobiliário e do capital financeiro explica a verticalização acelerada e a reconfiguração de áreas urbanas.

Novas fronteiras da análise urbana

O livro também examina a crescente influência do mercado imobiliário e da financeirização na produção da cidade. Segundo os autores, a própria produção do espaço urbano tornou-se parte de estratégias de valorização imobiliária e circulação de capital. Essa dinâmica ajuda a explicar fenômenos como a verticalização acelerada, a expansão de grandes empreendimentos habitacionais, a reconfiguração de áreas centrais e o aumento do preço da terra urbana.

Para investigar essas transformações, o INCT estruturou sua pesquisa em quatro eixos principais: autoconstrução e territórios populares, produção estatal da moradia e planejamento urbano, mercado imobiliário e infraestrutura, e estudos urbanos na periferia do capitalismo. Ao reunir pesquisadores de diferentes regiões do país, a iniciativa buscou expandir uma tradição de estudos que historicamente se concentrou muito na Região Metropolitana de São Paulo.

“Queríamos entender como esses processos ocorreram também na Amazônia, nas regiões de mineração, nas cidades médias, nos territórios ligados ao agronegócio e em outras partes do país”, ilustra Martins.

O resultado é um diagnóstico abrangente das transformações da urbanização brasileira nas últimas décadas, atualizando a gramática analítica construída nos anos 1970. A pesquisa conclui que, “Estamos procurando compreender como as transformações econômicas, sociais e institucionais redefiniram a produção da casa e da cidade no Brasil. Essa continua sendo uma questão central para entender as desigualdades urbanas contemporâneas”. O livro está disponível eletronicamente para download gratuito, ampliando o acesso a este conhecimento vital para discutir o futuro das cidades brasileiras.

Perguntas Frequentes

Qual a principal mudança na urbanização brasileira, segundo o livro?
A principal mudança é a transição de uma economia industrial para uma economia de serviços, finanças e agronegócio, que redefiniu os mecanismos de produção de moradia e as formas de desigualdade urbana.

O que é ‘urbanização a baixos salários’?
É um conceito que descreve como, no período industrial, os salários insuficientes para o mercado formal de habitação levavam milhões de trabalhadores à autoconstrução em lotes periféricos.

Como a Amazônia se insere nesse estudo?
A pesquisa incluiu o estudo de como os processos de urbanização e financeirização se manifestaram em diversas regiões do país, incluindo a Amazônia, bem como em áreas de mineração, cidades médias e territórios ligados ao agronegócio.

Com informações de FAPESP.

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