Com 1 milhão de barris diários a menos no mercado, diesel alcança preço recorde e refinarias dos EUA e da Europa miram lucros inéditos

Com 1 milhão de barris diários a menos no mercado, diesel alcança preço recorde e refinarias dos EUA e da Europa miram lucros inéditos
Foto: Divulgação

Escassez global do combustível que move safras, minas e navios deve se estender até 2027, e a Amazônia, dependente do diesel, está entre as regiões mais expostas.

Quem produz diesel nunca esteve tão bem, e quem o consome nunca pagou tanto. A Agência Internacional de Energia (AIE) afirmou nesta quarta-feira (14) que a escassez global do combustível se prolongará até 2027, mesmo com o afrouxamento de sanções comerciais e a liberação de estoques de emergência. Ao mesmo tempo, refinarias ocidentais preparam os maiores lucros de sua história.

Segundo a AIE, a oferta de diesel no mercado global caiu cerca de 1 milhão de barris por dia em relação ao nível de 2025, até setembro de 2026. O motivo é uma combinação de refinarias danificadas pela guerra no Golfo e na Rússia e de restrições às exportações da China.

O combustível que sustenta a economia real

O diesel responde por 10% do consumo mundial de energia e é chamado de combustível de batalha por mover tratores, máquinas de mineração, fábricas, navios e caminhões. Por isso, seu preço se espalha pelo custo de alimentos, bens e transporte.

“Os preços recordes do diesel já têm consequências econômicas amplas, ao elevar o custo dos bens e afetar a renda real, a atividade econômica e a inflação”, alertou a AIE. A pressão vai de agricultores do cinturão de milho dos EUA a operadoras de ônibus locais na Inglaterra. No Reino Unido, o diesel é hoje o mais caro da Europa.

A Rússia, antes a segunda maior exportadora de diesel, atrás apenas dos EUA, perdeu capacidade com os danos às refinarias. A reação de Washington, um acordo temporário para importar diesel russo, foi criticada por oferecer “pouco, tarde demais”.

Quando o passivo vira mina de ouro

A crise tem vencedores claros. “Eu prefiro o mundo da disrupção ao mundo pacífico”, disse na semana passada Patrick Pouyanné, presidente da francesa TotalEnergies, para quem a crise, deflagrada por quase oito meses de guerra no Oriente Médio, traz “muitas oportunidades para quem consegue capturá-las”.

“Estamos indo muito bem por sermos integrados”, explicou. “Integração significa que suas refinarias na Europa, que você achava que eram passivos, de repente viram minas de ouro.” De abril a junho, a receita de refino e química da empresa mais que quadruplicou, para US$ 1,8 bilhão, e levou ao melhor lucro trimestral em três anos.

Os números do refino

Os maiores ganhos devem vir dos EUA. As exportações de derivados cresceram mais de 50% em um ano, de cerca de 1,25 milhão para um recorde de 1,9 milhão de barris por dia no verão, o que compensou as perdas do Golfo.

O valor de mercado de Marathon Petroleum, Valero Energy e Phillips 66 mais que dobrou desde o início da crise. Juntas, as três somam alta de US$ 215 bilhões em 2026 nas bolsas, com ações em máximas históricas. Nas próximas semanas, devem divulgar lucros recordes.

A Shell projeta que a margem de refino quase dobrará, para US$ 42 por barril no terceiro trimestre, ante US$ 24 no segundo. O Brent oscila em torno de US$ 100 e voltou a superar US$ 106 diante do temor de escalada no conflito. O petróleo está menos caro do que se temia, mas o diesel está bem mais caro.

Nem todas as refinarias lucram

A flexibilidade separa vencedores e perdedores. A presidente-executiva da BP, Meg O’Neill, contou que, em março e abril, a empresa enviou diesel à Austrália a partir de Roterdã e Cherry Point, na costa oeste dos EUA. Em maio, suas refinarias produziram 30% mais querosene de aviação que antes do conflito. Agora, voltaram a priorizar o diesel.

Quem não conseguiu se adaptar sofre. Refinarias que produzem nafta e gasolina, cujos preços estão bem abaixo dos do diesel, arcam com um custo “paralisante” do petróleo e do frete de superpetroleiros, segundo a AIE. No noroeste da Europa, a margem de refino caiu de US$ 54 por barril no início de setembro para até US$ 11 negativos neste mês.

O que isso significa para a Amazônia

A conta chega à região por um caminho conhecido. Rios são as estradas da Amazônia, e barcos de passageiros e de carga, geradores de comunidades isoladas e máquinas agrícolas e de mineração operam majoritariamente a diesel. Quando o preço sobe no mercado internacional, o frete fluvial e o custo de itens básicos tendem a seguir o mesmo caminho. Este é um efeito de cadeia descrito pela AIE em escala global, e não um levantamento específico sobre a região.

A próxima frente da crise

A própria migração para o diesel cria um risco. Segundo a AIE, a mudança de produção pode gerar excesso do combustível no início de 2027. Se refinarias de gasolina reduzirem a operação para conter prejuízos, as bombas de gasolina podem se tornar a próxima frente da crise. Os balanços trimestrais das refinarias americanas, esperados para as próximas semanas, mostrarão a dimensão desse lucro.

Com informações de The Guardian.

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