
A descoberta foi feita com genomas de 64 aves e reabre o alerta sobre o futuro de populações isoladas no oceano Austral.
Uma população de pinguins que parecia igual a outras aves gentoo ganhou uma identidade própria depois que cientistas analisaram seu DNA. Os animais vivem nas remotas ilhas Kerguelen, no sul do oceano Índico, e foram reconhecidos como uma nova espécie em um estudo publicado em 21 de setembro de 2026 na revista Communications Biology. A descoberta é a primeira descrição formal de uma nova espécie de pinguim em mais de um século, mas vem acompanhada de um alerta: o aquecimento do oceano pode reduzir drasticamente o habitat disponível para essas aves até 2050.
Uma espécie escondida entre aves muito parecidas
As ilhas Kerguelen, também conhecidas como ilhas da Desolação, ficam a quase 2 mil milhas de qualquer área permanentemente habitada. O isolamento ajudou a manter a população separada por milhares de anos, mas não produziu uma aparência muito diferente. Como outros gentoos, os pinguins têm dorso preto, ventre branco e adaptações que favorecem a caça no mar.
A distinção apareceu no material genético. A linhagem recebeu o nome científico Pygoscelis kerguelensis e é classificada pelos pesquisadores como uma espécie críptica, termo usado para animais que se parecem bastante com parentes próximos, embora apresentem diferenças genéticas profundas.
Segundo a Universidade da Califórnia em Berkeley, a nova espécie foi identificada nas ilhas Kerguelen, em estudo publicado em 21 de setembro de 2026, depois da comparação de genomas de pinguins gentoo de diferentes colônias.
O grupo que era uma espécie passou a ser quatro
O resultado mais amplo da pesquisa foi uma revisão da árvore evolutiva dos gentoos. O que durante muito tempo foi tratado como uma única espécie distribuída pelo hemisfério Sul reúne, na realidade, quatro espécies geneticamente distintas. Três populações antes classificadas como subespécies passaram a ser reconhecidas como espécies completas.
Para chegar a essa conclusão, uma equipe internacional liderada por pesquisadores do Chile e da Universidade da Califórnia em Berkeley sequenciou o genoma completo de 64 pinguins, coletados em dez colônias de reprodução. A amostragem cobriu quase toda a área conhecida de distribuição dos gentoos, algo que estudos anteriores não haviam conseguido fazer.
Os cientistas também compararam tamanho corporal, coloração, vocalizações, época de reprodução, alimentação e comportamento durante a busca por comida. A combinação entre genética, características físicas e ecologia foi usada para resolver uma disputa que se arrastava havia mais de cem anos, com propostas anteriores que reconheciam até seis subespécies.
Quatro linhagens, quatro ambientes no oceano Austral
A nova espécie do sudeste vive próxima à Frente Polar Antártica, uma zona de transição no oceano em que temperatura e salinidade mudam de forma acentuada. Ao norte dessa fronteira está a espécie oriental, Pygoscelis taeniata, encontrada nas ilhas Crozet, Marion e Macquarie. A linhagem setentrional, Pygoscelis papua, ocupa as ilhas Malvinas, também chamadas Falkland, e as ilhas Martillo, na América do Sul.
Mais ao sul está Pygoscelis ellsworthi, a espécie gentoo do sul. Ela ocorre na Península Antártica, no litoral da Antártica e na ilha Geórgia do Sul. De acordo com as projeções analisadas no estudo, essa linhagem pode ser menos prejudicada pelo aquecimento e até ampliar sua distribuição para áreas mais internas do continente.
A separação entre as quatro espécies teria ocorrido entre 300 mil e 500 mil anos atrás. O isolamento geográfico foi decisivo: os pinguins retornam às mesmas colônias e, como conseguem capturar peixes, krill, lulas e sépias, não precisam se afastar muito dos locais de reprodução. Ao longo das gerações, cada população se adaptou às condições de seu arquipélago.
Genes mostram como cada pinguim se adaptou
A análise conduzida pela pesquisadora Daly Noll, da Universidade do Chile, identificou milhares de diferenças genéticas, conhecidas como polimorfismos de nucleotídeo único. Essas variações ajudam a explicar por que as linhagens conseguem viver em ambientes tão diferentes.
O gentoo do sul apresentou mais genes associados à produção de calor, ao armazenamento de gordura e à percepção da luz. Essas características podem ajudar a enfrentar o frio extremo, a variação sazonal na duração dos dias e o brilho refletido pelo gelo. Já a espécie oriental mostrou sinais relacionados ao metabolismo de carboidratos e ao desempenho durante o mergulho, incluindo transporte de oxigênio, funcionamento dos vasos sanguíneos e atividade das mitocôndrias.
Na linhagem sul-americana, apareceram genes ligados à digestão, à contração do coração e à atividade muscular. Os autores interpretam esse conjunto como uma possível adaptação ao esforço prolongado durante a procura de alimento debaixo d’água. São associações genéticas, não provas de que cada gene isoladamente determine o comportamento das aves.
O risco para as ilhas pode ser maior que o da Antártica
Os modelos climáticos usados na pesquisa indicam que, em um cenário moderado de mudança do clima, as espécies gentoo que vivem em ilhas subantárticas podem perder áreas adequadas em todos os arquipélagos onde atualmente ocorrem. Em vários casos, não haveria ilhas próximas com condições capazes de substituir o habitat perdido.
Essa vulnerabilidade está ligada à geografia. Uma população continental pode acompanhar mudanças ambientais deslocando-se para novas áreas. Um grupo restrito a uma ilha tem menos alternativas, especialmente quando a mudança atinge simultaneamente a temperatura da água, a disponibilidade de presas e os locais de reprodução.
O problema não se limita ao clima. Pesca comercial, captura acidental em redes, predadores introduzidos como ratos e cães, destruição de habitat e alterações nas cadeias alimentares também pressionam pinguins. A queda de populações de krill, associada à transformação do ambiente marinho e do gelo, pode atingir com mais força espécies que dependem desse recurso.
Por que a descoberta interessa à Amazônia
Não há pinguins vivendo na Amazônia, mas a pesquisa traz uma lição diretamente relacionada à conservação de espécies brasileiras: populações que parecem iguais podem esconder diferenças evolutivas importantes. No Brasil, essa distinção também influencia decisões sobre áreas protegidas, conectividade de habitats e prioridade de manejo para grupos isolados.
O estudo reúne pesquisadores de vários países, incluindo o Brasil, e mostra como a genômica pode ser usada além da classificação de espécies. A mesma base de dados já está sendo aplicada para investigar diferenças associadas à resistência ou à vulnerabilidade à gripe aviária, doença que afeta aves e mamíferos em diferentes regiões do mundo.
Para estados amazônicos como Acre, Amapá, Amazonas, Maranhão, Mato Grosso, Pará, Rondônia, Roraima e Tocantins, o princípio é semelhante: conhecer a diversidade genética pode revelar populações únicas antes que alterações ambientais, doenças ou perda de habitat reduzam sua capacidade de sobreviver. A genética não substitui a proteção dos ambientes, mas ajuda a indicar quais grupos podem precisar de medidas mais urgentes.
O que ainda precisa ser acompanhado
A identificação formal de Pygoscelis kerguelensis não significa que a espécie esteja imediatamente condenada. As projeções para 2050 são cenários baseados em modelos climáticos, e o impacto real dependerá da velocidade do aquecimento, da resposta das presas e da capacidade de proteção das colônias.
O próximo passo é transformar a nova classificação em ação de conservação coordenada entre os países que administram áreas subantárticas, como Chile, França, Austrália, Nova Zelândia, África do Sul e Países Baixos. Monitoramento genético, proteção das colônias e redução de impactos da pesca serão fundamentais para acompanhar o destino das quatro espécies gentoo.
Com informações da Universidade da Califórnia em Berkeley.
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