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Conhecimento ecológico local de caçadores e povos amazônicos se mostra…

Câmeras-trampa registram 1.115 detecções do cão-de-orelhas-curtas e mostram que o animal antes considerado fantasma é mais comum em florestas intactas e territórios indígenas da Amazônia

Por décadas, o cão-de-orelhas-curtas (Atelocynus microtis) foi tratado como um fantasma da floresta. Relatos eram raros, fotos ainda mais. Um estudo recente baseado em mais de 40 mil dias-câmera em estações da Amazônia peruana e boliviana (com extensão de dados brasileiros) registrou 1.115 detecções da espécie e apenas 11 do cão-do-mato-vinagre (Speothos venaticus). O resultado muda a percepção: o cão-de-orelhas-curtas é mais comum do que se pensava, especialmente em florestas de terra firme intactas e em áreas que se sobrepõem a territórios indígenas.

A densidade estimada em alguns sítios chegou a cerca de 15 indivíduos por 100 km². O animal é predominantemente diurno, tem dieta que inclui serpentes e pequenos vertebrados, e parece depender de florestas contínuas e pouco perturbadas.

O “cão-fantasma” revelado pelas câmeras

Até pouco tempo atrás, a espécie era conhecida principalmente por peles e relatos anedóticos. A intensificação do uso de câmeras-trampa em inventários rápidos e em monitoramento de longo prazo mudou o quadro. Em áreas de floresta primária com baixa pressão humana, as detecções se tornaram frequentes. Em paisagens fragmentadas ou próximas a assentamentos, o animal quase desaparece dos registros.

A sobreposição com territórios indígenas é notável. Muitas das estações com maior número de registros estão dentro ou adjacentes a terras indígenas e áreas protegidas onde o desmatamento é menor e a caça de grandes mamíferos é regulada por regras locais.

Ecologia e importância

O cão-de-orelhas-curtas é o único canídeo sul-americano verdadeiramente florestal. Sua presença indica integridade do sub-bosque e da cadeia de predadores e presas. A dieta baseada em serpentes e pequenos vertebrados sugere um papel ecológico específico, ainda pouco estudado.

No Brasil, a espécie ocorre em vários estados amazônicos, mas dados de densidade ainda são escassos. Os resultados da região peruana-boliviana servem de referência e reforçam a necessidade de monitoramento em terras indígenas brasileiras, onde as condições de habitat são semelhantes.

Implicações para a conservação no Brasil

A descoberta de que o animal é mais comum em florestas intactas e TIs fortalece o argumento de que a proteção de grandes blocos de floresta e o reconhecimento de territórios indígenas são estratégias eficazes para a conservação de espécies elusivas. Planos de manejo e inventários em TIs devem incluir o cão-de-orelhas-curtas como indicador de qualidade ambiental.

A espécie continua ameaçada por perda de habitat e, em menor escala, por caça incidental e doenças transmitidas por cães domésticos. Manter a integridade das florestas em territórios indígenas é a melhor garantia de sua persistência.

Conclusão

O cão que era fantasma se revelou presente e relativamente abundante onde a floresta permanece em pé. As 1.115 detecções registradas por câmeras-trampa mostram que a Amazônia ainda guarda surpresas sobre suas espécies mais discretas. No Brasil, proteger as terras indígenas e as florestas contínuas é proteger também esse canídeo único e o ecossistema que o sustenta.

Fonte: Estudos de Mammal Research e WCS com dados de câmeras-trampa na Amazônia ocidental (2024-2026), consolidando registros de Atelocynus microtis e comparação com Speothos venaticus.

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