Dodô extinto há mais de 360 anos pode voltar? Empresa já cultivou células de pombo que levariam ao 'novo dodô', mas cientistas questionam

Dodô extinto há mais de 360 anos pode voltar? Empresa já cultivou células de pombo que levariam ao 'novo dodô', mas cientistas questionam
Foto: BazzaDaRambler/Wikimedia Commons (CC BY 2.0). Reconstituição do dodô exposta no Museu de História Natural da Universidade de Oxford.

O dodô, ave que vivia apenas na ilha Maurício, no oceano Índico, e foi extinto no século 17, está no centro de um projeto de “desextinção”. A empresa americana Colossal Biosciences anunciou ter cultivado, pela primeira vez, células germinativas primordiais de pombo, as células que dão origem a óvulos e espermatozoides. É um passo técnico necessário para tentar criar uma ave semelhante ao dodô. Cientistas lembram, porém, que o resultado não seria o dodô original, mas um animal parecido, editado geneticamente.

Quem era o dodô

O dodô (Raphus cucullatus) era uma ave grande, que não voava, parente dos pombos. Vivia sem predadores naturais em Maurício até a chegada dos navegadores europeus, no fim do século 16. Caçado e ameaçado por animais trazidos pelos humanos, como ratos, porcos e macacos, que comiam seus ovos, desapareceu em poucas décadas. O último registro confiável é do século 17, há mais de 360 anos. Virou símbolo mundial de extinção causada pelo ser humano.

O que a empresa diz ter feito

Segundo a Colossal, a equipe conseguiu manter culturas de células germinativas de pombo vivas por mais de dois meses, dobrando de número a cada 35 horas, depois de testar mais de 300 combinações de substâncias de crescimento. Até então, esse tipo de cultura só tinha sido feito com galinhas e gansos.

O plano da empresa tem várias etapas:

  • usar como base o pombo-de-nicobar, o parente vivo mais próximo do dodô, do qual a Colossal mantém uma colônia de reprodução nos Estados Unidos;
  • editar o DNA dessas células para aproximá-lo do genoma do dodô, reconstruído a partir de material de museus;
  • usar galinhas modificadas, sem células reprodutivas próprias, como “barrigas de aluguel” que botariam ovos com as células editadas.

A empresa fala em um prazo de cinco a sete anos para ver uma ave semelhante ao dodô, previsão que depende de etapas ainda não demonstradas.

As críticas

Pesquisadores e organizações de conservação apontam limites. Pelas diretrizes da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN), o que se obtém nesses projetos é um “substituto” da espécie extinta, um animal com algumas características dela, não a espécie em si. O comportamento, aprendido em grupo e com os pais, também não pode ser recriado em laboratório.

Há ainda a questão do lugar. Maurício mudou muito desde o século 17, e as ameaças que acabaram com o dodô, como os animais invasores, continuam lá. Críticos também argumentam que o dinheiro poderia ser usado para salvar espécies que ainda existem.

A empresa responde que as tecnologias desenvolvidas, como a cultura de células de aves, podem ajudar também espécies ameaçadas, por exemplo para ampliar a diversidade genética de populações pequenas.

Uma empresa de desextinção

A Colossal ficou conhecida por projetos semelhantes com o mamute-lanoso e o tigre-da-tasmânia. Em 2025, anunciou nova rodada de investimento que elevou o valor de mercado da empresa a mais de 10 bilhões de dólares, segundo a própria companhia.

Perguntas frequentes

O dodô vai voltar a existir?

Não exatamente. Se o projeto der certo, nascerá uma ave editada geneticamente com características do dodô, não o dodô original.

Quando o dodô foi extinto?

No século 17, poucas décadas depois da chegada dos europeus à ilha Maurício.

Qual é o parente vivo mais próximo do dodô?

O pombo-de-nicobar, ave do Sudeste Asiático e de ilhas do Pacífico.

Quanto tempo levaria?

A empresa fala em cinco a sete anos, mas não há garantia de que todas as etapas funcionem.

Com informações da Colossal Biosciences e das diretrizes da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN) sobre a criação de substitutos de espécies extintas.

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