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El Niño de 2024 expôs 38% das localidades habitadas da Amazônia à seca, enquanto novo episódio já está em curso

El Niño de 2024 expôs 38% das localidades habitadas da Amazônia à seca, enquanto novo episódio já está em curso
Ilustração: IA

Entre setembro e novembro, a região registrou menos chuva, mais calor e 1,9 milhão de hectares de água abaixo da média histórica.

Seca alcançou localidades habitadas em toda a Amazônia

Entre setembro e novembro de 2024, a paisagem amazônica registrou uma combinação de pouca chuva, calor acima do observado e redução expressiva da superfície de água. O levantamento do MapBiomas identificou 2.172 localidades habitadas sob alta exposição aos efeitos da seca associada ao El Niño. O número corresponde a 38% das 5.673 localidades analisadas na Amazônia. A exposição não representa apenas um fenômeno distante em áreas de floresta ou rios isolados. Ela alcançou lugares onde vivem pessoas e onde a presença de água organiza deslocamentos, abastecimento, pesca e outras atividades cotidianas.

O quadro climático foi medido com três indicadores principais. A chuva ficou 27% abaixo da média, a temperatura ficou 2,6 °C acima do observado e a superfície de água terminou 1,9 milhão de hectares abaixo da média histórica. A combinação ajuda a dimensionar a intensidade daquele período seco sem transformar um único indicador em explicação completa. Menos precipitação reduz a reposição de rios, lagos e igarapés, enquanto o calor aumenta a perda de água por evaporação. Em uma região marcada por grandes distâncias e pela dependência dos cursos d’água, a alteração simultânea desses elementos amplia a área sujeita a dificuldades de circulação e acesso.

Quase todas as localidades estavam perto de áreas com menos água

O dado mais amplo do levantamento aparece na relação entre as localidades habitadas e as áreas onde a água diminuiu. Das 5.673 localidades avaliadas, 5.273, ou 93%, estavam a menos de cinco quilômetros de regiões com redução da superfície de água. A medida não significa que todos esses lugares tenham enfrentado o mesmo grau de impacto, mas mostra a proximidade espacial entre a ocupação humana e a retração observada em rios, lagos e outros ambientes aquáticos. A distância curta também revela por que imagens de satélite e bases territoriais são importantes para acompanhar a seca além dos pontos de medição convencionais.

Na Amazônia, a água funciona como infraestrutura natural. Muitos trajetos são definidos por rios, e a variação do nível altera o acesso a comunidades, escolas, unidades de saúde, mercados e áreas de trabalho. Quando a superfície aquática recua, embarcações podem encontrar trechos mais difíceis, e distâncias que antes eram percorridas diretamente podem exigir mais tempo ou mudanças de rota. Esses efeitos dependem da localização e da intensidade da redução, por isso não podem ser tratados como iguais em toda a região. O que o levantamento permite afirmar é que a proximidade entre áreas habitadas e pontos de diminuição da água foi muito elevada durante a seca analisada.

O calor e a falta de chuva atuaram no mesmo período

O El Niño é um fenômeno climático associado ao aquecimento anormal das águas do Pacífico equatorial, capaz de modificar padrões de circulação atmosférica e distribuição de chuvas em diferentes regiões. Na Amazônia, seus efeitos não aparecem de forma idêntica em todos os municípios ou localidades, porque a resposta depende da estação, da posição geográfica, da rede de rios e das condições anteriores do solo e da vegetação. Ainda assim, os números de 2024 registraram uma combinação concreta: precipitação 27% menor e temperatura 2,6 °C maior durante o período de setembro a novembro.

A vegetação também participa desse equilíbrio. As plantas retiram água do solo e a liberam para a atmosfera por meio da transpiração, processo que contribui para a circulação de umidade. Em períodos mais quentes e secos, a disponibilidade de água para o solo e para as plantas pode diminuir, enquanto a demanda atmosférica aumenta. O levantamento também aponta que, ao longo de 41 anos, a Amazônia perdeu 3,9 milhões de hectares de vegetação nativa. Esse dado descreve uma mudança acumulada na cobertura do território, mas não permite atribuir toda essa perda ao El Niño de 2024. São escalas diferentes, que precisam ser analisadas separadamente.

Novo El Niño está configurado desde junho de 2026

O episódio de 2024 não encerrou a atenção sobre o clima amazônico. Segundo o painel de El Niño do Instituto Nacional de Meteorologia, um novo El Niño está configurado desde junho de 2026, com previsão de duração até o início de 2027. A existência do fenômeno não determina, sozinha, o nível de seca que cada localidade enfrentará. O resultado depende da interação entre o padrão climático, a estação do ano, as condições dos rios e a cobertura do solo. Por isso, o acompanhamento precisa combinar previsões, observação de chuva, temperatura, superfície de água e situação das comunidades.

O levantamento divulgado pela Agência Brasil em 4 de setembro de 2026 reúne dados das coleções do MapBiomas, do IBGE e do painel do Inmet. A principal consequência revelada pelo conjunto é territorial: em 2024, a exposição elevada alcançou mais de dois mil lugares habitados, enquanto a redução da água ficou próxima de praticamente todas as localidades analisadas. A floresta não é apenas uma área verde vista de cima, mas uma rede de rios, solos, plantas e pessoas que responde às mudanças em ritmos diferentes. Quando uma seca se repete em um território já transformado, cada quilômetro de água preservada passa a ter um valor que é climático e também humano.

Com informações da Agência Brasil.

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