
O mercúrio é um metal que desafia a química elementar: em temperatura ambiente é líquido, brilhante e denso, com uma toxicidade silenciosa. Na Amazônia, esse elemento (número atômico 80, símbolo Hg) tornou-se protagonista de uma das piores crises sanitárias enfrentadas por povos indígenas yanomami, que bebem água e comem peixes contaminados pela atividade de garimpo ilegal.
Do latim hydrargyrum ao termômetro
O nome “mercúrio” vem do deus romano Mercúrio, mensageiro dos deuses, talvez porque o metal líquido flui rapidamente. Mais interessante ainda é seu símbolo Hg, derivado do latim hydrargyrum, que significa “água-prata”. Conhecido desde a Antiguidade, o mercúrio foi usado em espelhos, barômetros, termômetros, amalgamadores de ouro e até em procedimentos médicos questionáveis do século XIX.
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Revista Amazônia lança Tabela Periódica da Amazônia, glossário interativo dos 118 elementos químicos e sua conexão com a maior floresta do planetaA história conhecia bem este metal pertencente ao grupo dos metais de transição, com massa atômica de 200,6 unidades. Sua característica mais peculiar é permanecer líquido em temperatura ambiente, propriedade única entre os metais. Essa fluidez o tornava fascinante para cientistas renascentistas, mas também perigoso: vapores de mercúrio são extremamente tóxicos, afetando o sistema nervoso central de qualquer ser vivo exposto.
Como o mercúrio chega aos rios amazônicos
Na Amazônia contemporânea, o mercúrio não vem de laboratórios ou indústrias legítimas. Vem de minas clandestinas. Garimpeiros injetam o metal em sedimentos para capturar ouro através da formação de amálgama, uma liga mercúrio-ouro que facilita a separação do ouro da areia e da rocha. Quando aquecido em fornos artesanais, esse amálgama libera vapor de mercúrio, que se dispersa na atmosfera.
O ciclo não termina aí. O mercúrio que não sobe em vapor permanece nos solos e migra para rios. Microrganismos aquáticos transformam o mercúrio inorgânico em metilmercúrio, uma forma altamente tóxica que se acumula nos tecidos dos peixes. Pequenos peixes são comidos por peixes maiores. Peixes maiores são comidos pelos yanomami. A concentração de mercúrio aumenta a cada nível trófico, num processo chamado bioconcentração.
A crise sanitária dos Yanomami
Os yanomami vivem em terras indígenas no extremo norte da Amazônia, regiões que se tornaram alvo intenso de garimpo ilegal. Estudos e levantamentos realizados por instituições como a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e órgãos de saúde federais documentaram a presença de mercúrio em níveis elevados em peixes da região, assim como em amostras de cabelo de mulheres e crianças yanomami.
A exposição crônica a mercúrio causa danos neurológicos irreversíveis em crianças em desenvolvimento, afetando aprendizado, memória, linguagem e coordenação motora. Em adultos, os sintomas incluem tremores, alterações de personalidade, perda de visão periférica e falha renal. Mulheres grávidas expostas a mercúrio metilado transmitem o metal ao feto através da placenta e ao bebê através do leite materno, perpetuando o ciclo de contaminação.
A crise yanomami não é apenas química ou biológica. É territorial. Garimpeiros invadem terras indígenas demarcadas, destroem a floresta, envenenam rios que são simultaneamente fonte de água e alimento. Os yanomami não escolhem ser expostos ao mercúrio. O mercúrio chega até eles.
O que isso significa para a Amazônia
O caso yanomami não é isolado. Comunidades munduruku ao longo do Tapajós enfrentam situação similar. Ribeirinhos de diversas etnias pelo Rio Negro convivem com a ameaça silenciosa do metal. A toxicidade do mercúrio não respeita fronteiras municipais ou estaduais: o Rio Negro drena territórios de Roraima e Amazonas, levando contaminação para populações a centenas de quilômetros de distância do garimpo.
Do ponto de vista ambiental, a presença de mercúrio em peixes amazônicos representa um colapso da cadeia alimentar. Esses peixes não têm defesa química contra o metal. Acumulam o que o ambiente oferece. E porque o ciclo hidrológico amazônico é complexo e lento em alguns trechos, o mercúrio tende a se acumular ao invés de ser diluído rapidamente.
Antes de ser vilão, o mercúrio era ferramenta científica. Termômetros com bulbo de mercúrio foram padrão em hospitais e lares por dois séculos. Espelhos refletores de telescópios usavam mercúrio. A Convenção de Minamata, tratado internacional sobre o uso do metal, restringiu seu uso em produtos como termômetros, barômetros e lâmpadas fluorescentes. Irônico: deixou de ser legal em termômetros, mas segue fluindo clandestinamente nos garimpos amazônicos.
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