
Levantamento mostra que 13,6 milhões de hectares ocupados ficam no entorno de unidades protegidas, Terras Indígenas e quilombolas.
A maior parte da agropecuária instalada na Amazônia está a poucos quilômetros de alguma via de acesso. Em 2025, 63 milhões de hectares ocupados pela atividade ficavam a até 5 quilômetros de estradas ou caminhos, o equivalente a mais de 96% de toda a área agropecuária registrada no bioma, segundo levantamento do MapBiomas divulgado em 14 de outubro de 2026.
O dado ajuda a explicar por que a abertura e a expansão de vias são acompanhadas de perto por pesquisadores e órgãos de fiscalização. A conexão terrestre facilita a chegada a áreas antes isoladas e pode acelerar a conversão da vegetação nativa para pastagens, lavouras, mineração e outras atividades econômicas.
Onde a ocupação se concentra
O estudo analisou 157 milhões de hectares localizados em uma faixa de até 5 quilômetros das vias mapeadas. Desse total, 40,2% já eram usados pela agropecuária em 2025. Fora dessa faixa, a participação da atividade caiu para 26,7%.
Segundo o MapBiomas, a análise considerou 618 mil quilômetros de vias na Amazônia. A conta inclui rodovias oficiais e caminhos identificados em bases do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes, o DNIT, e do OpenStreetMap.
Essa metodologia amplia o retrato da ocupação porque não se limita à malha rodoviária reconhecida pelo poder público. Ramais, estradas locais e acessos não incluídos nos registros oficiais também entram na avaliação da relação entre mobilidade e mudança no uso da terra.
Áreas protegidas também sentem a pressão
A agropecuária ocupava 65,2 milhões de hectares na Amazônia em 2025. Desse total, 13,6 milhões de hectares estavam em áreas próximas a Unidades de Conservação, Terras Indígenas e territórios quilombolas. A parcela corresponde a 30,5% do conjunto analisado no entorno desses territórios protegidos.
Em 41 anos, a área agropecuária no entorno das áreas protegidas cresceu 561%. O avanço não significa que toda essa extensão esteja dentro dos limites legais dos territórios, mas mostra a pressão exercida nas zonas vizinhas, onde a ocupação pode afetar a proteção da vegetação e a segurança territorial das comunidades.
Segundo o MapBiomas, os locais mais próximos das vias são justamente os que apresentam maior presença de atividades agropecuárias. Nas áreas protegidas e em seu entorno, a vegetação nativa chega a representar 98% da cobertura, o que torna a conversão de pequenos trechos relevante para a conectividade dos ecossistemas.
Como as estradas mudam o território
O pesquisador do Imazon Bruno Ferreira, integrante da equipe do MapBiomas Amazônia, afirma que as estradas funcionam como portas de entrada para novas ocupações. “As estradas facilitam o acesso a áreas de vegetação nativa, favorecendo processos de ocupação e conversão da terra. No entorno e no interior das áreas protegidas, essa pressão pode se refletir na expansão da agropecuária, da mineração e de outras atividades que modificam a cobertura e o uso da terra”, alerta.
Na prática, uma via pode reduzir o tempo e o custo de chegada a uma área remota. A partir dela, surgem acessos secundários, propriedades, áreas de pastagem e lavouras. Esse processo fragmenta a paisagem e aumenta a exposição de florestas, rios e territórios tradicionais a atividades que antes enfrentavam barreiras de acesso.
Segundo o MapBiomas, em 2025 a agropecuária ocupava 65,2 milhões de hectares na Amazônia e 13,6 milhões de hectares estavam no entorno de áreas protegidas. Esses números mostram que a pressão não se distribui de forma uniforme pelo bioma: ela se concentra perto da infraestrutura que permite o deslocamento de pessoas, máquinas e produtos.
Pastagens dominam a área ocupada
Do total ocupado pela agropecuária, 50,8 milhões de hectares eram pastagens usadas pela pecuária. A área equivale a 12% do território amazônico. A agricultura respondia por 8,6 milhões de hectares, ou 2% do bioma.
Considerando todas as formas de agropecuária, a atividade fechou 2025 em 15,5% da Amazônia. A diferença entre as categorias mostra o peso da pecuária na transformação territorial: as pastagens ocupam uma extensão quase seis vezes maior que as áreas agrícolas.
A mineração, embora tenha uma área muito menor, também ampliou sua presença. Em 1985, ocupava 32 mil hectares. Em 2025, chegou a 440 mil hectares, uma área 14 vezes maior ao longo de 41 anos.
Desmatamento recua, mas perda histórica permanece
O recorte mais recente do MapBiomas registrou 693 mil hectares desmatados na Amazônia em 2025, o menor valor da série histórica apresentada no estudo. A redução anual, porém, convive com uma perda acumulada de grande escala.
Entre 1985 e 2025, o bioma perdeu 54,7 milhões de hectares de vegetação nativa. Somado ao território que já havia sido transformado antes do início da série, o total de áreas antropizadas chegou a 74,6 milhões de hectares.
A maior parte do desmatamento de 2025 ocorreu em vegetação primária, com 639 mil hectares. Outros 54 mil hectares foram registrados em vegetação secundária, formada por áreas que já sofreram intervenção, mas ainda conservam capacidade de regeneração natural.
Em quatro décadas, a formação florestal foi o tipo de vegetação mais afetado. A perda chegou a 49,7 milhões de hectares, o equivalente a 14,8% dessa formação.
O que o resultado significa para a Amazônia
O padrão identificado alcança a realidade dos estados que integram o bioma amazônico, incluindo Acre, Amapá, Amazonas, Maranhão, Mato Grosso, Pará, Rondônia, Roraima e Tocantins. O estudo não apresenta, neste recorte, uma divisão estadual dos resultados, mas evidencia uma dinâmica comum: a pressão aumenta onde a infraestrutura aproxima áreas produtivas de florestas e territórios protegidos.
Para comunidades indígenas, quilombolas e moradores rurais, a expansão de acessos pode alterar a circulação, a disponibilidade de recursos naturais e a proteção contra invasões. Para a gestão pública, os dados indicam que monitorar apenas o desmatamento já consolidado não basta. Também é necessário acompanhar as vias que podem antecipar novas frentes de ocupação.
O próximo passo é usar as informações de cobertura da terra combinadas com os mapas de estradas para orientar fiscalização, planejamento territorial e proteção das áreas preservadas. Essa integração será decisiva para saber se a queda do desmatamento anual se mantém sem uma nova expansão da ocupação nas bordas da floresta.
Com informações de MapBiomas.
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