Estudo avalia 625 pesticidas em 201 países e aponta aumento da toxicidade para seis grupos de espécies, com Brasil entre os mais expostos

Estudo avalia 625 pesticidas em 201 países e aponta aumento da toxicidade para seis grupos de espécies, com Brasil entre os mais expostos
Ilustração: Revista Amazônia

Indicador que combina volume aplicado e toxicidade mostra alta anual para artrópodes, organismos do solo, peixes, polinizadores e plantas

Seis grupos de espécies enfrentam aumento anual da toxicidade

Insetos, aranhas, lacraias, organismos do solo, peixes, invertebrados aquáticos, polinizadores e plantas terrestres aparecem no mesmo diagnóstico global. Um estudo conduzido por pesquisadores da Universidade de Kaiserslautern-Landau, na Alemanha, avaliou 625 pesticidas utilizados em 201 países e identificou aumento da Toxicidade Total Aplicada, conhecida pela sigla TAT, para seis dos oito grupos analisados. Entre os artrópodes terrestres, a alta média foi de 6,4% ao ano. Nos organismos do solo, chegou a 4,6%; nos peixes, a 4,4%; nos invertebrados aquáticos, a 2,9%; nos polinizadores, a 2,3%; e nas plantas terrestres, a 1,9% ao ano.

O indicador usado pelos pesquisadores não considera apenas quanto de cada produto é aplicado. Ele combina o volume utilizado com o grau de toxicidade atribuído a cada substância, permitindo acompanhar a pressão total sobre diferentes grupos de espécies. O TAT diminuiu para plantas aquáticas, com queda anual de 1,7%, e para vertebrados terrestres, com redução de 0,5%. Os seres humanos fazem parte desse último grupo, mas essa queda do indicador não equivale, por si só, a uma avaliação completa dos riscos à saúde humana. O estudo trata de tendências agregadas de toxicidade aplicada, e não de um diagnóstico individual para cada pessoa, propriedade rural ou produto comercial.

O Brasil aparece entre os países de maior intensidade por área

O mapa elaborado no estudo coloca o Brasil entre os países com uma das maiores intensidades de toxicidade por área agrícola. China, Argentina, Estados Unidos e Ucrânia também aparecem nesse grupo. A posição brasileira está relacionada ao peso do agronegócio e à extensão de culturas agrícolas, especialmente aquelas produzidas em grandes áreas. Soja, algodão e milho têm uma contribuição associada à toxicidade que supera seu peso relativo quando comparada à extensão ocupada por cereais tradicionais e frutas.

Brasil, China, Estados Unidos e Índia concentram juntos entre 53% e 68% da toxicidade total aplicada no mundo, conforme o grupo de organismos considerado. Essa concentração não significa que todos os produtos sejam usados da mesma maneira em cada país, mas mostra o peso de poucos grandes produtores no resultado global. O levantamento também aponta que o problema pode ser focalizado: em média, apenas 20 pesticidas por país respondem por mais de 90% da TAT nacional. A informação cria um caminho objetivo para políticas de redução de risco, porque indica que mudanças em um conjunto restrito de substâncias podem alterar uma parcela elevada do indicador.

Classes químicas diferentes dominam os impactos

Os resultados também mostram que a toxicidade não se distribui de modo uniforme entre as classes químicas. Piretroides e organofosforados, dois grupos de inseticidas, contribuíram com mais de 80% da TAT calculada para invertebrados aquáticos, peixes e artrópodes terrestres. Para os polinizadores, neonicotinoides, organofosforados e lactonas representaram mais de 80% do indicador. A composição muda conforme o grupo observado, porque cada conjunto de organismos responde de maneira diferente às substâncias utilizadas nas lavouras.

Nos vertebrados terrestres, os organofosforados, junto a outras classes de inseticidas, foram os principais componentes da TAT. Para as plantas aquáticas, herbicidas das classes acetamida e bipiridil responderam por mais de 80% do indicador. Nas plantas terrestres, a composição foi mais ampla e incluiu acetamida, sulfonilureia e outras classes de herbicidas. Acetocloro, paraquat e glifosato estão entre os herbicidas de alto volume associados a essas classes e já foram relacionados a riscos ambientais e à saúde humana. Nos organismos do solo, conazóis e benzimidazóis, além de neonicotinoides aplicados no revestimento de sementes, contribuíram principalmente para o resultado.

Meta da ONU até 2030 depende de mudanças estruturais

O estudo também examinou a trajetória de 65 países em relação à meta da Organização das Nações Unidas de reduzir pela metade a toxicidade dos pesticidas até 2030. A projeção apresentada indica que, sem mudanças estruturais, apenas o Chile alcançará esse objetivo. O resultado não significa que todos os países tenham a mesma distância em relação à meta, nem que uma única medida possa produzir o mesmo efeito em diferentes sistemas agrícolas. A avaliação depende da combinação entre substância, quantidade aplicada, cultura e grupo de organismos afetado.

O principal alerta está na diferença entre reduzir o volume de produtos e reduzir o risco associado a eles. Se substâncias mais tóxicas continuarem respondendo por uma parcela elevada do TAT, a diminuição da quantidade total aplicada pode não produzir queda equivalente na toxicidade. Do mesmo modo, o indicador global reúne tendências de 201 países e não substitui avaliações locais sobre água, solo, fauna, alimentos ou exposição ocupacional. Ainda assim, a concentração dos impactos em poucos pesticidas oferece um ponto de ação mensurável. Divulgado em 22 de fevereiro de 2026, o estudo transforma uma pressão espalhada pela paisagem em uma sequência de alvos identificáveis, aproximando a discussão internacional das escolhas feitas em cada área cultivada.

Com informações da Agência Brasil.

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