Estudo calcula 18 mil gigatoneladas de gelo derretido e mostra que o degelo acelerado nas calotas pode alterar o clima brasileiro

Estudo calcula 18 mil gigatoneladas de gelo derretido e mostra que o degelo acelerado nas calotas pode alterar o clima brasileiro
Ilustração: Revista Amazônia

Registros desde 1976 indicam perda concentrada na Antártica e na Groenlândia, com impactos no nível do mar, nos oceanos e no Brasil.

As geleiras estão se transformando em água em um ritmo que já mudou a escala do problema climático. Desde 1976, a perda acumulada das geleiras do mundo equivale a cerca de 9 mil quilômetros cúbicos de água. A maior parte desse volume recente saiu da Antártica e da Groenlândia, onde a perda chegou a 8 mil gigatoneladas desde 2002.

Os números fazem parte do estudo que reúne registros do World Glacier Monitoring Service, o WGMS, e do Projeto Carbmet, do Programa Antártico Brasileiro, o Proantar. A análise foi publicada em 26 de fevereiro, e o alerta foi reforçado em 2 de março pelo biólogo Ronaldo Christofoletti, professor da Universidade Federal de São Paulo e integrante do projeto de comunicação ComAntar. A entrevista à Agência Brasil ocorreu por telefone, a partir da Antártida.

O gelo perdido em poucas décadas ganhou outra escala

Uma gigatonelada corresponde a 1 trilhão de quilogramas. Considerando o volume total apontado no levantamento, o gelo perdido desde 1976 alcança aproximadamente 18 mil gigatoneladas, uma massa equivalente a 18 mil vezes a população mundial atual. A comparação ajuda a dimensionar a quantidade de água que deixou de permanecer armazenada nas geleiras e passou a integrar o sistema oceânico.

O estudo também apresenta uma referência amazônica para o volume acumulado. Os cerca de 9 mil quilômetros cúbicos de água associados à perda das geleiras equivalem a um volume semelhante ao despejado pelo Rio Amazonas no Oceano Atlântico ao longo de 470 dias. Não se trata de uma transferência ocorrida de uma só vez, mas de uma comparação entre volumes que torna visível a dimensão do processo acumulado.

Antártica e Groenlândia concentram a aceleração observada

Em pouco mais de duas décadas, a perda registrada na Antártica e na Groenlândia alcançou cerca de 8 mil gigatoneladas. Esse total corresponde ao que as geleiras de todo o mundo perderam em quase 50 anos, segundo os dados reunidos no estudo. A diferença entre os períodos sinaliza uma aceleração do degelo nas grandes reservas de gelo polar, sem significar que toda região ou toda geleira responda exatamente da mesma maneira.

Para Christofoletti, chuva extrema, calor extremo, queimadas mais frequentes e extensas e degelo acelerado são sintomas de uma mesma mudança na dinâmica do planeta, relacionada ao aquecimento global. O pesquisador associa a aceleração aos recordes de temperatura registrados nos últimos anos. 2023, 2024 e 2025 estão entre os anos mais quentes da história, segundo a informação apresentada na entrevista.

Mais água doce chega ao oceano e afeta sua circulação

A consequência direta do derretimento é a entrada de água doce no oceano, contribuindo para o aumento do nível do mar. A água das geleiras também dilui a concentração de sal na superfície marinha. Essa alteração pode enfraquecer correntes que transportam água fria da Antártica para regiões tropicais, com efeitos sobre o clima em diferentes partes do planeta.

O processo não deve ser entendido como um único evento isolado, mas como uma sequência ligada ao aquecimento global, à perda de gelo, à mudança na salinidade e à circulação oceânica. Os registros do WGMS e do Proantar fornecem a base para acompanhar a perda acumulada, enquanto as consequências locais dependem da interação entre oceanos, atmosfera, relevo e áreas costeiras. A evidência central é a tendência observada nos dados, não uma previsão de que todos os lugares sofrerão o mesmo impacto no mesmo momento.

O Brasil está distante do gelo, mas ligado às correntes

A distância geográfica não impede que o Brasil participe desse sistema. Alterações na circulação oceânica antártica influenciam a formação de massas de água profundas, responsáveis por distribuir calor pelo planeta. Segundo Christofoletti, essas mudanças podem repercutir no Atlântico Sul e afetar padrões de chuva, frentes frias e eventos extremos no Brasil.

O avanço do nível do mar também exige adaptação das cidades costeiras, com atenção à orla e à erosão costeira. A mudança significa que áreas atualmente ocupadas por terra podem, ao longo do processo, ser tomadas pelo mar. A resposta defendida pelo pesquisador inclui educação sobre o oceano, como a proposta do Currículo Azul, do governo federal, que leva esse conhecimento para dentro das escolas. O gelo polar, observado de longe, passa assim a fazer parte das decisões cotidianas de quem vive no litoral brasileiro.

Com informações da Agência Brasil.

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