Estudo revisa 2.943 pesquisas e mostra que lesão renal surge dois dias após síndrome respiratória grave, com risco até 11 vezes maior na ventilação mecânica

Estudo revisa 2.943 pesquisas e mostra que lesão renal surge dois dias após síndrome respiratória grave, com risco até 11 vezes maior na ventilação mecânica
Ilustração: Revista Amazônia

Revisão coordenada por pesquisadores da FMUSP mostra que pulmões e rins podem entrar em um ciclo de agravamento durante a internação na UTI

Lesão renal aparece poucos dias depois do quadro pulmonar

Em pacientes internados com síndrome do desconforto respiratório agudo, a atenção médica precisa acompanhar dois órgãos ao mesmo tempo. Enquanto os pulmões enfrentam uma inflamação intensa e podem exigir ventilação mecânica, os rins também podem perder rapidamente parte de sua função. Uma revisão publicada no Journal of Critical Care mostra que a lesão renal aguda costuma surgir, em média, dois dias depois do diagnóstico da SDRA. O levantamento aponta ainda que cerca de metade dos pacientes pode desenvolver essa complicação em determinadas situações clínicas, com frequência particularmente alta entre pessoas que tiveram covid-19 grave.

O estudo foi coordenado por Carlos Carvalho e Emmanuel A. Burdmann, professores da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, a FMUSP. Francisco Z. Mattedi assina como primeiro autor. O trabalho analisou a relação entre a síndrome respiratória aguda e a lesão renal aguda em pacientes críticos, examinando não apenas a ocorrência do problema, mas também a maneira como pulmões e rins podem influenciar o funcionamento um do outro durante uma internação de alta complexidade. O resultado desloca o foco de uma avaliação exclusivamente pulmonar para uma observação integrada do organismo.

Pulmão e rim entram em um ciclo de agravamento

A relação descrita pelos pesquisadores é chamada de crosstalk pulmão-rim, expressão usada para indicar uma comunicação entre os órgãos durante situações críticas. A inflamação intensa nos pulmões pode alterar o funcionamento de outros sistemas, enquanto a queda da função renal modifica o equilíbrio do organismo e pode ampliar a sobrecarga enfrentada pelo paciente. Nesse cenário, a lesão não deve ser entendida como um evento necessariamente separado do problema respiratório. Ela pode aparecer como parte de uma sequência clínica que se desenvolve em poucos dias.

A ventilação mecânica também participa desse contexto. O recurso é utilizado para sustentar a respiração de pacientes que não conseguem manter trocas gasosas adequadas, mas o quadro geral de gravidade associado a essa necessidade pode elevar o risco de comprometimento renal. Na revisão, o risco de desenvolvimento de lesão renal chegou a ser até 11 vezes maior entre pacientes sob ventilação mecânica. O dado não significa que o equipamento, isoladamente, provoque a falha dos rins, mas reforça a necessidade de monitorar a função renal enquanto o suporte respiratório é empregado.

Revisão partiu de quase três mil estudos internacionais

Para mapear essa interação, os pesquisadores revisaram 2.943 estudos internacionais publicados até janeiro de 2024. Depois da triagem, 28 trabalhos foram incluídos na síntese final. A diferença entre o número inicial e o conjunto analisado mostra que a revisão reuniu evidências selecionadas segundo critérios definidos pelos autores, em vez de simplesmente somar todos os resultados encontrados. A análise identificou a rapidez com que a lesão renal pode aparecer e também apontou sua associação com desfechos mais graves em pacientes submetidos a cuidados intensivos.

Entre os estudos avaliados, cinco identificaram a lesão renal aguda como fator independente associado ao óbito. Em pacientes com síndrome do desconforto respiratório agudo causada pela covid-19, a taxa de falência renal chegou a 52,6%. Esse percentual ajuda a dimensionar o problema no grupo que enfrentou uma forma grave da doença, mas não deve ser aplicado automaticamente a todos os pacientes com sintomas respiratórios ou a todos os casos de covid-19. A população analisada e a gravidade do quadro são elementos decisivos para interpretar os números.

O que ainda precisa ser acompanhado depois da UTI

Apesar da frequência elevada da complicação, a revisão também encontrou uma lacuna importante no conhecimento sobre a recuperação. Apenas três dos estudos analisados acompanharam a retomada da função renal, e nenhum avaliou o impacto a longo prazo, como a possibilidade de progressão para doença renal crônica depois da alta hospitalar. Também permanece em investigação a eventual necessidade futura de hemodiálise. Por isso, os resultados sustentam a importância do acompanhamento rigoroso durante a fase crítica, mas não permitem prever o destino renal de cada paciente após a internação.

O trabalho integra o Projeto Temático Pós-Covid-19 da FMUSP, que investiga consequências de longo prazo observadas em pacientes atendidos no Hospital das Clínicas durante a crise sanitária. A divulgação ocorreu em 26 de março de 2026, e a pesquisa foi publicada no Journal of Critical Care. O estudo mostra que, na terapia intensiva, observar a respiração sem acompanhar os rins pode deixar parte do quadro clínico fora do campo de visão. A ligação entre os órgãos ainda precisa ser melhor compreendida, mas já indica que a recuperação não termina quando o pulmão começa a responder ao tratamento.

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