
Pesquisa desenvolvida na UFMA mostra como a linguagem usada por mulheres acolhidas pode refletir a violência e participar de processos de reconstrução.
“Eu tenho que me sacrificar por esse casamento” é uma das formas de falar sobre o amor que aparecem no estudo desenvolvido pela linguista Hanna Almeida. Na pesquisa, a frase não é tratada apenas como uma declaração individual, mas como uma pista sobre a maneira pela qual uma mulher interpreta uma relação marcada pela violência doméstica. O trabalho mostra que o amor pode surgir associado à dor, à passividade e ao sacrifício, revelando sentidos construídos dentro das experiências relatadas pelas participantes.
Intitulada Metáforas do amor na fala das mulheres vítimas diretas de violência doméstica, a pesquisa foi realizada no Programa de Pós-Graduação em Letras da Universidade Federal do Maranhão, a UFMA. O estudo foi orientado pela professora Mônica Carneiro e teve coorientação do professor Cássius Chai. Vencedor na categoria Dissertação de Mestrado do Prêmio FAPEMA 2025, realizado em janeiro de 2026, o trabalho foi divulgado em 7 de abril de 2026. A análise parte de relatos de mulheres acolhidas em instituições de atendimento no Brasil.
A linguagem revela como o amor é compreendido
Na Linguística Cognitiva, a metáfora não é vista somente como um recurso usado em poemas ou textos literários. Ela participa da comunicação cotidiana e ajuda as pessoas a organizar pensamentos, emoções e experiências. Quando alguém relaciona “mais” a algo que está para cima ou descreve o sucesso como uma subida, por exemplo, transfere características de um domínio de experiência para outro. Essa associação orienta a forma como determinados conceitos são percebidos e expressos.
Hanna Almeida aplicou essa perspectiva ao modo como mulheres vítimas diretas de violência doméstica falam sobre o amor. A pergunta central era entender o que as metáforas utilizadas revelam sobre a conceptualização de um sentimento considerado universal quando ele aparece em uma relação atravessada pela violência. Em vez de aceitar explicações simplificadas para a permanência em uma relação, como “ficou porque quis” ou “ficou porque ama”, a pesquisa observa os sentidos presentes nas próprias falas. O foco está em compreender como as participantes apreenderam o amor e qualificaram os acontecimentos vividos.
Relatos de duas instituições formaram a base da pesquisa
O estudo tem caráter descritivo-exploratório e utilizou discursos reunidos anteriormente em duas pesquisas acadêmicas. Uma parte veio da tese de Mônica Carneiro, defendida em 2014, que analisou relatos de mulheres acolhidas pela Casa Mirabal, em Porto Alegre. A outra foi extraída da tese de Damacena, de 2021, baseada em relatos de mulheres atendidas na Casa da Mulher Brasileira, em São Luís.
Essas instituições oferecem acolhimento a vítimas de violência doméstica, e os discursos analisados permitiram observar como as participantes davam sentido às relações e aos acontecimentos narrados. Hanna não realizou uma coleta independente para substituir os trabalhos anteriores. A dissertação retomou esse material e o examinou por meio da Teoria da Metáfora Conceptual, proposta por George Lakoff e Mark Johnson em 1980, em diálogo com a metodologia desenvolvida por Zoltán Kövecses em 2020.
Amor, dor e sacrifício aparecem ligados nos discursos
O resultado identificado pela pesquisa é a presença do amor associado à dor em relatos de mulheres que vivenciaram violência doméstica. A emoção também aparece relacionada à ideia de sacrifício, como na formulação de que seria necessário se sacrificar pelo casamento. Nesse enquadramento, o relacionamento pode ser compreendido a partir de uma expectativa de renúncia, resistência ou passividade. A metáfora não cria sozinha a experiência de violência, mas ajuda a expressar como ela é interpretada por quem a viveu.
Segundo a análise, as metáforas podem refletir experiências de violência e também contribuir para sua naturalização quando apresentam sofrimento e renúncia como partes esperadas do amor. Em contextos de acolhimento, porém, a linguagem pode favorecer processos de ruptura e reconstrução subjetiva. A mudança não está em uma palavra isolada, mas na possibilidade de reelaborar os sentidos atribuídos ao relacionamento e aos acontecimentos. Por isso, compreender a fala das vítimas é diferente de responsabilizá-las pela permanência na relação ou reduzir suas decisões a uma suposta escolha simples.
O estudo amplia a leitura sobre a violência doméstica
A pesquisa maranhense não propõe que toda metáfora do amor tenha o mesmo significado nem que uma frase permita explicar sozinha a trajetória de uma mulher. Seu caráter descritivo-exploratório delimita o alcance dos resultados: a análise trabalha com discursos produzidos em pesquisas anteriores e investiga os conteúdos da cognição ativados no contexto desses relatos. A interpretação depende da relação entre linguagem, experiência e situação de fala, e não apenas da presença de uma expressão como “amor” ou “sacrifício”.
A contribuição está em deslocar o olhar de julgamentos rápidos para os mecanismos de construção de sentido. Ao examinar como o amor é descrito por mulheres acolhidas em Porto Alegre e São Luís, o trabalho mostra que a linguagem pode registrar marcas da violência, sustentar compreensões naturalizadas ou participar da reconstrução subjetiva em espaços de acolhimento. A trajetória da pesquisa, iniciada com relatos reunidos em 2014 e 2021, passou pela dissertação premiada no Prêmio FAPEMA 2025 e chegou ao público em 7 de abril de 2026. Escutar essas metáforas é também reconhecer que romper com a violência envolve reconstruir as palavras usadas para nomear a própria vida.
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