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Estudo mostra que proteger florestas em pé pode render mais que restaurar áreas agrícolas

Estudo mostra que proteger florestas em pé pode render mais que restaurar áreas agrícolas
Foto: acervo

Pesquisa em 3 milhões de hectares indica que combater incêndios e exploração seletiva é decisivo para biodiversidade e carbono.

Uma floresta amazônica que ainda está de pé pode ser mais valiosa para a conservação do que uma área agrícola recém-selecionada para restauração. Essa é a principal conclusão de um estudo internacional publicado em 17 de setembro de 2026 na revista Science, após comparar estratégias de proteção e recuperação em mais de 3 milhões de hectares nas regiões de Santarém e Paragominas, no Pará.

A pesquisa não trata a restauração como dispensável. O que os dados mostram é que plantar ou deixar a floresta se regenerar não resolve, sozinho, as perdas de biodiversidade e de carbono quando os remanescentes continuam expostos a incêndios e exploração seletiva. Na prática, a estratégia mais eficiente depende do estado de cada paisagem.

O que foi comparado nas áreas de Santarém e Paragominas

O trabalho analisou mudanças de uso da terra ocorridas entre 2010 e 2020. Os pesquisadores combinaram imagens de satélite de alta resolução com informações coletadas em campo em 381 transectos distribuídos por 38 microbacias e 499 propriedades rurais.

Também foram usados modelos capazes de estimar o valor da paisagem para 160 espécies de aves e 426 espécies de árvores. Entre os exemplos está o chibante-anão, ou Myrmotherula brachyura, uma pequena ave registrada na região de Santarém e associada ao sub-bosque e ao dossel intermediário de florestas tropicais primárias.

Em vez de observar apenas o que ocorreu, a equipe criou cenários contrafactuais. Isso permitiu estimar como estariam a biodiversidade e os estoques de carbono se determinadas medidas tivessem sido adotadas. Os custos de cada intervenção também entraram na comparação, criando uma base comum para avaliar o retorno ambiental dos recursos investidos.

Incêndios e exploração seletiva entram no centro da estratégia

A proteção contra distúrbios florestais apresentou o melhor desempenho para a biodiversidade. Esse grupo inclui ações para evitar incêndios e reduzir danos provocados pela exploração seletiva, mesmo quando a área não foi completamente desmatada.

Para o carbono, impedir o desmatamento continuou sendo fundamental. Ainda assim, evitar distúrbios ficou próximo desse resultado, porque uma floresta degradada pode perder parte importante de sua capacidade de armazenar carbono sem desaparecer por completo do mapa.

Segundo a Lancaster University, o estudo realizado no Pará entre 2010 e 2020 mostrou que evitar distúrbios florestais foi a estratégia com maior benefício para a biodiversidade e quase tão importante quanto impedir o desmatamento para conservar estoques de carbono.

O professor Jos Barlow, da Lancaster University e autor sênior da pesquisa, afirmou que políticas de prevenção e resposta a incêndios precisam receber mais recursos. A preocupação é maior em períodos de El Niño, fenômeno que pode favorecer secas mais longas, quentes e intensas no arco do desmatamento quando combinado às mudanças climáticas.

Por que restaurar, sozinho, não fecha a conta

A restauração produziu ganhos relevantes em propriedades onde a maior parte da floresta original já havia sido perdida. Nessas áreas, recuperar a cobertura vegetal pode ampliar a conectividade entre fragmentos, melhorar o habitat de espécies e aumentar o armazenamento de carbono ao longo do tempo.

Quando considerada em toda a área analisada, porém, a restauração de terras agrícolas foi menos eficiente quando aplicada isoladamente. Também foi a alternativa mais cara entre as estratégias avaliadas. O resultado não significa que a recuperação de áreas degradadas deva ser abandonada, mas que ela precisa caminhar ao lado da proteção dos remanescentes.

Leonardo Miranda, autor principal do artigo, resumiu a implicação da pesquisa ao defender que a conservação comece pelas florestas ainda existentes. Para ele, impedir incêndios e exploração predatória deve fazer parte da proteção, e não apenas o combate à derrubada completa.

A combinação de medidas produziu os melhores resultados

Nenhuma intervenção conseguiu reverter sozinha as perdas de biodiversidade e carbono em todos os cenários. Os ganhos líquidos só apareceram quando as duas ações de prevenção, contra desmatamento e contra distúrbios, foram aplicadas em conjunto.

A combinação das três frentes, proteção contra desmatamento, prevenção de distúrbios e restauração, ampliou ainda mais os benefícios estimados. A conclusão é especialmente importante porque áreas restauradas também podem ser atingidas pelo fogo antes de se tornarem florestas maduras.

Joice Ferreira, pesquisadora da Embrapa e principal investigadora do programa Capoeira, que trabalha com restauração, comparou a falta de integração entre políticas a um recipiente com vazamento: investir em novas florestas enquanto outras são degradadas reduz o resultado do esforço. A metáfora resume um dos limites apontados pelo estudo, a necessidade de planejar a paisagem inteira, e não apenas propriedades isoladas.

O que a conclusão significa para a Amazônia

Embora a análise tenha se concentrado em duas regiões do Pará, ela oferece uma referência direta para outros territórios amazônicos sujeitos à expansão agropecuária, à seca e ao fogo. No Amazonas, Acre, Amapá, Maranhão, Mato Grosso, Pará, Rondônia, Roraima e Tocantins, a aplicação de uma política única pode produzir resultados diferentes conforme a quantidade de floresta remanescente, o grau de fragmentação e a pressão sobre cada área.

Para comunidades rurais, gestores públicos e empresas que atuam na região, a evidência desloca parte do debate: conservar não é apenas impedir a abertura de novas áreas ou plantar árvores depois da derrubada. Também envolve manter aceiros e sistemas de prevenção, controlar fontes de fogo, fiscalizar a exploração seletiva e proteger fragmentos que ainda sustentam espécies e carbono.

A pesquisa também atribui responsabilidade às cadeias de soja e carne, cujos produtos circulam em mercados nacionais e internacionais. Toby Gardner, coautor e pesquisador sênior do Stockholm Environment Institute, defendeu que empresas e mercados considerem a degradação da floresta remanescente, além do desmatamento oficialmente contabilizado.

O artigo foi produzido por pesquisadores do Reino Unido, Brasil, Suécia e Austrália, com apoio da Rede Amazônia Sustentável, do Global Centre on Biodiversity for Climate, do Reino Unido, e do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico. O texto completo pode ser consultado no estudo publicado na revista Science.

Os próximos passos dependem de transformar essa comparação de estratégias em políticas integradas, com prioridade para a proteção dos remanescentes e restauração direcionada às áreas onde ela pode gerar maior ganho ambiental.

Com informações de Lancaster University.

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