A abelha vai embora, mas o ferrão continua trabalhando: vídeo em alta velocidade mostra a bomba dupla que segue injetando veneno sozinha

A abelha vai embora, mas o ferrão continua trabalhando: vídeo em alta velocidade mostra a bomba dupla que segue injetando veneno sozinha
Ferrão de abelha (Apis mellifera) com o saco de veneno. Foto: Siga, via Wikimedia Commons, licença CC BY-SA 3.0.

Quem já levou uma ferroada de abelha sabe que a dor não para quando o inseto vai embora. Agora a ciência mostra por quê. Um estudo publicado na revista científica PNAS revela que o ferrão da abelha-europeia (Apis mellifera), com apenas 2 milímetros, funciona como uma microbomba de dois pistões, capaz de continuar injetando veneno por conta própria depois de se soltar do corpo do inseto.

A pesquisa foi liderada por Fiorella Ramirez-Esquivel, da Universidade Macquarie, com pesquisadores da Universidade de Nova Gales do Sul, na Austrália.

Uma dúvida de mais de um século

Desde pelo menos 1910 os cientistas sabiam que o saco de veneno do ferrão se esvazia em uma câmara com pequenas válvulas. O que ninguém sabia era exatamente como essas peças funcionavam. Segundo Ramirez-Esquivel, a equipe conseguiu identificar todas as partes que trabalham dentro do minúsculo ferrão.

Quando uma abelha operária ferroa, ela crava o ferrão e voa para longe, deixando-o para trás junto com parte do abdômen. Esse desprendimento se chama autotomia. A partir daí, o ferrão continua penetrando o tecido e injetando veneno sozinho.

Gel transparente e câmera rápida

Para ver o mecanismo, os pesquisadores fizeram abelhas ferroarem um gel transparente que imita a pele humana. Com vídeo em alta velocidade, registraram pela primeira vez o ferrão bombeando veneno de forma autônoma.

O ferrão tem saco de veneno, câmara de bombeamento, músculos e nervos. Também tem duas lancetas afiadas que deslizam para a frente e para trás sobre um sistema de trilhos, num movimento parecido com o de uma serra de vaivém. São elas que fazem o ferrão afundar cada vez mais na pele e, ao mesmo tempo, bombeiam o veneno.

Válvulas que viram paraquedas

Cada lanceta tem uma válvula presa a ela, dentro da câmara de bombeamento. Na descida, a válvula infla como um paraquedas, veda a câmara e empurra o veneno para baixo, funcionando como pistão. Na subida, ela murcha, o que reduz o refluxo enquanto a câmara volta a se encher.

O momento mais surpreendente, segundo a pesquisadora, é quando as duas válvulas se encontram no meio do movimento: elas mudam de forma de novo para passar uma pela outra sem perder a vedação. Como bombeiam em sentidos opostos, garantem um fluxo contínuo de veneno.

A equipe confirmou o funcionamento com tomografia e construiu, por impressão 3D, um modelo ampliado da câmara e das lancetas, uma espécie de pequeno robô, que reproduziu as etapas do ciclo.

Da picada à medicina

Segundo os autores, o desenho de pistões dobráveis pode inspirar microbombas para tecnologias médicas pouco invasivas e para dispositivos que movimentam líquidos em escala minúscula.

O que fazer quando a abelha ferroa

Como o ferrão continua bombeando, a orientação é retirá-lo o mais rápido possível, raspando com a unha ou com um cartão. Lavar o local e usar compressa fria ajuda a aliviar a dor. Pessoas alérgicas, com dificuldade para respirar, inchaço no rosto ou muitas picadas devem procurar atendimento médico imediatamente.

Perguntas frequentes

Por que a abelha deixa o ferrão?

O ferrão da abelha operária tem farpas que prendem na pele. Ao tentar voar, ela se desprende e deixa o ferrão e parte do abdômen para trás.

O ferrão continua injetando veneno?

Sim. O estudo mostra que ele funciona como uma bomba autônoma de dois pistões, que segue empurrando veneno depois que a abelha vai embora.

Com informações da Universidade Macquarie e do estudo publicado na PNAS.

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