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2.500 pessoas se reúnem na Amazônia e preparam ação conjunta contra mineração, petróleo e mercúrio

2.500 pessoas se reúnem na Amazônia e preparam ação conjunta contra mineração, petróleo e mercúrio
Ilustração: IA

Encontro em Puyo, no Equador, aprovou uma agenda regional para proteger rios, territórios e defensores até 2028.

Uma marcha conduzida por mulheres indígenas, ao som de cantos e passos sincronizados, encerrou uma semana de debates sobre o futuro da maior floresta tropical do planeta. Entre 16 e 21 de agosto de 2026, cerca de 2.500 pessoas participaram do XII Fórum Social Pan-Amazônico, em Puyo, no Equador, e aprovaram uma agenda conjunta contra a mineração, a exploração de petróleo, o uso de mercúrio e a contaminação dos rios dos nove países amazônicos.

O encontro reuniu povos indígenas, comunidades afrodescendentes, agricultores, movimentos sociais, pesquisadores e organizações da sociedade civil. A cidade de Puyo, na província de Pastaza, foi escolhida como sede da edição que, pela primeira vez, teve os povos indígenas como coorganizadores diretos.

Uma dança para marcar a defesa do território

A abertura do fórum começou com a entrada de Ene Nenquimo, vice-presidente da Nacionalidade Waorani do Equador, acompanhada por cerca de 30 mulheres. Vestidas com trajes tradicionais e usando coroas coloridas, elas atravessaram o pavilhão esportivo de Pastaza em uma formação que imitava o movimento de uma corrente humana.

“Essa dança é uma ação para demonstrar nossa cultura, para dizer que estão pisando em nosso território, onde nossos ancestrais estiveram e que temos de defendê-lo”, afirmou Nenquimo.

A delegação waorani representa um dos 11 povos indígenas reconhecidos na Amazônia equatoriana. Na província de Pastaza, onde o fórum foi realizado, vivem sete nacionalidades indígenas. A presença dessas comunidades deu ao encontro um caráter diferente das edições anteriores, que haviam sido lideradas principalmente por organizações da sociedade civil ou instituições acadêmicas.

Quatro grupos definiram as prioridades da agenda

Os participantes foram divididos em grupos de trabalho chamados de “casas”. As discussões se concentraram em quatro frentes: os impactos do extrativismo, a soberania e a autodeterminação dos povos, as economias voltadas à vida e à justiça climática, e a violência contra mulheres defensoras da Pan-Amazônia.

As decisões foram reunidas na Declaração Política de Puyuk, nome originário de Puyo, e no Plano de Ação do fórum. Os documentos pedem que os territórios amazônicos sejam reconhecidos juridicamente como zonas de exclusão de atividades extrativas, além da revisão de concessões de mineração e petróleo e da eliminação do uso de mercúrio.

Segundo o Painel Científico para a Amazônia, 18% da região já foi desmatada e outros 38% estão degradados. Os dados foram apresentados durante o encontro realizado em Puyo, no Equador, em agosto de 2026.

Uma ação conjunta para os rios da bacia

Uma das propostas mais importantes é a formulação de uma demanda conjunta pelas agressões sofridas pelos rios amazônicos. A iniciativa ainda deverá ser estruturada, mas pretende reunir comunidades de diferentes países para denunciar impactos que atravessam fronteiras, como a poluição ligada à mineração e a presença de metais tóxicos na água.

O plano também prevê a criação de uma rede de alerta precoce e de apoio jurídico às comunidades ameaçadas. A ideia é permitir que organizações dos nove países compartilhem informações e respondam de maneira coordenada a conflitos territoriais, operações de mineração, avanço do crime organizado e criminalização de defensores.

O documento também rejeita as chamadas “falsas soluções” para a crise climática, entre elas os mercados de carbono, quando usados sem garantir os direitos das comunidades. Os participantes defenderam que a Amazônia seja considerada uma zona de exclusão para combustíveis fósseis.

Alternativas à mineração e ao petróleo

Na frente econômica, os participantes aprovaram a criação de uma rede de experiências de economias transformadoras. De acordo com German Niño, diretor do grupo de trabalho de Economias Transformadoras da Rede Latino-Americana por Justiça Econômica e Social, 50 organizações já integram a articulação.

Essas iniciativas procuram oferecer alternativas à exploração de petróleo e minérios, com participação ativa de mulheres e jovens. O objetivo é ampliar a rede até o próximo fórum e conectar experiências de produção comunitária, manejo sustentável, comercialização local e proteção dos conhecimentos tradicionais.

As mulheres também elaboraram um plano específico, com ações para cada país. Os temas incluíram saúde sexual e reprodutiva, defesa de mulheres ameaçadas, criminalização dos protestos, economia comunitária, democracia e preservação de práticas ancestrais.

Denisse Chávez, presidente do Grupo Impulsor Mulheres e Mudança Climática, informou que 250 participantes criaram um grupo de comunicação no WhatsApp. A rede deverá manter a troca de informações sobre ameaças e iniciativas locais, com encontros virtuais duas ou três vezes por ano.

Da marcha em Puyo para os próximos anos

No último dia, representantes indígenas, afrodescendentes, camponeses e comunidades locais caminharam pelas ruas de Puyo até a sede da Governadoria de Pastaza. Sob temperatura de 28 graus Celsius, a marcha durou mais de uma hora e terminou com a entrega do Plano de Ação às autoridades que representam o governo equatoriano na província.

Cartazes com as frases “Água é vida” e “Ame a Amazônia” acompanharam o percurso. Ene Nenquimo carregava uma lança e afirmou que o encontro não havia sido apenas um espaço para escrever documentos, mas para construir ações.

“Não descansaremos até que os Estados respondam e cumpram com a proteção da nossa casa comum”, disse a liderança waorani.

A próxima etapa será acompanhar a execução das medidas aprovadas. Os primeiros resultados do Plano de Ação deverão ser avaliados em 2027. Em 2028, os participantes pretendem revisar o conjunto dos compromissos durante o próximo Fórum Social Pan-Amazônico, que será realizado em Mocoa, na Colômbia.

O que o fórum representa para a Amazônia brasileira

A agenda aprovada em Puyo também alcança diretamente o Brasil, que concentra a maior parte da bacia amazônica e compartilha rios, cadeias produtivas, áreas de floresta e problemas ambientais com Bolívia, Colômbia, Equador, Guiana, Peru, Suriname, Venezuela e Guiana Francesa.

Nos estados brasileiros da região, como Amazonas, Pará, Acre, Amapá, Rondônia, Roraima, Tocantins e Mato Grosso, as propostas sobre proteção dos rios, combate ao mercúrio, segurança de defensores e alternativas econômicas podem influenciar futuras articulações transfronteiriças.

O fórum não substitui governos, tribunais ou órgãos de fiscalização. A demanda conjunta pelos rios ainda precisa ser formulada, e a efetividade do plano dependerá da capacidade das comunidades de manter a cooperação e pressionar os Estados. A agenda, no entanto, já tem datas de acompanhamento definidas, com avaliação em 2027 e revisão geral em 2028.

Respostas rápidas sobre o encontro

Quem participou do Fórum Social Pan-Amazônico?

Participaram povos indígenas, comunidades afrodescendentes, agricultores, movimentos sociais, pesquisadores, organizações da sociedade civil e representantes de diferentes territórios dos nove países da bacia amazônica.

Quando será o próximo fórum?

A próxima edição está prevista para 2028, em Mocoa, na Colômbia. Antes disso, os participantes planejam avaliar os primeiros resultados do Plano de Ação em 2027.

Com informações de EL PAÍS.

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