Pesquisadores da Amazônia sequenciam pela primeira vez o genoma do açaí e explicam por que frutos roxos e brancos têm cores diferentes

Pesquisadores da Amazônia sequenciam pela primeira vez o genoma do açaí e explicam por que frutos roxos e brancos têm cores diferentes
Ilustração: Revista Amazônia

Parceria entre UFPA e Embrapa identifica genes ligados à produção de antocianinas e pode acelerar em até três vezes o melhoramento do açaizeiro

O DNA do açaí passa a ser lido por pesquisadores da Amazônia

O açaí acaba de ganhar uma ferramenta que pode mudar a forma como novas variedades são escolhidas. Pesquisadores da Universidade Federal do Pará e da Embrapa Amazônia Oriental sequenciaram pela primeira vez o genoma do açaizeiro, palmeira cujo fruto ocupa posição central na bioeconomia da Região Norte. O trabalho permite observar, em escala molecular, regiões do DNA associadas a características que interessam tanto à produção quanto ao desenvolvimento de novos produtos. Entre elas estão a produtividade, o teor de antocianinas e a resistência a enfermidades.

O resultado não transforma imediatamente uma planta em uma variedade melhorada. Ele fornece uma base para localizar genes e utilizar marcadores genéticos durante a seleção. Na prática, essa informação pode reduzir o tempo de avaliação realizado em campo, que costuma exigir o acompanhamento das plantas até que características como produtividade e produção de antocianinas possam ser observadas. O conhecimento genômico pode acelerar em até três vezes essas etapas do melhoramento convencional, segundo a pesquisa. Os resultados foram divulgados em 1º de julho de 2026 e integram um estudo publicado na revista científica Genome.

Uma mesma espécie foi comparada em frutos roxos e brancos

A pesquisa começou com a escolha de amostras no banco genético da Embrapa Amazônia Oriental, no Pará. O centro forneceu material da cultivar BRS Pai d’Égua para o sequenciamento do DNA. Também foram analisados frutos em diferentes fases de desenvolvimento de duas variedades de açaizeiro, uma com frutos roxos e outra com frutos verdes, conhecida popularmente como açaí branco. A comparação permitiu acompanhar as diferenças genéticas relacionadas à formação da cor enquanto o fruto amadurece.

O DNA foi extraído e sequenciado pelo Laboratório de Engenharia Biológica da UFPA, o EngBio, que funciona no Parque de Ciência e Tecnologia Guamá, em Belém. Depois, os pesquisadores montaram o genoma com recursos de bioinformática e analisaram a atividade dos genes durante o amadurecimento por meio de RNA-Seq. Esse procedimento ajudou a relacionar a informação presente no DNA com o funcionamento dos genes nos frutos. A parceria reuniu a estrutura de conservação genética da Embrapa, a capacidade laboratorial da universidade e ferramentas computacionais para organizar a sequência obtida.

Uma enzima ajuda a explicar a diferença de coloração

Nos frutos roxos, a cor mais comum do açaí está ligada à ativação de uma enzima específica responsável pela síntese de antocianinas. Esses pigmentos naturais participam da coloração do fruto e também estão entre as moléculas de interesse para pesquisas sobre antioxidantes e corantes naturais. Já a variedade conhecida como açaí branco apresenta uma inibição generalizada dos genes que iniciam esse processo de coloração. A diferença, portanto, não é apenas visual: ela está relacionada à maneira como conjuntos de genes são ativados ou inibidos durante o desenvolvimento do fruto.

Esse mecanismo oferece aos pesquisadores um caminho para selecionar plantas sem depender somente da observação feita depois de anos de cultivo. Marcadores genéticos associados à produtividade e à produção de antocianinas podem ser procurados antes que todas essas características apareçam no campo. Elisa Moura, pesquisadora da Embrapa Amazônia Oriental e uma das autoras do artigo, afirma que o sequenciamento pode evitar a espera de cerca de seis anos até que se obtenham informações sobre produção de antocianinas e produtividade. A seleção passa a combinar a avaliação da planta com sinais identificados diretamente no genoma.

O sequenciamento amplia o futuro do melhoramento do açaizeiro

A aplicação mais imediata do genoma está no melhoramento genético, processo que busca reunir características desejáveis em plantas selecionadas. Com marcadores, os pesquisadores podem acompanhar regiões do DNA relacionadas a maior produtividade, maior teor de antocianinas e resistência a enfermidades. O estudo também abre espaço para investigar moléculas que possam ser utilizadas em novos produtos, incluindo corantes naturais e antioxidantes. A informação genética amplia a compreensão das diferentes colorações do açaí e oferece uma referência para trabalhos futuros com a espécie.

O resultado também tem uma dimensão preventiva. Atualmente, segundo a avaliação apresentada no estudo, não existe uma enfermidade considerada um problema grave para a produção de açaí. Ainda assim, se uma doença vier a afetar os plantios, o genoma já sequenciado poderá ajudar a procurar genes associados à resistência. A pesquisa não encerra o melhoramento nem substitui os testes em campo, mas muda o ponto de partida: em vez de esperar apenas pelo desempenho visível da planta, os cientistas podem usar informações do DNA para orientar a seleção. É uma mudança discreta no laboratório, mas com potencial para aproximar a pesquisa das necessidades de quem produz e transforma o fruto na Amazônia.

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