O falso herói da transição: Por que o gnl não é o futuro energético do Brasil?


Imagine substituir a energia de uma cachoeira por uma fogueira de gás. Parece ilógico, certo? Mas essa é a metáfora mais fiel para o movimento que tem ocorrido em várias regiões do Brasil: a troca de energia hidrelétrica limpa por termelétricas movidas a gás natural liquefeito (GNL). Em tempos de emergência climática, essa mudança levanta a pergunta crucial: pode-se chamar isso de transição energética?

GNL

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Debate energético nacional

O Brasil construiu sua reputação energética apoiado em uma das matrizes mais renováveis do planeta. Com rios abundantes e infraestrutura hidrelétrica consolidada, o país sempre figurou entre os exemplos mundiais de eletricidade limpa. No entanto, nos últimos anos, uma crescente onda de projetos ligados ao GNL tem ganhado espaço no debate energético nacional.

A justificativa? Segurança energética e diversificação da matriz. Mas será que sacrificar fontes renováveis em prol de combustíveis fósseis pode ser considerado avanço?

GNL apresenta risco adicional

O GNL, promovido como solução intermediária na transição energética, é basicamente metano liquefeito, um dos gases de efeito estufa mais potentes que se conhece. Embora sua queima emita menos CO2 que o carvão ou o óleo combustível, o GNL apresenta um risco adicional: o vazamento de metano durante sua produção, transporte e uso. Esses vazamentos — chamados tecnicamente de “emissões fugitivas” — têm um impacto devastador, já que o metano aquece o planeta 82 vezes mais que o CO2 ao longo de 20 anos.

E não se trata apenas de emissões invisíveis. A instalação de terminais de GNL e suas redes de dutos frequentemente ocorre em áreas ambientalmente sensíveis, como manguezais e zonas costeiras. Isso afeta diretamente a biodiversidade, a qualidade da água e, em muitos casos, comunidades tradicionais que vivem nesses territórios.

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Redução da resiliência da matriz energética

Substituir energia hidrelétrica por GNL também significa reduzir a resiliência da matriz energética. As usinas hidrelétricas, embora suscetíveis a secas, são renováveis e, em sua maioria, não dependem de combustíveis importados. Já o GNL tem preço atrelado ao mercado internacional, sofre com variações cambiais e exige uma cadeia logística complexa e cara — o que encarece a tarifa de energia.

Paradoxo

O paradoxo é evidente: o Brasil, com potencial solar e eólico incomparável, está investindo em uma tecnologia que pode se tornar obsoleta em menos de duas décadas. De acordo com a Agência Internacional de Energia, o papel do gás natural na matriz global deverá diminuir consideravelmente até 2040, caso o mundo queira cumprir as metas do Acordo de Paris. Investir pesadamente em GNL agora é como apostar em fitas VHS na era do streaming.

Além disso, a retórica da transição energética precisa ser acompanhada por critérios técnicos e ambientais rigorosos. Uma verdadeira transição não se dá apenas pela mudança do tipo de combustível, mas pela substituição de fontes poluentes por fontes renováveis e sustentáveis. Quando a substituição ocorre entre duas fontes fósseis ou, pior, entre uma renovável e uma fóssil, o termo transição se torna apenas uma fachada.

COP 30

A realização da COP30 em Belém reforça ainda mais a responsabilidade do Brasil em liderar pelo exemplo. A floresta amazônica, símbolo global da biodiversidade e do equilíbrio climático, não pode servir de pano de fundo para políticas energéticas que fortalecem o aquecimento global.

O país tem todas as condições de trilhar um caminho limpo: sol abundante, vento constante, biomassa diversificada e um parque hidrelétrico já instalado. O que falta não é tecnologia, mas visão de longo prazo e vontade política.

Investir em alternativas ambientais concretas

Neste momento decisivo, precisamos abandonar o falso herói energético e investir em alternativas que realmente conduzam ao futuro. O GNL pode até parecer conveniente, mas não é sustentável. Trocar cachoeiras por chamas é caminhar contra a corrente da história — e contra os interesses das próximas gerações.

Uma verdadeira transição energética deve ser como o fluxo de um rio: contínua, limpa, renovável. E o Brasil ainda tem tempo de navegar nessa direção.