
Durante boa parte do século 20, órgãos ambientais e madeireiras dos Estados Unidos retiraram troncos e galhos caídos dos rios, acreditando que atrapalhavam a passagem dos peixes. Hoje, a lógica se inverteu. No noroeste do país, povos indígenas e agências ambientais usam helicópteros para recolocar milhares de árvores inteiras dentro dos rios. O objetivo é devolver aos salmões os abrigos, as piscinas de água calma e os leitos de cascalho de que eles precisam para se reproduzir.
O erro de décadas
A remoção de madeira dos rios, somada à exploração intensa de florestas e a incêndios, deixou muitos cursos de água “limpos” demais: canais retos, rápidos e sem esconderijos. Para os salmões, que sobem os rios para desovar e cujos filhotes passam meses na água doce antes de ir para o mar, isso significou perda de habitat.
“Muitas bacias da Península Olímpica foram afetadas por práticas históricas de exploração madeireira e por incêndios florestais, que removeram a vegetação das margens e simplificaram o habitat dos peixes”, explicou Mike McHenry, biólogo de habitat da tribo Lower Elwha Klallam, em comunicado da Comissão de Pesca dos Povos Indígenas do Noroeste. “Perdemos madeira nos canais dos rios, então estamos colocando de volta enquanto a floresta volta a crescer lentamente.”
Árvores de até 15 metros
No rio Twin, no estado de Washington, a tribo Lower Elwha Klallam usou um helicóptero de carga para posicionar 140 árvores em um trecho de cerca de 1,6 quilômetro. Algumas tinham até 15 metros de comprimento, 76 centímetros de diâmetro e 4,5 toneladas, com a raiz inteira. As raízes funcionam como âncoras e diminuem a velocidade da água, criando poços rasos onde os peixes descansam e se alimentam.
Na bacia do rio Yakima, também em Washington, a Nação Yakama concluiu em 2021 um projeto que levou, de helicóptero, mais de 6 mil troncos para 24 milhas, cerca de 39 quilômetros, de rios e riachos de sete afluentes. Em 2026, grupos de restauração do rio Toutle, no mesmo estado, programaram levar de 2 mil a 3 mil troncos, segundo organizações locais.
Por que a madeira ajuda
- cria esconderijos contra predadores para os filhotes de salmão;
- forma piscinas e áreas de água mais calma, onde os peixes descansam;
- segura cascalho limpo, onde as fêmeas cavam os ninhos e põem os ovos;
- alimenta algas e insetos aquáticos, que são comida para os peixes;
- reduz a velocidade da água nas cheias, protegendo as margens.
Por que helicóptero
Muitos desses rios ficam em áreas sem estrada, em encostas íngremes. Levar árvores inteiras de caminhão seria impossível ou destruiria a mata. Com o helicóptero, os troncos são içados de áreas de corte próximas e soltos com precisão no ponto escolhido pelos biólogos, em poucas semanas de trabalho.
E na Amazônia?
Nos igarapés da Amazônia, troncos e galhos caídos também fazem parte do ambiente natural e servem de abrigo e fonte de alimento para peixes e invertebrados. A experiência americana reforça uma lição que vale para qualquer floresta: o que parece “sujeira” no rio muitas vezes é parte essencial do habitat.
Perguntas frequentes
Por que jogar troncos nos rios?
Para recriar abrigos, piscinas e áreas de desova que os salmões perderam quando a madeira foi retirada dos rios.
Onde isso está sendo feito?
Principalmente no noroeste dos Estados Unidos, nos estados de Washington e Oregon.
Quem faz o trabalho?
Povos indígenas, como a Nação Yakama e a tribo Lower Elwha Klallam, em parceria com órgãos ambientais e proprietários de terras.
A técnica funciona?
Os projetos se baseiam no papel conhecido da madeira no habitat dos peixes. A avaliação de longo prazo depende de monitoramento, porque cheias fortes podem deslocar as estruturas.
Com informações da Comissão de Pesca dos Povos Indígenas do Noroeste (Northwest Indian Fisheries Commission), da Nação Yakama e de organizações de restauração de rios do estado de Washington.
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