Super El Niño se forma no Pacífico e Brasil precisa adaptar cidades

Super El Niño se forma no Pacífico e Brasil precisa adaptar cidades
Foto: www1.folha.uol.com.br

Aquecimento de 2°C ou mais no oceano deve intensificar secas, ondas de calor e enchentes em 2026.

O Pacífico pode registrar um aquecimento de 2°C ou mais acima da média nos próximos meses, configurando um super El Niño capaz de intensificar eventos climáticos extremos em todo o Brasil. O alerta é de especialistas em clima e urbanismo, que defendem a adaptação urgente das cidades brasileiras como única estratégia viável diante da nova realidade climática.

Segundo Paulo Artaxo, físico e coordenador do Centro de Estudos da Amazônia Sustentável da USP, Virgilio Viana, engenheiro florestal da Fundação Amazônia Sustentável, e Pedro Henrique de Christo, urbanista climático do Novo Acordo Verde, o planeta está numa trajetória de aumento médio de temperatura de 2,8°C em relação aos níveis pré-industriais de 1850, muito além do limite de 1,5°C estabelecido no Acordo de Paris em 2015.

O novo El Niño deve provocar secas severas no Norte e Nordeste, ondas de calor no Sudeste e Centro-Oeste, e chuvas intensas no Sul. A volatilidade climática cresceu drasticamente nas últimas décadas: entre 1970 e 1980, ocorriam cerca de 100 eventos extremos por ano em todo o mundo; de 2020 a 2025, esse número saltou para 400.

Brasil registra 223% mais eventos extremos

No Brasil, entre 2020 e 2023, houve um aumento de 223% nos eventos climáticos extremos em comparação com toda a década de 1990. A crise atingiu diretamente as cidades, onde vivem 87% da população brasileira. De 2015 a 2024, 84% dos municípios foram afetados por eventos extremos, com alternância sucessiva de enchentes, tempestades, secas e ondas de calor, num fenômeno chamado de chicotada climática.

A Amazônia ilustra bem a gravidade da situação. No último El Niño, em 2024, a seca dos rios deixou sistemas de água e saneamento avariados e comunidades isoladas. A logística hidroviária entrou em colapso, impedindo a chegada de alimentos, remédios e água potável. No Amazonas, 770 mil pessoas foram impactadas, com prejuízos de R$ 3,2 bilhões.

“A qualidade do ar em toda a região e além dela foi deteriorada pelas queimadas, aumentando as doenças respiratórias. Não podemos, em 2026, repetir os erros de 2024”, alertam os especialistas no artigo publicado na Folha de S.Paulo.

Manaus e a vulnerabilidade urbana

Manaus, maior cidade amazônica, enfrentou cheias recordes em 2021 e 2022, com impactos severos. A vulnerabilidade social provocada pela destruição de moradias, seguida de altas temperaturas nas favelas onde vivem 53,9% da população, é descrita como insustentável. A infraestrutura urbana não suporta as chuvas que elevam os níveis dos igarapés.

A disrupção climática torna dados históricos insuficientes para desenvolver projetos futuros. As cidades da Amazônia, que concentram 78,5% da população regional, precisam migrar urgentemente da lógica reativa atual para estratégias de antecipação, adaptação e resiliência.

Urbanismo climático como solução

Os especialistas defendem o urbanismo climático, uma estratégia interdisciplinar que integra modelos hidroclimáticos preditivos em gêmeos digitais (4D: x, y, z e tempo) na avaliação de riscos e testes de projetos de resiliência. A abordagem inclui novos sistemas de governança e políticas públicas inclusivas.

A grande vantagem econômica está na integração de estruturas tradicionais (cinzas) com soluções baseadas na natureza e gestão urbana inteligente. Essa combinação é de cinco a sete vezes mais barata que as estruturas convencionais, unindo vegetação para drenagem e segurança térmica com energia limpa em estruturas multifuncionais.

“Não podemos enfrentar os desafios climáticos do século 21, com o urbanismo e estruturas do século 20 e instituições do século 19”, afirmam os autores.

Entenda o contexto climático

O El Niño é um fenômeno natural de aquecimento das águas do Pacífico que ocorre a cada dois a sete anos. Porém, o aquecimento global causado pela queima de combustíveis fósseis e desmatamento tem intensificado seus efeitos. A temperatura dos oceanos está subindo continuamente, criando condições para eventos cada vez mais extremos. O super El Niño previsto para 2026 ocorre num contexto em que a ação humana amplificou dramaticamente as consequências naturais desses ciclos climáticos.

Adaptação como oportunidade econômica

Para os especialistas, a urgência da adaptação não é apenas um desafio existencial, mas também uma oportunidade de virar o jogo. A superação da crise climática pode abrir novas fronteiras para a liderança do Brasil na geopolítica e na exportação de produtos e serviços da economia verde, ajudando o país a se tornar desenvolvido.

A estratégia defendida passa por três pilares simultâneos: acabar com o desmatamento, encerrar a exploração e uso do petróleo (que é mais caro que energias renováveis), e trabalhar intensamente na adaptação e resiliência ao novo clima. Os 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU só podem ser alcançados com essa abordagem integrada.

O super El Niño em formação traz uma amostra da gravidade do novo clima. As próximas semanas e meses serão decisivos para que governos, empresas e sociedade civil implementem medidas concretas de adaptação nas cidades brasileiras, especialmente na Amazônia, que deve ser uma das regiões mais afetadas pelos eventos extremos previstos.

Perguntas frequentes

O que é um super El Niño?

É quando o aquecimento das águas do oceano Pacífico atinge 2°C ou mais acima da média, intensificando eventos climáticos extremos como secas, enchentes e ondas de calor em diversas regiões do planeta.

Por que as soluções baseadas na natureza são mais baratas?

Porque integram vegetação, drenagem natural e estruturas multifuncionais, custando de cinco a sete vezes menos que obras de engenharia tradicional, além de oferecerem benefícios adicionais como controle térmico e qualidade do ar.

Qual região do Brasil será mais afetada pelo El Niño de 2026?

O fenômeno deve provocar secas severas no Norte e Nordeste, ondas de calor no Sudeste e Centro-Oeste, e chuvas intensas no Sul, afetando diferentemente cada região conforme seu padrão climático.

Com informações de Folha de S.Paulo.

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