Resfriar só o extremo norte do oceano em simulações gerou 74% da queda de CO₂ vista com o planeta todo resfriado

Resfriar só o extremo norte do oceano em simulações gerou 74% da queda de CO₂ vista com o planeta todo resfriado
Foto: Евгений Шухман from Pexels

Estudo da Universidade de St Andrews sugere como o gelo do Hemisfério Norte pode ter ligado o Oceano Austral às eras glaciais.

Um oceano que esfria no extremo norte pode ter consequências a milhares de quilômetros, junto à Antártida. É o que sugere um estudo da Universidade de St Andrews, no Reino Unido, publicado em 22 de outubro de 2026 no Journal of Climate. Em simulações de computador, o resfriamento restrito às altas latitudes do Hemisfério Norte provocou quase o mesmo efeito sobre o CO₂ da atmosfera que o resfriamento de todo o planeta, o que aponta um mecanismo possível para explicar como a Terra entrou em eras glaciais.

Duas pontas do planeta, um mesmo quebra-cabeça

Há tempos se entende que as eras glaciais foram impulsionadas principalmente pelo aumento do CO₂ armazenado no oceano, processo ligado sobretudo a mudanças no Oceano Austral, ao redor da Antártida.

O que faltava era a ligação entre esse processo e o início de tudo. As grandes camadas de gelo do Hemisfério Norte começam a crescer por causa de ciclos naturais na órbita da Terra. Como esse crescimento levaria a mudanças no Oceano Austral, tão distante, era uma pergunta sem resposta.

A hipótese: a água fria que viaja

O artigo propõe que, quando as camadas de gelo do norte começam a crescer, elas esfriam as águas vizinhas do Atlântico Norte. Essas águas acabam circulando até o Oceano Austral.

Se o resfriamento no norte for forte o bastante, ele pode induzir mudanças significativas de circulação no sul, do tipo já associado a mais CO₂ estocado no oceano.

Como o teste foi feito

A equipe usou simulações de modelo oceânico. Em uma delas, resfriou apenas as latitudes mais altas do norte, imitando o efeito de uma grande camada de gelo, e mediu se o Oceano Austral respondia.

Em outra, resfriou o planeta inteiro. A comparação mostrou que o resfriamento apenas no norte gerou 74% da queda de CO₂ atmosférico obtida na simulação global.

O título do trabalho indica que se trata de um modelo idealizado: Isolated Northern Hemisphere Cooling in an Idealized Model Promotes Ocean Carbon Storage and Glacial-like Ocean Features. Ou seja, o resultado mostra que o mecanismo é plausível em simulação, não que ele tenha sido observado diretamente no passado.

“Essentially, we’ve produced evidence of a plausible mechanism connecting these two far-flung puzzle pieces, Northern Hemisphere ice sheets and Southern Hemisphere ocean circulation changes leading to CO₂ drawdown, which has been a tricky thing to explain in our theory of Earth’s past ice ages. Our study takes the step of actually demonstrating them working in model simulations, which is a big step forward for this field.” (Madison Shankle, autora principal, da Escola de Ciências da Terra e do Meio Ambiente)

Por que isso importa hoje

Segundo a Universidade de St Andrews, as eras glaciais são estudos de caso naturais de como o carbono entra e sai da atmosfera. Quanto mais se sabe sobre elas, melhor se entende como a Terra move carbono naturalmente no ciclo do carbono.

Esse conhecimento é considerado crítico para avaliar como o planeta responderá ao CO₂ adicional lançado hoje no sistema terrestre. O trabalho também reforça uma mudança de foco: durante muito tempo o Oceano Austral concentrou a atenção dos estudiosos, e só recentemente outras regiões remotas do oceano passaram a ser mais valorizadas.

O que isso significa para a Amazônia

A região amazônica não aparece no estudo, mas o tema dialoga com ela. A floresta é um grande reservatório de carbono, e entender os controles naturais do CO₂ atmosférico ajuda a dimensionar o que está em jogo quando se discute o equilíbrio do clima global, pauta central para o Norte do Brasil.

Os próximos passos da área devem incluir testar esse mecanismo com modelos mais completos e compará-lo com registros geológicos das eras glaciais, o que pode mostrar o quanto dessa explicação se sustenta no mundo real.

Com informações da Universidade de St Andrews.

O artigo científico pode ser consultado pelo DOI na revista Journal of Climate.

Gostou desta reportagem?

Marque Revista Amazônia como fonte preferencial e veja mais conteúdo nosso no Google.

Gostou desta reportagem?
Siga a Revista Amazônia no Google News

⭐ SEGUIR AGORA