
Vestígios arqueológicos mostram que a relação com esses grandes peixes começou muito antes da indústria pesqueira moderna.
Antes de virar sanduíche de supermercado ou fatia valorizada de sashimi, o atum já era uma presença importante na vida humana. Ossos encontrados em sítios arqueológicos indicam que comunidades costeiras capturavam esses peixes há cerca de 44 mil anos, em uma relação que atravessou mudanças climáticas, migrações, impérios e a criação da pesca industrial.
A reconstrução dessa trajetória foi feita a partir de restos de esqueletos, pinturas rupestres, afrescos, vasos, documentos históricos e relatos etnográficos. O conjunto mostra que o atum não é apenas um alimento popular. Ele também funciona como registro da capacidade humana de observar o mar, prever movimentos de animais e desenvolver ferramentas para explorar águas cada vez mais distantes.
O primeiro vestígio surgiu em uma caverna do Sudeste Asiático
A evidência mais antiga de pesca de atum vem de Jerimalai, uma caverna localizada no Timor-Leste, no Sudeste Asiático. Ali, pesquisadores encontraram ossos de peixes associados à ocupação humana. O material foi interpretado como sinal de que os habitantes da região já conseguiam capturar espécies oceânicas que não permaneciam próximas da costa o tempo todo.
Esse detalhe é importante porque os atuns estão entre os peixes mais velozes e viajantes dos oceanos. Algumas espécies podem percorrer milhares de quilômetros durante suas migrações. Para alcançar esses animais, os grupos antigos precisavam dominar embarcações, linhas, anzóis, lanças ou outras técnicas adequadas ao ambiente marinho, embora nem todas as ferramentas usadas naquele período tenham sobrevivido.
Segundo a Smithsonian Institution, a evidência arqueológica mais antiga de pesca de atum foi encontrada na caverna de Jerimalai, no Timor-Leste, e remonta a aproximadamente 44 mil anos.
Da captura costeira às rotas que cruzavam o oceano
Durante milhares de anos, os atuns foram aproveitados em diferentes escalas. Em comunidades pequenas, uma captura podia representar alimento para várias pessoas. Em sociedades que desenvolveram redes comerciais, técnicas de conservação e embarcações maiores, o peixe passou a circular entre regiões e a ganhar valor econômico e simbólico.
A arqueologia ajuda a identificar essa mudança. A quantidade de ossos, o tamanho dos exemplares e a presença de espécies oceânicas em locais distantes da costa podem indicar se a pesca era ocasional ou organizada. Pinturas e cerâmicas também revelam como esses animais eram percebidos, enquanto documentos antigos registram mercados, tributos e formas de conservação.
No Japão e na Coreia, por exemplo, a captura de atuns começou pelo menos 6 mil anos atrás. Ao longo do tempo, a pesca nessas áreas foi associada a tradições culinárias e a métodos de grande escala que contribuíram para formar a cadeia comercial conhecida atualmente.
Um peixe com características fora do comum
O sucesso do atum entre os seres humanos está ligado às suas características biológicas. Esses peixes estão entre os maiores predadores do oceano aberto. Algumas espécies alcançam quase 3 metros de comprimento, podem viver por mais de 40 anos e mantêm longas migrações entre áreas de alimentação e reprodução.
O chamado atum-rabilho, ou bluefin tuna, tornou-se o exemplo mais conhecido dessa combinação de força, tamanho e valor comercial. Um exemplar pode ser vendido por milhões de dólares em leilões, especialmente no mercado japonês. O preço, porém, não representa apenas o alimento. Ele também envolve raridade, tamanho, reputação do pescado e competição entre compradores.
A classificação popular de “atum” reúne espécies diferentes. Entre os chamados atuns verdadeiros estão oito espécies do gênero Thunnus. Outras, como o bonito-listrado, também são comercializadas como atum e têm grande peso na indústria global. Essa distinção é importante porque tamanho, velocidade de crescimento, rota migratória e situação populacional variam entre as espécies.
O salto para a indústria global
A pesca moderna transformou completamente a escala dessa relação. Em vez de depender apenas da proximidade entre comunidades e cardumes, a frota industrial passou a usar embarcações de longo alcance, equipamentos de localização e métodos capazes de capturar grandes volumes em mar aberto.
Atualmente, milhões de toneladas de atum são retiradas dos oceanos todos os anos. A cadeia internacional movimenta cerca de US$ 40 bilhões anuais, considerando pesca, processamento, transporte, comércio e consumo. O peixe que chega em uma lata pode ter atravessado diferentes etapas e fronteiras antes de alcançar o prato.
Esse crescimento trouxe uma contradição. O mesmo animal que sustentou comunidades durante milênios passou a ser pressionado por uma demanda global contínua. A avaliação das populações de atum tornou-se uma área importante da pesquisa científica nas últimas décadas, com atenção especial à pesca excessiva, à captura de exemplares jovens e ao impacto sobre outras espécies capturadas junto com os cardumes.
O que essa história revela sobre o presente
Os vestígios de Timor-Leste não significam que a pesca antiga tivesse o mesmo impacto da atividade atual. A escala era muito menor e as tecnologias limitavam a quantidade capturada. Ainda assim, eles mostram que a relação entre seres humanos e grandes predadores marinhos começou muito antes das fábricas, dos navios frigoríficos e dos mercados internacionais.
Para quem vive na Amazônia, a história aparece principalmente no caminho do alimento até as cidades. Nos nove estados da região, do Amapá ao Acre e de Roraima ao Tocantins, o atum industrializado chega por redes de distribuição que dependem de transporte, conservação e comércio nacional. O produto cotidiano de supermercados amazônicos, portanto, está ligado a uma cadeia oceânica distante e a decisões tomadas sobre estoques marinhos em escala internacional.
A conexão também ajuda a lembrar que a Amazônia não termina na floresta. A costa do Pará, do Amapá e do Maranhão participa de uma zona de transição entre grandes rios, estuários e oceano, onde comunidades dependem de recursos aquáticos e enfrentam desafios próprios de manejo. A história do atum amplia esse olhar: conservar animais migratórios exige acompanhar o percurso completo deles, não apenas o trecho próximo de um único país.
Do osso preservado em uma caverna asiática ao pescado vendido por milhões de dólares, o atum registra uma transformação profunda. Primeiro, ele foi um recurso localizado por comunidades que conheciam as marés e os movimentos do mar. Depois, tornou-se mercadoria de longa distância e, por fim, símbolo de uma indústria que precisa conciliar consumo, renda e conservação.
Os próximos passos dependem de avaliações contínuas dos estoques, regras de captura e escolhas dos mercados consumidores, que definirão se essa relação iniciada há 44 mil anos continuará possível para as próximas gerações.
Com informações de Smithsonian Institution.
Gostou desta reportagem?
Marque Revista Amazônia como fonte preferencial e veja mais conteúdo nosso no Google.














