IBGE anuncia primeiro Censo Nacional da População em Situação de Rua para 2028 e prepara mapa nacional capaz de orientar políticas públicas

IBGE anuncia primeiro Censo Nacional da População em Situação de Rua para 2028 e prepara mapa nacional capaz de orientar políticas públicas
Ilustração: Revista Amazônia

Levantamento deverá identificar onde essa população vive e circula, além de reunir informações sobre perfil sociodemográfico e condições de vida

O Brasil terá, pela primeira vez, um levantamento nacional dedicado à população em situação de rua. O IBGE anunciou, entre os dias 27, 28 e 30 de abril, a criação do primeiro Censo Nacional da População em Situação de Rua, previsto para ser realizado em 2028. A pesquisa deverá mapear a distribuição territorial desse grupo, reunir informações sobre seu perfil sociodemográfico e registrar condições de vida que ainda não aparecem de forma integrada em uma fotografia nacional.

A proposta não se limita a contar pessoas. O levantamento também pretende identificar as regiões com maior ocorrência de pessoas em situação de vulnerabilidade e contribuir para a busca de soluções capazes de reduzir a parcela da população que vive nas ruas. Ao organizar informações de diferentes cidades e contextos em uma mesma pesquisa, o Censo poderá oferecer uma base para políticas públicas mais ajustadas às diferenças entre os territórios brasileiros.

O primeiro mapa nacional de uma população que circula pelos territórios

Para a socióloga Fraya Frehse, professora do Departamento de Sociologia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, o Censo poderá revelar informações inéditas sobre a população em situação de rua. Entre os dados esperados estão a distribuição territorial, o perfil sociodemográfico e as condições de vida. O levantamento também deverá mostrar como essas pessoas se espacializam nos diferentes lugares por onde circulam e existem.

Essa dimensão territorial é central porque a vida nas ruas não se organiza necessariamente em torno de um endereço fixo. Para existir em uma cidade, essa população precisa ocupar espaços e encontrar formas de se virar dentro deles. Fraya afirma que há um cuidado metodológico específico para lidar com essa característica. A pesquisa terá de observar maneiras de estruturar a moradia que não correspondem ao modelo tradicional de domicílio usado como unidade de pesquisa em censos demográficos.

O desafio de contar quem não vive em um domicílio convencional

O domicílio é normalmente definido como um ambiente estruturado para a moradia. Essa referência facilita a coleta de informações em levantamentos populacionais, mas não contempla toda a variedade de situações encontradas entre pessoas que vivem nas ruas. O novo Censo parte justamente da necessidade de considerar outras formas de ocupar, utilizar e organizar os espaços urbanos e territoriais.

A mudança exige procedimentos capazes de acompanhar uma população que pode circular por diferentes pontos e estabelecer relações diversas com cada lugar. A questão não é apenas localizar pessoas em uma data, mas compreender como elas existem no território e quais condições sustentam sua permanência ou circulação. Esse cuidado pode ampliar a qualidade das informações reunidas pelo IBGE e evitar que uma população sem domicílio convencional seja observada apenas por categorias criadas para outras formas de moradia.

Pesquisa poderá revelar diferenças entre cidades, florestas e áreas rurais

O levantamento nacional também deverá permitir uma comparação inédita entre contextos muito diferentes. Fraya destaca que o Brasil reúne cidades com localizações variadas, incluindo áreas de floresta e zonas rurais. A forma como a população em situação de rua se distribui, circula e estabelece estratégias de sobrevivência pode mudar conforme a configuração de cada lugar.

Reunir essas diversidades em uma mesma pesquisa permitirá observar como elas se estruturam nacionalmente. O resultado esperado não é uma imagem única da população em situação de rua, mas um quadro capaz de mostrar diferenças entre regiões e localidades. Essa leitura conjunta poderá ajudar gestores a reconhecer que uma política desenhada para determinado contexto urbano talvez não responda da mesma maneira às necessidades de quem vive em cidades com outra geografia, em áreas rurais ou próximas à floresta.

Orçamento e método ainda pesam sobre o planejamento do Censo

A criação do levantamento ocorre em meio a desafios orçamentários e metodológicos. Renata Bichir, professora do curso de Gestão de Políticas Públicas da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da USP, afirma que se trata de uma pesquisa relativamente custosa, embora não tenham sido divulgadas estimativas de orçamento. Segundo ela, o diretor do IBGE responsável pela pesquisa menciona essa dimensão financeira entre os obstáculos do projeto.

Renata também relaciona a demora na criação do Censo às dificuldades enfrentadas pelo instituto, incluindo um processo de desfinanciamento. Ela lembra que a realização do Censo de 2020 esteve ameaçada e ocorreu com atraso, depois de pressão do poder público, da opinião pública e de pesquisadores. O novo levantamento, portanto, dependerá de planejamento financeiro e de decisões metodológicas capazes de acompanhar diferentes formas de moradia. A previsão de realização em 2028 marca o início de uma etapa que poderá transformar pessoas antes dispersas em uma realidade nacional mensurável, sem reduzir sua diversidade a um único perfil. Quando o Estado aprende a enxergar os lugares onde uma população vive, também passa a ter mais responsabilidade sobre aquilo que decide fazer nesses lugares.

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