Inventário reúne 738 espécies de abelhas na Colômbia e revela que país pode ter quase 1.400

Inventário reúne 738 espécies de abelhas na Colômbia e revela que país pode ter quase 1.400
Foto: Divulgação

Estudo liderado por pesquisadores da Penn State amplia o registro conhecido e aponta lacunas na biodiversidade tropical.

O número de abelhas conhecidas na Colômbia cresceu de uma faixa estimada entre 466 e 604 espécies para 738 em um novo inventário científico. A lista, publicada em 7 de outubro de 2026 na revista PeerJ, acrescentou 246 registros inéditos para o país e indicou que a diversidade real pode chegar perto de 1.400 espécies. O trabalho foi conduzido por Margarita M. López-Uribe e Ruben D. Martín-Rojas, da Penn State, com 44 colaboradores de 31 instituições.

O resultado muda a forma de enxergar a fauna de abelhas colombiana. Não se trata apenas de atualizar um catálogo, mas de reunir em uma mesma base informações que estavam espalhadas por museus, universidades, bancos de dados públicos e publicações taxonômicas. Segundo a Penn State, o inventário publicado em 7 de outubro de 2026 é o primeiro levantamento anotado desse tipo para um país do Hemisfério Ocidental.

O que apareceu quando as coleções foram reunidas

A equipe trabalhou com 18 coleções entomológicas colombianas, instituições que preservam insetos coletados ao longo de décadas. Esses acervos funcionam como arquivos físicos da biodiversidade: cada exemplar pode guardar informações sobre espécie, local, data e ambiente onde foi encontrado.

As coleções locais responderam por 70% dos registros usados no inventário. A partir desses materiais, os pesquisadores formaram uma rede nacional que passou a ser conhecida como Proyecto Abejas de Colombia, aproximando museus, universidades e especialistas que antes trabalhavam com conjuntos de dados separados.

O método também incluiu registros disponíveis em repositórios abertos e a consulta à literatura taxonômica. Em linguagem simples, os autores cruzaram exemplares preservados e informações já publicadas para verificar quais espécies realmente tinham ocorrência documentada na Colômbia. A combinação reduziu o risco de contar duas vezes o mesmo registro e ajudou a revelar áreas pouco estudadas.

Por que 738 ainda pode ser uma contagem baixa

O inventário registrou que cerca de 20% das espécies encontradas são exclusivas da Colômbia. Ainda assim, os autores estimam que o país tenha aproximadamente 1.400 espécies de abelhas. Isso significa que perto de 25% da diversidade potencial ainda pode não ter sido registrada ou descrita pela ciência, segundo a estimativa apresentada no estudo.

Essa diferença não indica necessariamente que as espécies estejam desaparecendo. Ela mostra, principalmente, que a amostragem ainda é desigual. Regiões mais acessíveis ou com universidades e coleções ativas tendem a produzir mais registros, enquanto áreas remotas podem permanecer fora dos mapas científicos por muitos anos.

A Colômbia é uma ponte geográfica entre a América Central e a América do Sul e reúne ambientes muito distintos. O país também é reconhecido pela grande variedade de aves, orquídeas, palmeiras, peixes de água doce e borboletas. No caso das abelhas, porém, a aparente riqueza dos trópicos não segue exatamente o mesmo padrão observado em outros grupos.

As abelhas colombianas fogem do padrão mais conhecido

Em regiões temperadas, como partes da América do Norte e da Europa, aproximadamente 10% das abelhas são sociais e cerca de 70% constroem ninhos no solo. Na Colômbia, a proporção de espécies sociais chega a aproximadamente 40%, enquanto a maioria faz ninhos acima do solo.

Essa diferença ajuda a explicar por que não é seguro aplicar diretamente aos trópicos as conclusões obtidas em regiões mais estudadas. A arquitetura dos ninhos, a organização das colônias e a relação com plantas podem variar conforme o clima, a altitude e a disponibilidade de recursos.

Outro achado foi a concentração da maior parte da diversidade na região Andina. O resultado contrasta com um padrão frequente em áreas temperadas, nas quais ambientes secos costumam apresentar grande variedade de abelhas. A cordilheira colombiana oferece uma sucessão de altitudes e climas em espaços relativamente próximos, o que pode favorecer a presença de diferentes comunidades.

O que isso representa para a Amazônia

A Colômbia também integra a Amazônia sul-americana, mas o estudo não apresenta uma contagem específica para a porção amazônica do país. A conexão regional está no método: a rede de coleções e a abertura dos dados podem servir de referência para inventários em áreas tropicais onde a fauna de polinizadores ainda é subamostrada.

Isso interessa diretamente aos estados amazônicos brasileiros, como Amazonas, Pará, Acre, Amapá, Rondônia, Roraima, Tocantins e Mato Grosso. Abelhas participam da reprodução de plantas nativas e de culturas agrícolas, mas a falta de registros detalhados dificulta saber quais espécies ocorrem em cada paisagem, quais ambientes usam e como respondem à conversão de florestas.

A comparação deve ser feita com cautela. Um inventário colombiano não permite concluir automaticamente quais espécies existem no Brasil ou como as populações amazônicas estão mudando. O principal aprendizado para a região é a importância de conectar coleções locais, pesquisadores e bases públicas antes de tentar medir perdas ou ganhos de biodiversidade.

Uma base para conservação, não um ponto final

As autoras e os autores defendem que listas de espécies são ferramentas essenciais para acompanhar transformações na biodiversidade. Sem uma referência inicial, torna-se difícil identificar se uma abelha deixou de ser encontrada por causa de uma mudança ambiental ou simplesmente porque nunca foi procurada naquele local.

O inventário também reforça o papel dos museus e das coleções de história natural. Mesmo quando foram coletados há muitos anos, os exemplares podem ser revisados com técnicas taxonômicas atuais e comparados com novos registros. Para o pesquisador Ruben D. Martín-Rojas, esses acervos são arquivos indispensáveis da biodiversidade.

O trabalho recebeu apoio do Fulbright U.S. Scholars Program durante um período de pesquisa de um ano realizado por López-Uribe. A participação de Martín-Rojas foi apoiada pelo Strategic Networks and Initiatives Program, da Faculdade de Ciências Agrícolas da Penn State. A National Science Foundation também financiou parcialmente a pesquisa por meio dos projetos OISE 1952470 e 2420254.

A publicação completa está disponível na revista PeerJ. Informações sobre a rede colombiana de pesquisa podem ser consultadas no site do Water, Energy and Food Nexus.

O próximo passo da rede é ampliar a documentação das abelhas colombianas, especialmente nas áreas ainda pouco amostradas, para aproximar a lista publicada da estimativa de 1.400 espécies.

Com informações de Penn State University.

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