Após 26 anos de mutirões, limpeza de praia expõe falha do plástico que a reciclagem não contém

Após 26 anos de mutirões, limpeza de praia expõe falha do plástico que a reciclagem não contém
Foto: João Malavolta

A mobilização em Itanhaém mostra que retirar resíduos da areia não substitui mudanças na produção e no consumo.

A areia do Praião, em Itanhaém, voltou a ser o ponto final de uma cadeia que começa muito antes do litoral. No domingo, 27 de setembro de 2026, voluntários do Instituto Ecosurf recolheram resíduos durante uma mobilização do Dia Mundial da Limpeza e registraram os materiais encontrados. A cena é conhecida, mas o dado mais importante está no tempo: a organização realiza operações semelhantes desde 2000 e, 26 anos depois, ainda encontra plástico em quantidade suficiente para sustentar uma pergunta incômoda sobre o modelo de produção.

A limpeza remove o que escapou do sistema, mas não altera automaticamente a embalagem, a distribuição, o consumo ou a responsabilidade de quem colocou aquele produto no mercado. Por isso, o mutirão pode ser lido de duas maneiras: como ação de emergência e como diagnóstico de uma falha estrutural.

O que a areia revela sobre a cadeia do plástico

Segundo o Instituto Ecosurf, a mobilização em Itanhaém reuniu voluntários para retirar resíduos, identificar materiais e produzir dados sobre o lixo encontrado na praia. A atividade combina educação ambiental, ciência cidadã e pressão pública. Também evidencia o limite de iniciativas que atuam apenas no último estágio do problema.

Uma embalagem encontrada na faixa de areia não surgiu ali por acaso. Antes de chegar ao ambiente, ela foi projetada, fabricada, transportada, comercializada e utilizada. Em algum ponto, a coleta falhou, o descarte foi inadequado ou o material não encontrou uma rota economicamente viável de recuperação. O resultado aparece na praia, mas as decisões que o produziram estão distribuídas por toda a cadeia.

Segundo o Instituto Ecosurf, a operação de limpeza ocorreu em 27 de setembro de 2026, no Praião, em Itanhaém, como parte do Dia Mundial da Limpeza. A entidade acompanha o problema do lixo marinho desde sua primeira mobilização, realizada em 2000.

Produção cresceu mais rápido que a capacidade de recuperação

Os números internacionais ajudam a dimensionar por que a repetição dos mutirões não significa que a estratégia esteja funcionando sozinha. Dados da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico indicam que a produção mundial de plásticos passou de 234 milhões de toneladas em 2000 para 460 milhões em 2019.

No mesmo intervalo, a geração de resíduos plásticos avançou de 156 milhões para 353 milhões de toneladas. Apenas 9% desse volume foram reciclados em 2019. A diferença entre o que é produzido e o que retorna ao ciclo produtivo deixa uma parcela expressiva dependente de aterros, incineração, descarte irregular ou dispersão no ambiente.

No Brasil, dados divulgados pelo próprio setor apontam que 21,3% dos resíduos plásticos pós-consumo foram reciclados mecanicamente em 2025. Quando entram na conta embalagens e materiais equiparáveis, o índice sobe para 24,2%. A evolução na oferta de resina reciclada é relevante, mas não elimina a questão central: a maior parte do material ainda não retorna de forma efetiva ao sistema.

A conta não pode começar pelo consumidor

Durante anos, a comunicação sobre resíduos se concentrou em orientações como separar, descartar corretamente e reciclar. Essas atitudes têm valor, mas tornam-se insuficientes quando transformam o consumidor no principal responsável por uma estrutura que ele não controla.

O cidadão não escolhe a matéria-prima, o número de camadas de uma embalagem, a possibilidade de reuso ou a facilidade de desmontagem do produto. Também não define quantas unidades serão lançadas no mercado nem se haverá coleta seletiva, logística reversa e compradores para o material recuperado.

Essa assimetria é especialmente visível em produtos usados por poucos minutos, mas que podem permanecer no ambiente por períodos muito mais longos. A responsabilidade compartilhada precisa incluir o consumidor, mas não pode terminar nele. Fabricantes, importadores, distribuidores, comerciantes, governos e empresas de gerenciamento de resíduos também participam do ciclo.

Lei, certificados e resultado ambiental

A Política Nacional de Resíduos Sólidos, instituída em 2010, estabelece uma ordem de prioridade que começa pela não geração e passa por redução, reutilização, reciclagem, tratamento e disposição adequada dos rejeitos. A lei também distribui responsabilidades ao longo do ciclo de vida dos produtos.

O problema apontado pelo Ecosurf está na distância entre a formalidade dos procedimentos e o efeito observado no território. Certificados, créditos, relatórios e metas podem organizar sistemas de controle, mas não substituem indicadores ambientais. A pergunta decisiva é se menos plástico está chegando às ruas, aos rios e às praias, e se produtos desnecessários estão deixando de ser produzidos.

O Decreto nº 12.688/2025 criou o sistema nacional de logística reversa de embalagens plásticas. A norma prevê responsabilidades para fabricantes, importadores, distribuidores e comerciantes, além de metas, rastreabilidade, conteúdo reciclado e participação de cooperativas e organizações de catadores. Também em 2025, a Estratégia Nacional Oceano sem Plástico passou a contemplar a redução de itens de uso único e a substituição gradual de embalagens multicamadas de baixa reciclabilidade.

O teste será visto nas cidades e nas águas

A existência de novas regras não garante, por si só, uma redução do lixo no ambiente. O resultado dependerá da fiscalização, da execução municipal, da inclusão dos catadores e da capacidade de acompanhar o material desde a colocação no mercado até sua recuperação ou destinação final.

Esse debate também interessa diretamente à Amazônia. Em cidades amazônicas, onde rios, igarapés, áreas de várzea e zonas costeiras conectam os espaços urbanos ao mar, o resíduo descartado longe da praia pode percorrer uma cadeia hídrica antes de se tornar lixo marinho. A discussão sobre embalagens, coleta seletiva e logística reversa, portanto, não é exclusiva do litoral paulista. Ela alcança a rotina de municípios do Pará, Amazonas, Amapá, Acre, Rondônia, Roraima, Tocantins e Maranhão sempre que a infraestrutura não acompanha o volume de descartáveis.

A mesma lógica vale para o Projeto de Lei 2524/2022, em tramitação no Senado. A proposta trata de economia circular do plástico, mecanismos de responsabilização e inclusão de cooperativas e associações de catadores em um programa federal de pagamento por serviços ambientais. O texto recebeu parecer favorável na Comissão de Assuntos Sociais e permanece sob relatoria na Comissão de Assuntos Econômicos.

Reciclar não basta para fechar a torneira

A reciclagem é necessária, mas não deve funcionar como autorização para manter indefinidamente a produção de itens descartáveis e de baixa recuperação. A abordagem defendida pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente prioriza a eliminação de plásticos problemáticos e desnecessários, seguida pela expansão do reuso, da reciclagem e de alternativas adequadas. Segundo o PNUMA, mudanças sistêmicas poderiam reduzir a poluição plástica global em até 80% até 2040.

O setor privado também enfrenta um dilema de credibilidade. Patrocinar uma limpeza de praia pode apoiar uma ação importante, mas não compensa, sozinho, a manutenção de embalagens descartáveis ou difíceis de reciclar. Quando a comunicação ambiental cresce mais rápido que a transformação de produtos e processos, a sustentabilidade corre o risco de virar apenas estratégia de reputação.

Depois de 26 anos de mobilizações, a limpeza de praia continua necessária para remover resíduos e produzir conhecimento. Mas o indicador de sucesso não deveria ser a quantidade de lixo recolhida a cada ano. Ele precisa incluir a redução do material que chega à areia, a substituição do descartável, o fortalecimento da coleta e a responsabilização de quem decide o que será produzido.

Os próximos passos dependem da aplicação do novo sistema de logística reversa, do avanço do debate no Senado e da capacidade de transformar compromissos ambientais em redução mensurável do plástico que escapa para o ambiente.

Com informações de Instituto Ecosurf.

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