
Em 1995, os Estados Unidos soltaram 14 lobos no Parque Nacional de Yellowstone, quase 70 anos depois de o animal ter sido eliminado da região. Três décadas depois, um estudo da Universidade do Estado do Oregon mostra que os álamos, árvores que quase não conseguiam crescer no norte do parque, estão voltando. Segundo os ecólogos Luke Painter, Robert Beschta e William Ripple, 43% dos bosques de álamo estudados tinham árvores jovens com pelo menos 5 centímetros de diâmetro na altura do peito, algo que não se registrava no norte de Yellowstone desde a década de 1940. O trabalho foi publicado em 2025 na revista científica Forest Ecology and Management e virou alvo de um debate entre pesquisadores em 2026.
O que o estudo encontrou
- os pesquisadores revisitaram, em 2020 e 2021, 87 bosques de álamo que tinham sido avaliados pela primeira vez em 2012;
- em 43% dos locais havia árvores jovens já com porte para chegar à copa da floresta;
- a densidade de mudas de álamo aumentou mais de 152 vezes entre 1998 e 2021;
- segundo os autores, é o primeiro registro documentado de álamos chegando à fase adulta no norte de Yellowstone desde os anos 1940.
Como os lobos entram nessa história
Sem lobos, os alces se multiplicaram no parque durante grande parte do século 20. Eles comiam os brotos e as mudas de álamo antes que as árvores conseguissem crescer. No inverno de 1995, havia cerca de 17 mil alces no norte do parque. Hoje, segundo os dados citados pelos pesquisadores, são cerca de 2 mil.
Para Painter e os colegas, a volta dos lobos ajudou a derrubar o número de alces e a mudar o comportamento deles, o que deu às mudas a chance de crescer. É o que os ecólogos chamam de cascata trófica: um predador no topo da cadeia alimentar provoca efeitos em série que chegam até as plantas. Em 2024, o parque tinha pelo menos 108 lobos em nove alcateias.
O debate entre cientistas
Nem todos concordam com o tamanho do efeito. Em 2026, a mesma revista publicou um comentário de Daniel MacNulty e colegas que afirma que o estudo exagera a força da cascata trófica provocada pelos lobos. Os autores do estudo original responderam, defendendo que o efeito é ecologicamente importante.
Outros pesquisadores apontam que vários fatores reduziram os alces ao mesmo tempo: a caça feita por pessoas fora dos limites do parque, a predação por ursos-pardos e a competição com os bisões, cuja população aumentou. Uma tese defendida em 2022 por Elaine Brice, da Universidade Estadual de Utah, concluiu que a caça de alces ao norte do parque teve peso maior que a predação pelos lobos no aumento de álamos jovens.
O próprio Painter reconhece que as árvores jovens ainda podem morrer, mas lembra que, à medida que crescem, ficam mais resistentes.
Por que os álamos importam
Os bosques de álamo estão entre os ambientes mais ricos em espécies das Montanhas Rochosas. Eles abrigam aves, insetos e pequenos mamíferos, ajudam a reter água no solo e criam sombra nas margens de riachos. A perda desses bosques ao longo do século 20 foi um dos sinais mais visíveis do desequilíbrio no parque.
Uma lição para outras reintroduções
A história de Yellowstone é usada no mundo todo como exemplo do que pode acontecer quando um grande predador volta a um ecossistema. Ela também mostra que a recuperação leva décadas e raramente tem uma causa só. No Brasil, projetos de reintrodução, como os do mutum-de-alagoas e do periquito-cara-suja, enfrentam o mesmo desafio: medir, ao longo de muitos anos, o efeito da volta de uma espécie sobre toda a floresta.
Perguntas frequentes
Quando os lobos voltaram a Yellowstone?
Em 1995, quando 14 lobos foram soltos no parque.
O que mudou com a volta dos lobos?
Segundo o estudo, álamos jovens voltaram a crescer no norte do parque pela primeira vez desde os anos 1940, com a queda no número de alces.
Os lobos salvaram os álamos sozinhos?
Não há consenso. Parte dos cientistas atribui peso maior à caça de alces por pessoas, aos ursos e aos bisões.
Quantos alces existem hoje?
Cerca de 2 mil no norte do parque, contra cerca de 17 mil em 1995.
A resposta definitiva sobre o papel dos lobos depende de quantas dessas árvores jovens vão, de fato, chegar à idade adulta nos próximos anos.
Com informações do estudo de Luke Painter, Robert Beschta e William Ripple, da Universidade do Estado do Oregon, publicado em Forest Ecology and Management, do comentário de Daniel MacNulty e colegas na mesma revista e do Serviço Nacional de Parques dos EUA.
Guia com 15 anos de Pantanal nunca tinha visto nada igual: um veado-campeiro totalmente branco, que virou o fantasma dos campos alagados
Machos de morcego defendem grupos de até 25 fêmeas, e análise de 511 animais encontra diferenças nas defesas do organismo conforme sexo e idade
Morcego do tamanho de um beija-flor, com 8 gramas, passou quase 60 anos confundido com outra espécie até cientistas brasileiros perceberem a diferençaGostou desta reportagem?
Marque Revista Amazônia como fonte preferencial e veja mais conteúdo nosso no Google.














