
A ave espera em um poleiro, mergulha para capturar peixes e depende de barrancos e vegetação ribeirinha para se reproduzir
O martim-pescador caça de um poleiro à beira da água, de onde observa o rio, mergulha para pegar o peixe e volta ao mesmo galho ou a outro próximo para engoli-lo. A visão da ave é considerada excelente: segundo Woodall (2001), no Handbook of the Birds of the World, os martins-pescadores têm visão binocular e provavelmente boa percepção de cores, e conseguem compensar a refração da água e julgar profundidades com precisão. Uma peça central desse sistema é o olho, que traz duas fóveas, regiões da retina com maior concentração de células para enxergar detalhes.
A ideia de que os dois pontos de visão aguda servem para corrigir a refração, porém, é uma interpretação que ainda não foi demonstrada. O que está descrito na literatura é a anatomia do olho e o comportamento de caça, e é isso que esta reportagem apresenta.
Duas fóveas em cada olho
Schwab e Hart (2004), em ensaio no British Journal of Ophthalmology, descrevem que os martins-pescadores possuem duas fóveas por olho. A fóvea nasal é monocular e tem maior densidade de células ganglionares, o que sugere maior acuidade visual. A fóvea temporal é binocular e mais rasa. As duas são ligadas por uma faixa de visão, chamada de infula.
A separação entre elas chega a 52 graus nos martins-pescadores, contra cerca de 15 graus em águias e milhafres, o que posiciona a fóvea binocular na direção do bico, segundo os mesmos autores. Dito de outra forma, quando a ave aponta a cabeça para a presa, a região de visão aguda dos dois olhos fica alinhada ao eixo do bico.
Gotículas coloridas e proteção do olho
Schwab e Hart (2004) também descrevem as gotículas de óleo coloridas das células da retina, que funcionam como filtros e podem melhorar a discriminação de cores e reduzir o brilho. Nos martins-pescadores aquáticos predominam gotículas vermelhas, e os autores observam que a razão ainda não é compreendida.
Na hora do mergulho, a membrana nictitante, uma pálpebra transparente, protege os olhos no impacto com a água, segundo Woodall (2001). O movimento do olho dentro da órbita é limitado, de modo que a ave acompanha a presa movendo a cabeça.
O mergulho e o ângulo de ataque
Para o martim-pescador-malhado (Ceryle rudis), espécie da África e da Ásia, Schwab e Hart (2004) relatam que a ave mantém a cabeça firme enquanto paira no ar e que presas mais profundas levam a mergulhos mais íngremes. Os autores levantam a possibilidade de que isso reduza o efeito da refração. É uma hipótese, que não foi testada para as espécies brasileiras.
O martim-pescador-pequeno (Chloroceryle americana), de cerca de 20 centímetros e 35 a 40 gramas, mergulha de poleiros a 1 ou 1,5 metro de altura e costuma trocar de poleiro depois de cada mergulho, às vezes pairando no ar antes de se lançar. Alimenta-se principalmente de pequenos peixes, camarões e outros crustáceos e insetos, e pode defender um trecho de rio de até cerca de 1 quilômetro.
Três espécies comuns nos rios brasileiros
O martim-pescador-verde (Chloroceryle amazona) mede cerca de 30 centímetros, pesa de 98 a 140 gramas e se alimenta principalmente de peixes, sobretudo caracídeos, e de crustáceos. Espera em um poleiro e mergulha, e ocasionalmente paira antes do ataque. Vive em grandes rios, em margens de lagos e lagoas e em manguezais, com preferência por paisagens abertas.
O martim-pescador-grande (Megaceryle torquata) pesa entre 305 e 341 gramas e tem bico de 75 a 94 milímetros. Come sobretudo peixes das famílias dos caracídeos e dos ciclídeos, podendo ficar horas em um poleiro à espera. Ocorre do sul do Texas à Terra do Fogo, em margens de rios, lagos, estuários e manguezais. Segundo Woodall (2001), espécies do grupo costumam bater a presa maior contra o poleiro antes de engoli-la.
Reprodução em tocas no barranco
A maioria dos martins-pescadores nidifica em túneis escavados em barrancos de terra à margem de rios, lagos e valas, terminando em uma pequena câmara (Woodall, 2001). Machos e fêmeas dividem a escavação. O martim-pescador-pequeno faz túneis de até cerca de 1 metro, com 2 a 6 ovos, incubação de 19 a 21 dias e filhotes que deixam o ninho 26 a 27 dias depois da eclosão.
O martim-pescador-verde escava túneis levemente inclinados que podem chegar a 1,6 metro, com 3 ou 4 ovos, incubação de cerca de 22 dias e saída dos filhotes 29 a 30 dias depois da eclosão. Em ambos os casos, a presença de um barranco estável perto da água é condição para a reprodução.
Assim, a eficiência do martim-pescador na pesca depende de um conjunto de fatores: olhos com duas fóveas, bico em forma de adaga, poleiros bem posicionados e água com peixes visíveis. A margem do rio, com seus barrancos e galhos, é parte desse sistema. Preservar a vegetação ribeirinha mantém não só a pesca, mas o lugar onde a ave constrói a toca e cria os filhotes.
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