Parente dos mamíferos do tamanho de uma lontra nadava entre dinossauros há 165 milhões de anos e já tinha a peça que permitiu mamar e respirar ao mesmo tempo

Parente dos mamíferos do tamanho de uma lontra nadava entre dinossauros há 165 milhões de anos e já tinha a peça que permitiu mamar e respirar ao mesmo tempo
Ornitorrinco nadando, mamífero atual com aparência e hábitos que lembram o do Megacauda. Foto: Peter Scheunis, via Wikimedia Commons, licença CC BY 1.0.

Há 165 milhões de anos, enquanto dinossauros dominavam a terra, um animal peludo de cerca de meio metro do focinho à ponta da cauda caçava na água onde hoje é a Mongólia Interior, na China. Batizado de Megacauda sungei, ele era grande para os padrões dos parentes antigos dos mamíferos e trazia uma novidade importante: um palato mole, a estrutura que separa a boca da garganta.

O estudo, de pesquisadores de Shenyang, na China, de Chicago, nos Estados Unidos, e de Bonn, na Alemanha, foi publicado na revista científica Nature.

Engolir e respirar

Muitos animais não têm palato mole. Os crocodilos, por exemplo, levantam a cabeça e dão trancos para empurrar a comida, sem mastigar, garganta abaixo, com ajuda da gravidade, explica o paleontólogo Thomas Martin, da Universidade de Bonn.

Os mamíferos têm um sistema mais elaborado, com o palato mole e um conjunto complexo de ossos na garganta, que permite engolir mesmo contra a gravidade e continuar respirando. Os humanos, por exemplo, conseguem beber de canudo de cabeça para baixo. Essa capacidade foi decisiva: permite que filhotes mamem leite sem que o líquido entre no nariz e sem parar de respirar.

Para Martin, foi essa adaptação que tornou possível o desenvolvimento do cérebro que acabou levando aos humanos. O leite, rico em nutrientes, sustenta o crescimento de cérebros grandes nos primeiros meses de vida.

Um nadador de cauda larga

Com pelo curto e cauda larga e achatada, o Megacauda se parecia com uma lontra, um castor ou um ornitorrinco. Tomografias do fóssil permitiram reconstruir o corpo em 3D e indicam que ele nadava remando com as patas da frente e ondulando a cauda. Os dentes tinham pontas curvadas para trás, ideais para segurar presas escorregadias, como peixes e outros animais aquáticos.

O nome Megacauda significa cauda grande. A espécie homenageia o professor Sun Ge, diretor honorário do Museu Paleontológico de Liaoning, em Shenyang, que adquiriu o fóssil anos atrás numa coleção. A importância do exemplar só ficou clara quando três cientistas o examinaram juntos: Chang-Fu Zhou, da Universidade de Shandong, Zhe-Xi Luo, da Universidade de Chicago, e Thomas Martin.

Os docodontes

O Megacauda pertence aos docodontes, um grupo de parentes próximos dos mamíferos que viveu no Jurássico. Fósseis de outras espécies mostram que eles já tinham modos de vida variados: havia escavadores, escaladores e nadadores. Isso indica que os ancestrais dos mamíferos se diversificaram cedo, muito antes da extinção dos dinossauros, ocupando nichos que mais tarde seriam de lontras, toupeiras e esquilos.

Na era dos dinossauros, de cerca de 230 milhões a 66 milhões de anos atrás, a maioria desses parentes era minúscula, com poucos gramas. Por isso, um animal de meio metro era um peso-pesado.

Perguntas frequentes

Quando os mamíferos começaram a mamar?

Ainda não há data exata, mas o Megacauda mostra que estruturas ligadas à amamentação, como o palato mole, já existiam há 165 milhões de anos.

O que é o palato mole?

É a parte macia do céu da boca, que separa a boca da garganta e permite engolir e respirar ao mesmo tempo.

Com informações da Universidade de Bonn e do estudo publicado na Nature.

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