Peixes do Araguaia têm mercúrio em níveis próximos aos do Madeira, mesmo sem tanto garimpo; estudo aponta desmatamento e queimadas como suspeitos

Peixes do Araguaia têm mercúrio em níveis próximos aos do Madeira, mesmo sem tanto garimpo; estudo aponta desmatamento e queimadas como suspeitos
Rio Araguaia na divisa entre Pará e Tocantins, visto por satélite. Imagem: Coordenação-Geral de Observação da Terra/Inpe, via Wikimedia Commons, licença CC BY-SA 2.0.

Quando se fala em mercúrio nos peixes da Amazônia, a primeira lembrança é o garimpo de ouro. Um estudo com peixes dos rios Madeira e Araguaia mostra que a história pode ser mais ampla. Pesquisadores encontraram concentrações elevadas do metal em peixes de lagos do Araguaia, no Cerrado, onde o garimpo foi historicamente mais breve e localizado, e sinais de que o desmatamento e as queimadas podem estar por trás.

O trabalho foi publicado na revista científica Environmental Geochemistry and Health, com participação da Universidade de Brasília (UnB) e da Universidade Federal de Rondônia (Unir).

Duas bacias, duas histórias

A comparação reuniu bacias com passados diferentes. O Madeira, na Amazônia, carrega décadas de garimpo, desmatamento e grandes hidrelétricas. O Araguaia, no Cerrado, teve a paisagem transformada pelo avanço da soja, da pecuária, do desmatamento e das queimadas.

A ideia surgiu quando o professor Wanderley Rodrigues Bastos, da Unir, que pesquisa mercúrio na Amazônia há décadas, percebeu que os níveis em peixes do Araguaia se aproximavam dos do Madeira. Como explicar isso numa bacia com muito menos garimpo?

Como foi feito

Os peixes foram coletados em lagos de planície de inundação ligados aos dois rios, ambientes que acompanham a cheia e a seca e acumulam o que a água transporta. No lago Puruzinho, em Humaitá (AM), as coletas começaram em 2019, com ajuda de comunidades locais, a cada três meses. No Araguaia, a equipe fez as próprias expedições, cobrindo diferentes fases do rio e espécies com hábitos alimentares variados.

O que encontraram

As concentrações de mercúrio total variaram de 37 a 2.473 microgramas por quilo no Madeira e de 6 a 1.947 microgramas por quilo no Araguaia. Nas duas bacias, peixes que comem plâncton, outros animais ou outros peixes tiveram níveis bem maiores que os que se alimentam de detritos.

As maiores concentrações apareceram no Madeira. Mas a biomagnificação, o aumento do contaminante a cada degrau da cadeia alimentar, foi mais intensa no Araguaia. Segundo os pesquisadores, a explicação pode estar na estrutura da cadeia: o Madeira tem uma das maiores diversidades de peixes do mundo e uma rede alimentar mais complexa.

Mercúrio que vem do chão

Parte do mercúrio nos peixes da Amazônia e do Cerrado não vem diretamente do garimpo. O metal existe naturalmente no solo dessas regiões. Quando a vegetação é derrubada ou queimada, a erosão carrega o mercúrio para rios e lagos. Ali, ele passa por transformações químicas e vira metilmercúrio, a forma mais tóxica, que se acumula nos organismos e sobe pela cadeia alimentar até os peixes predadores.

E a saúde de quem come peixe?

Pela regra da Anvisa, o limite de mercúrio para consumo é de 0,5 miligrama por quilo, ou 500 microgramas, para peixes não predadores, e de 1 miligrama por quilo para predadores. Parte das amostras do estudo ultrapassa esses valores. Os especialistas alertam para o risco às populações ribeirinhas, que comem peixe quase todo dia, mas lembram que faltam dados sobre a frequência de consumo na região para medir o impacto exato.

A orientação geral de órgãos de saúde é variar as espécies e, em áreas com contaminação conhecida, preferir peixes que se alimentam de plantas e detritos, que acumulam menos mercúrio que os grandes predadores. Gestantes e crianças são os grupos mais sensíveis.

Perguntas frequentes

Só o garimpo causa mercúrio nos peixes?

Não. O estudo indica que o desmatamento e as queimadas também podem levar ao rio o mercúrio que existe naturalmente no solo.

Quais peixes acumulam mais mercúrio?

Os predadores, que comem outros peixes, porque o metal se concentra a cada nível da cadeia alimentar.

Com informações da Universidade de Brasília (UnB), da Universidade Federal de Rondônia (Unir) e do estudo publicado na Environmental Geochemistry and Health.

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