Concreto vira área permeável com 3.610 árvores plantadas sob viadutos da Avenida ACM, em Salvador

Concreto vira área permeável com 3.610 árvores plantadas sob viadutos da Avenida ACM, em Salvador
Foto: Copyright 2026 - Sustentabilidade em Pauta - Por Ge

Microfloresta ocupa 5 mil m² em um dos corredores mais movimentados da capital baiana e busca reduzir calor e alagamentos.

Quem passa pela Avenida Antônio Carlos Magalhães, em Salvador, verá crescer uma área verde onde antes predominavam concreto, asfalto e o fluxo contínuo de veículos. Entre os viadutos José Linhares e Raul Seixas, a Prefeitura de Salvador plantou 3.610 mudas de árvores em um terreno de 5 mil metros quadrados. A nova microfloresta foi implantada em 21 de setembro, Dia da Árvore, para amenizar o calor, favorecer a infiltração da chuva e ampliar a presença de fauna em uma das regiões mais movimentadas da capital baiana.

A escolha do local revela o principal problema que a iniciativa tenta enfrentar: a impermeabilização do solo. Quando a superfície é coberta por pavimento, a água da chuva encontra menos espaço para penetrar no terreno e escoa rapidamente para ruas, galerias e pontos baixos. A vegetação não elimina sozinha o risco de alagamentos, mas pode ajudar a desacelerar esse escoamento e melhorar as condições térmicas de uma área cercada por viadutos e veículos.

O que mudou no canteiro central

O projeto reorganizou 5 mil m² que eram considerados impermeáveis e os converteu em solo permeável. Nesse espaço foram reunidas 24 espécies, entre árvores nativas, ornamentais e frutíferas. A lista inclui pau-brasil, pau-ferro, ipês, pata-de-vaca, aroeira-pimenteira, sibipiruna, ingá, quaresmeira, manacá-da-serra, jacarandá, acácia, oiti e guaimbê.

Também foram plantados cajueiros, jabuticabeiras e araçazeiros. A diversidade foi pensada para formar, ao longo do tempo, uma cobertura vegetal com diferentes portes e funções. Árvores maiores tendem a fornecer sombra, enquanto espécies frutíferas podem oferecer alimento para aves e outros animais. Esses resultados, porém, dependem do crescimento das mudas, da irrigação e da manutenção do espaço nos próximos anos.

Segundo a Secretaria Municipal de Sustentabilidade, Resiliência e Bem-Estar e Proteção Animal de Salvador, 3.610 mudas de 24 espécies foram plantadas em 21 de setembro de 2026, em uma área de 5 mil m² da Avenida ACM.

Calor, chuva e circulação de pessoas

O secretário Ivan Euler afirmou que a transformação deve produzir sombra, reduzir a temperatura e contribuir para a qualidade do ar e do microclima. Em áreas urbanas extensamente pavimentadas, a vegetação pode diminuir a exposição direta ao sol e reduzir o aquecimento das superfícies. O benefício tende a ser gradual, porque uma microfloresta recém-plantada ainda não tem o porte de uma formação vegetal consolidada.

A drenagem é outro eixo da proposta. A substituição de concreto e asfalto por uma área com plantas e solo exposto cria mais possibilidades de retenção e infiltração da água. O desempenho real dependerá da capacidade do solo, da intensidade das chuvas, do desenho da drenagem existente e da conservação das raízes e dos espaços livres.

Por isso, a implantação não deve ser confundida com uma solução isolada para enchentes. A microfloresta pode integrar uma estratégia de adaptação climática, mas precisa funcionar junto com limpeza de canais, manutenção de galerias, planejamento viário e monitoramento de áreas vulneráveis. O próprio caráter recente do plantio impede medir, neste momento, quanto a temperatura ou o volume de água escoado diminuirá.

Iluminação e segurança fazem parte da adaptação

A área também receberá postes e luminárias instalados pela Diretoria de Serviços de Iluminação Pública. A medida pretende manter o espaço iluminado, especialmente por estar localizado entre estruturas viárias de grande circulação. O diretor Ângelo Magalhães informou que Salvador utiliza tecnologia 100% LED na iluminação pública e relacionou a substituição das lâmpadas antigas à redução de resíduos e emissões.

A iluminação é um detalhe importante para a permanência e a segurança em espaços verdes urbanos. Sem acesso adequado, visibilidade e manutenção, uma área arborizada pode se tornar pouco utilizada, mesmo quando oferece benefícios ambientais. A combinação entre plantio, iluminação e acompanhamento será decisiva para que o canteiro não seja apenas uma obra paisagística, mas cumpra funções ambientais durante todo o ano.

Salvador já havia iniciado o modelo

A nova área é a segunda microfloresta implantada na capital baiana em 2026. Em junho, um trecho entre as avenidas Gal Costa e Jayme Figura recebeu 1.063 mudas nativas em aproximadamente 1 mil m². Esse primeiro projeto reuniu cerca de 40 espécies da Mata Atlântica, incluindo jequitibá, jatobá, pau-brasil, jacarandá-da-bahia, ipê, ingá, angico, araçá, pitanga, jabuticaba e grumixama.

A primeira iniciativa foi feita por meio de parceria entre a Secis e a cervejaria Heineken, dentro do Plano de Mitigação e Adaptação às Mudanças do Clima de Salvador e da plataforma Green Your City. A capital baiana foi a sétima do país a receber uma microfloresta desse projeto e a primeira contemplada em 2026.

Além dos dois núcleos, moradores também participaram de ações menores de plantio. A professora de Pilates Ieda Dias, moradora do Itaigara, esteve na implantação da área da Avenida ACM e já havia participado do plantio de quase 100 mudas no canteiro central da Avenida Mário Leal Ferreira. Para ela, a participação da população precisa continuar depois das datas comemorativas.

“Onde há árvore, há vida. Os pássaros, as abelhas e as borboletas vêm, cada um com a sua contribuição”, afirmou Ieda Dias.

O que a experiência significa para a Amazônia

A conversão de superfícies impermeáveis em áreas verdes interessa também às cidades dos nove estados da Amazônia Legal. Em capitais e municípios amazônicos, a arborização pode ser aplicada em canteiros, margens de avenidas, áreas públicas subutilizadas e terrenos sujeitos ao aquecimento excessivo. O modelo não deve ser copiado automaticamente: espécies, solo, regime de chuvas e manutenção precisam ser definidos conforme cada cidade.

O ponto mais relevante da experiência de Salvador é combinar quantidade de árvores com recuperação do solo. Plantar em vasos, calçadas estreitas ou áreas totalmente pavimentadas produz um efeito diferente de retirar concreto e criar uma superfície capaz de receber água. Para o leitor amazônico, a iniciativa oferece uma referência de planejamento, não uma fórmula pronta.

O próximo passo será acompanhar o desenvolvimento das mudas, concluir a instalação da iluminação e verificar se a área se consolida como espaço de sombra, biodiversidade e infiltração de água ao longo dos próximos anos.

Com informações da Prefeitura de Salvador.

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