
Pesquisa da Unifap e do Iepa encontrou microplásticos em peixes e na água da chuva de uma das áreas mais isoladas da Amazônia.
Partículas aparecem onde a floresta parece isolada
Ao microscópio, o material retirado dos peixes não se parecia apenas com sedimentos dos rios. Entre as partículas analisadas havia fibras, fragmentos de filme plástico e até glitter. Os exemplares foram coletados em rios do Parque Nacional Montanhas do Tumucumaque, no Amapá, uma área protegida de difícil acesso e distante dos grandes centros urbanos. A presença desses materiais levou pesquisadores a investigar não somente os peixes, mas também o caminho percorrido por partículas tão pequenas até chegar a um ambiente remoto da Amazônia.
A pesquisa foi realizada por acadêmicos da Universidade Federal do Amapá, a Unifap, e bolsistas do Instituto de Pesquisas Científicas e Tecnológicas do Estado do Amapá, o Iepa. O estudo foi divulgado em 19 de março de 2026 e publicado em uma revista internacional dedicada a temas ambientais. O trabalho registra microplásticos na fauna aquática e apresenta evidências de que a contaminação pode alcançar o parque pela atmosfera. A descoberta muda a escala do problema observado pelos pesquisadores, porque indica que a distância de fontes urbanas não impede a chegada de partículas produzidas e descartadas em outros lugares.
Uma observação iniciada em 2022 chega aos peixes
A identificação inicial ocorreu em 2022, quando a mestranda Thayana Castro, do Programa de Pós-Graduação em Biodiversidade da Unifap, encontrou pela primeira vez microplásticos nos peixes analisados. Desde a graduação, ela acompanha o tema e passou a observar no microscópio materiais que não eram visíveis a olho nu. As fibras, os fragmentos de filme plástico e o glitter revelaram que as partículas tinham formas e origens variadas, embora a pesquisa não atribua cada item a um produto ou atividade específica.
O achado foi tratado como um alerta para a fauna aquática porque os pesquisadores relacionam a presença dos microplásticos a possíveis alterações no crescimento e na reprodução dos peixes. Essas consequências são apresentadas como riscos biológicos associados à exposição, e não como uma medição de efeitos provocados em cada animal coletado. A equipe também ressalta que o problema não se restringe aos rios ou aos peixes. Microplásticos já foram identificados em aves e em seres humanos, o que ampliou o interesse científico sobre a circulação dessas partículas no ambiente e seus possíveis efeitos sobre a saúde.
A chuva fornece uma pista para a rota atmosférica
Para investigar como o material poderia alcançar uma área tão remota, os pesquisadores coletaram água da chuva em pontos do parque. Uma amostra de apenas 225 mililitros continha 194 partículas de microplástico. O resultado mostrou que a precipitação pode transportar esses materiais da atmosfera para o solo e para os cursos d’água, onde entram em contato com a fauna. A amostra não representa, sozinha, toda a chuva ou todos os rios do Tumucumaque, mas oferece uma evidência direta de que partículas estão presentes no ar que chega à unidade de conservação.
A hipótese da equipe envolve a ação combinada de ventos, nuvens e chuva. Correntes de ar poderiam levar fibras e fragmentos por longas distâncias, enquanto as nuvens transportariam parte desse material até regiões isoladas. Depois, a chuva lavaria a atmosfera e depositaria as partículas no ambiente. Jefferson Vilhena, pesquisador do Núcleo de Hidrometeorologia e Energias Renováveis, relaciona essa possibilidade ao transporte já conhecido de poeira do Saara para a Amazônia. O mecanismo atmosférico é plausível, mas a pesquisa ainda trata a origem exata dos microplásticos como uma hipótese a ser investigada.
O impacto aparece em uma escala menor que o olhar
O contraste central da pesquisa está entre o tamanho das partículas e a dimensão da consequência ambiental. Fibras, filmes plásticos e grãos de glitter podem passar despercebidos na água, mas foram identificados no material analisado dos peixes e na chuva coletada no parque. Para Thayana Castro, a observação mostra que a contaminação é silenciosa e pode atingir processos importantes da vida dos animais, como crescimento e reprodução. A pesquisa não estabelece que todos os peixes da unidade estejam contaminados nem mede uma taxa de mortalidade, mas registra a presença do plástico em uma cadeia ambiental distante das áreas urbanizadas.
O caso aproxima uma questão global de um território específico do Brasil: o Parque Nacional Montanhas do Tumucumaque, no Amapá. A floresta protegida não funciona como uma barreira absoluta contra materiais que circulam pelo ar. Ao contrário, a chuva transforma uma contaminação quase invisível em um registro mensurável no ambiente. Quando uma amostra pequena reúne 194 partículas, a conservação também passa a depender de decisões tomadas muito além dos limites do parque, onde cada fragmento pode começar sua trajetória antes de aparecer no microscópio.
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